“Fernando Pessoa – uma quase-autobiografia” | José Paulo Cavalcanti Filho

“Fernando Pessoa – uma quase-autobiografia” | José Paulo Cavalcanti Filho

Falar de si próprio tomando-se por outro

Em Portugal, ao longo da nossa história, habituámo-nos a arrumar no pedestal todos os nossos grandes heróis, receosos de lhes tocar como se isso os tornasse mais humanos e, com isso, menos propensos a serem olhados como génios – fizemos deles intocáveis. Aconteceu, por exemplo, com Amália Rodrigues, que teve de esperar uma pequena eternidade até que alguém se atrevesse a cantar as suas canções ou se aventurasse num filme ou série televisiva.

O mesmo sucedeu em certa parte com Fernando Pessoa, escritor português muitas vezes esquecido nos manuais escolares e pouco falado para lá da sua esfera literária, sempre com um pendor académico muito sacramental.

Durante oito anos, o escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho estudou a obra de Pessoa de um modo quase obsessivo, lendo cerca de 30 mil documentos. A partir dessa leitura compulsiva, decidiu que a vida de Pessoa podia ser contada quase através das suas próprias palavras, escrevendo “Fernando Pessoa uma quase-autobiografia”. Aliás, quem melhor do que Fernando Pessoa para contar a sua própria história, ele que, segundo Eduardo Lourenço, “descobriu o modelo de falar de si tomando-se sempre por outro”.

Temos assim a vida do poeta contada por ele próprio e organizada por Cavalcanti – “Com aspas é ele, sem aspas sou eu” – , no decurso da sua investigação por Lisboa e pelos locais por onde Pessoa havia passado, um trabalho de detective que deu frutos bem sumarentos: família, lugares, amigos, namoradas – verdadeiras ou sonhadas -, casas, empregos, hábitos, gostos e, claro, os incríveis heterónimos, num livro que apresenta Pessoa como um ser solitário perdido numa imensa multidão, que transformou uma vida que se poderia considerar banal numa das maiores criações literárias da – e para a – Humanidade.

Na introdução que faz ao livro, Cavalcanti avança que este “não é um livro para especialistas, por já terem, à disposição, páginas de mais”, reduzindo o objectivo das páginas “a serem simples guia para não iniciados”. Seja como for, quer o livro seja lido por leigos, estudiosos, apaixonados ou simplesmente curiosos, a conclusão será apenas uma: Fernando Pessoa é sinónimo de génio absoluto.

Uma edição Porto Editora



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