“Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar” | Alison Bechdel

“Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar” | Alison Bechdel

Se à primeira vista “Fun Home” parece ter uma aparência mais leve devido ao título e ao tom do desenho, tal não poderá estar mais longe da realidade

Alguns meses após a edição de “Persépolis”, a editora Contraponto volta à carga no panorama da BD auto-biográfica com o lançamento de “Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar”, de Alison Bechdel, a famosa autora das tiras “Dykes To Watch Out For”.

O título da obra vem de uma brincadeira da autora e família na qual apelidavam a sua própria casa de “Fun Home” (casa de diversão), por ser também uma “Funerary Home” (casa funerária). O contraste entre diversão e ambiente fúnebre era demasiado tentador para resistir, o que conduziu a autora, na altura criança, a inevitáveis comparações entre a sua família e a família Addams – comparações essas que, talvez, se estendessem além da casa.

Quando Alison, aos 20 anos, revela a sua homossexualidade perante a família, em vez da atenção esperada acaba por descobrir que é algo que ela e o seu pai, Bruce Bechdel, sempre tiveram em comum e, qual emancipação esperada, Alison volta a ser novamente puxada para dentro do círculo familiar. A autora apercebeu-se desde cedo de como ela e o pai desempenhavam em certo sentido papéis invertidos, de como tentava compensar a masculinidade do pai enquanto ele expressava a sua feminilidade através dela. Claro que tudo isto se desenrolava sem qualquer tipo de rótulos, as coisas eram simples e naturalmente assim. Passadas poucas semanas da revelação de que o seu pai é Gay, este morre num suspeito (pelo menos para a autora) acidente de viação deixando no ar uma sensação de quase “causa-efeito”. Neste livro, Alison revisita a sua infância e adolescência debruçando-se em particular na relação com o seu pai, agora à luz dos novos conhecimentos que adquiriu sobre o mesmo.

"Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar"

Bruce Bechdel esteve longe de ser um pai presente, não no sentido físico da palavra mas antes no emocional. Severo e pouco ou nada carinhoso, sempre foi uma pessoa cuja sombra projectada no lar inspirava algum temor. Era também um homem de paixões; vivia para o restauro histórico e tinha, na própria casa, provavelmente o seu maior trabalho, a sua obra-prima, que se estendeu além da simples beleza arquitectónica. Bruce conseguiu criar a imagem do lar perfeito que, tal como em muitos casos, não passava de uma mera ilusão; ainda assim, uma ilusão magistral e arduamente conseguida – não é à toa que “O Grande Gatsby” era uma das suas obras mais amadas.

Por falar em Fitzgerald, a autora teve um crescimento fortemente literário, fruto de ambos os seus pais serem ávidos leitores e professores de Inglês. A dada altura, Bruce até se aproxima mais da filha no sentido de poder ter ali uma companheira de leitura e, curiosamente – ou longe disso -, chega a aconselhar-lhe a auto-biografia de Colette num gesto que tem o seu quê de reconhecimento ou identificação.

Uma vez que os livros fizeram tanto parte do crescimento de Alison, é muito interessante as várias alusões que esta efectua entre eles e a sua própria família, que nas palavras da própria as faz, “não apenas como instrumentos descritivos, mas porque os meus pais são mais reais para mim em termos ficcionais”. Nesse sentido, cada capítulo acaba por recair mais sobre um determinado autor (ou obra), dado que aborda diferentes pontos da sua vida familiar. Assim sendo, contamos com a obra de Albert Camus sobre o tema do suícidio; o já mencionado F. Scott Fitzgerald e a ilusão; Marcel Proust e a homosexualidade; “O Vento nos Salgueiros” de Kenneth Grahame, e as raízes geográficas; e Oscar Wilde e a tentação/transgressão. A iniciar e a terminar a obra temos duas fortes ligações à paternidade: a relação de Ícaro e Dédalo, a simbolizar a da autora e do pai – ainda que Bruce assuma tanto o papel de Dédalo como de Ícaro – e, a encerrar, “Ulisses” de James Joyce que, debruçando-se sobre a paternidade espiritual, conclui de forma sublime esta viagem ao longo do crescimento de Alison Bechdel.

Se à primeira vista “Fun Home” parece ter uma aparência mais leve devido ao título e ao tom do desenho, tal não poderá estar mais longe da realidade. Estamos perante uma obra de grande densidade emocional, muito bem escrita e que tem tanto de momentos de grande humor como de grande angústia. Também o desenho, que lhe valeu comparações a Robert Crumb, é de uma dedicação e atenção ao pormenor notáveis. Nada em “Fun Home” é colocado ao acaso, sejam palavras ou imagens, e a forma como a autora joga com tudo isso é fascinante.

O sucesso de “Fun Home” é já incontornável – foi eleito o melhor livro em 2006 por várias entidades, entre as quais o New York Times. Passados seis anos chega a Portugal e, o que se deseja, é que seja muito bem recebido, servindo assim de incentivo à Contraponto para nos trazer o mais recente “Are You My Mother” que, como o próprio nome indica, se debruça sobre a relação da autora com a sua mãe.



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