Pompeia

Pompeia

Cinzas e Pó

Tinha 15 anos quando visitei as ruínas de Pompeia pela primeira vez.

Por essa altura já havia lido todos os livros de história que pude encontrar a esse respeito e já tinha assistido a uma série de televisão que me deixou saudades, chamada “Os Últimos Dias de Pompeia”.

E eis que estava agora sentado estrategicamente, no que havia sido provavelmente uma mesa onde uma família comia todos os dias. E olhando através do que restou de uma janela para o monumental Vesúvio, tentei imaginar a sensação de profundo horror e incredulidade de ver aquela montanha enorme cuspir fumo e fogo, sabendo que estaria a viver os últimos momentos da minha vida.

Nunca me esqueci dessa tarde de verão passada entre as ruínas de uma das mais emblemáticas cidades do passado, secretamente desejando que esta terrível história chegasse um dia ao grande ecrã.

Estamos no Séc. XXI e vivemos tempos entusiasmantes no que diz respeito às possibilidades quase infinitas de criar ou recriar cenários e acontecimentos de forma grandiosa, o que no entanto nem sempre vem acompanhado de ideias ou argumentos que façam valer essa riqueza plástica e tecnológica.

É o que acontece com este Pompeia.

Não fui ao visionamento com expectativas muito elevadas – os trabalhos de Paul W.S. Anderson são em geral inconsistentes – mas desejoso de uma boa surpresa.

Mas nada em Pompeia é uma surpresa. É como se Anderson tentasse colar o que de pior existe em filmes como: “Titanic”, “2012” e “O Cume de Dante”, usurpando ao longo do caminho, a estética da série de TV, “Spartacus” e imitando escandalosamente o Oscarizado “Gladiador”.

Penoso…

Pensei que uma dos pontos positivos do filme pudesse advir da presença de um elenco com alguns pontos de interesse, como a presença de Kiefer Sutherland, no papel do impiedoso e monolítico Corvus, Jared Harris como Severus, a lindíssima Carrie-Anne Moss, como Aurelia e principalmente Kit Harington a dar vida a Milo.

Tinha particularmente curiosidade em ver como se portava Harington neste papel principal, ele que interpreta John Snow, uma das mais interessantes personagens da fabulosa saga, “A Guerra dos Tronos”.

O resultado é muito pouco entusiasmante do ponto de vista cinematográfico. Sei no entanto, que essa não será a opinião de alguns e/ou principalmente algumas…

Passo a explicar, os actores cumprem o seu papel – incluindo aqui, Adewale Akinnuoye-Agbaje no papel de Atticus e Emily Browning como Cassia – mas a direcção de actores e a forma como os planos são filmados, faz “Pompeia”, parecer um enorme anúncio de boxers dos anos 90, repleto de jovens em tronco nu e sempre em poses reveladoras do trabalho de ginásio.

E é curiosamente neste ponto que talvez se encontre a maior originalidade deste filme. Desde que o cinema é cinema, que as mulheres (mais precisamente as formas femininas) bonitas e desnudas são utilizadas para compensar as fragilidades de muitos guiões.

Pois em “Pompeia”, as mulheres em geral estão completamente vestidas e os homens quase sempre seminus (na série “Spartacus” os homens ainda aparecem menos vestidos, mas aqui a democracia prevalece pois as mulheres também), o que demonstra talvez uma mudança estratégica na indústria cinematográfica, agora consciente da importância de trazer as mulheres para assistirem aos filmes de acção, o que era até aqui, o último bastião cinematográfico dos homens de barba rija.

Sinais dos tempos.

No que diz respeito ao enredo deste “Pompeia”, apesar de o filme começar com algumas passagens da famosa descrição da tragédia por parte de Plínio “O Jovem”, a narrativa segue vida própria, seguindo à margem da realidade histórica, ainda que convergindo com a mesma pontualmente.

Milo é o único sobrevivente de uma tribo Celta que cai aos pés do poderio Romano. Ainda criança, Milo vê os seus pais serem chacinados à sua frente pela mão de Proculus (Sasha Roiz) lugar-tenente do tenebroso Tribuno Corvus. Beneficiando da sorte e da sua precoce sagacidade, Milo escapa ao massacre mas não escapa ao cárcere, tornando-se escravo do império e o invencível gladiador conhecido como: O Celta. (Maximus, no filme “O Gladiador” é conhecido como, O Hispânico….).

Considerado valioso demais para continuar a lutar nas províncias remotas do império, Milo é trazido para a metrópole no sopé do monte Vesúvio. Aí os seus caminhos vão-se cruzar com Cassia, Atticus (personagem muito semelhante a Juba do filme “Gladiador”….), Proculus e Corvus.

O resto são computadores e ecrãs verdes.

Este é um filme que vive do CGI (Computer Graphic Imagery), como poucos e é precisamente aí que tenta marcar pontos com a ajuda do também cada vez mais na moda 3D.

O problema é que por vezes se nota que as sequências são programadas especificamente para essa tecnologia, o que as torna previsíveis quando não redundantes.

Aqui é um dos pontos onde a história vai para a esquerda e o filme para a direita.

 Plínio refere-se a rios de fogo a invadir a cidade e as cinzas a cobrirem homens e animais.

No entanto essa descrição não parece ter tido grande importância na construção das cenas pós-erupção. Nem deve ter existido uma grande investigação acerca das características do que ficou conhecido como “Erupção Pliniana”, mas talvez esteja a ser escrupuloso demais…

Talvez por a lava ser lenta e não tão apelativa em termos visuais, é preterida pela produção, pelos arremessos de rochas/piroclastos, também conhecidas como bombas vulcânicas que saem da chaminé do vulcão e que voam como meteoritos, atingindo casas e barcos, o que é, convenhamos bastante mais espectacular.

Por outro lado e apesar de se saber que a os gases que saíram do vulcão (nuvens piroclásticas) terem sido a razão da morte da maior parte dos habitantes, aqui os personagens lutam e correm no meio delas, sofrendo apenas de um pouco de tosse.

No entanto temos acesso a um maremoto (os tsunamis resultam sempre muito bem em 3D) que a história relata, mas que provavelmente não terá sido travado por um muro mais alto, como acontece no filme.

Temos portanto uma história de amor musculada, sem grandes momentos e a viver do suspense e intensidade da maior personagem do filme: O Vulcão!

É verdade que histórias de romances que se desenrolam no meio de calamidades, habitualmente têm muito sucesso junto do público e até da Academia, mas neste caso, falta bastante para estarmos na presença de um clássico.

Para mim, uma oportunidade perdida.

Sai com um Satisfaz (muito) Pouco.

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