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Julian Richards

Aproveitando a sua presença em Portugal, na primeira edição do PortoCine, estivemos à conversa com realizador britânico que apresentou o seu mais recente filme, "Summer Scars".

A primeira edição do PortoCine, o “festival de cinema independente do Porto” criado pelas mesmas pessoas que vos trouxeram o BragaCine, foi uma experiência surreal a todos os níveis. Antes do evento quase não houve divulgação – um dia o festival simplesmente estava lá, com os seus anúncios de estreias e antestreias, estrelas nacionais e internacionais. Tippi Hedren, Nicolau Breyner, curtas do Shonei Innamura, curtas sobre o 11 de Setembro, Mortadela & Salamão, “Gomorra”. Nada na programação parecia fazer sentido, e foi nisso também que residiu o charme deste peculiar festival.

A RDB falou com Julian Richards, apresentado pela organização com o título um tanto desonesto de “guionista de Spielberg” (na verdade a sua colaboração com o realizador reduz-se ao facto de ter adaptado “Calling All Monsters” para a Amblin), pouco depois de ter visto o seu último filme, “Summer Scars”, e pouco antes duma bizarra cerimónia de encerramento com um auditório inexplicavelmente cheio a assistir ao péssimo “Fireflies In The Garden” (Julia Roberts e William Dafoe! Num drama familiar! A filha é vegetariana…), precedido por uma entrega de prémios no bom molde “dá-se a quem aparece”. O próprio parecia tomar tudo de forma relaxada – a um velho profissional de cinema e televisão, pouco o espanta. “Summer Scars”, o seu último filme, a história de um grupo de jovens que tecem uma amizade perigosa com um forasteiro misterioso, tem a mesma atmosfera dum profissional que sabe o que faz e foi, sem dúvida, o ponto alto do PortoCine.

Fale-nos um pouco acerca de “Summer Scars”. Ouvi dizer que é baseado numa experiência verídica?

Certo. É uma espécie de mistura de duas ou três experiências que tive na minha infância no País de Gales. Em particular, houve uma ocasião em que eu e alguns amigos fomos tomados como reféns por um homem nos bosques com uma arma de pressão de ar. Esta situação marcou-me de certa forma e ficou uma história a contar, porque fiquei muito afectado pela experiência e pelas formas diferentes como eu e os meus amigos reagimos.

O filme parece incidir bastante sobre a psicologia das crianças. No início o “vilão da peça” é bastante carismático, é o adulto fixe com a arma que se idoliza, certo?

Sim, sim. A cena com o Peter nesta história é que durante o filme inteiro, e mesmo no fim, está sozinho, apesar de ser mesmo o vilão da história, podes simpatizar com ele. Acho que no geral todas as personagens são alienadas e por isso, de certa forma, partilham todos um espaço mental comum. O Peter tem problemas psicológicos. Acho importante quando se lida com esse tipo de assunto não mostrar as cenas como sendo só a preto-e-branco.

Considera-se um realista?

Sim. É uma boa questão porque muitos dos filmes que faço e o tipo de festivais nos quais participo têm o rótulo do fantástico, e apesar de fazer filmes deste tipo na verdade não pertencem bem ao fantástico, são é uma parte extraordinária dum mundo ordinário. Pessoalmente tenho que estar convencido que o que estou a ver é real, e a partir daí tudo é possível.

Também trabalha muito em televisão. Quais são as diferenças principais entre esse meio e o cinema?

Não há muita diferença, mas diria que na televisão há menos dinheiro e menos tempo. O que resulta disso é que as coisas são transmitidas mais pelos diálogos. Um exemplo típico será a telenovela, em que tudo é externalizado através dos diálogos. No cinema isso não acontece tanto, as coisas acontecem mais através do enredo e da acção, e acaba por haver mais subtexto. É um meio mais visual, não tanto um meio para escritores. A televisão de certa forma lembra-me mais a rádio.

Por falar em subtexto, notou-se um certo subtexto bíblico no seu filme. Intencional?

O subtexto está lá, mas julgo que não será tão intencional como pode parecer à primeira vista, acho que é mais uma piada que o guionista teve com o material, sem haver grande sentido profundo. Tendo dito isto, mostrei o filme num festival sueco com grandes apoios da igreja, sendo que até entregou um dos prémios. Durante o festival muitos membros da igreja sueca vieram falar comigo e disseram-me que para eles vê-se muito significado religioso no filme e que o queriam mostrar como cautionary tale para adolescentes, e ter reuniões a seguir para discutir o subtexto religioso inerente. Isso acaba por ser uma coisa fantástica no cinema, que às vezes o filme torna-se maior do que tu. Fazes um filme e às vezes não tens 100% de controle sobre o que está a dizer, tem significados diferentes para pessoas diferentes.

Quais foram as suas influencias principais?

Num filme deste tipo, obviamente nota-se um pouco da influencia do movimento Free Cinema britânico e pessoas como Ken Loach em particular. “Kes” por exemplo será uma das influencias-chave para este filme, bem como “Whitsle Down The Wind” e outro filme chamado “Lord Of The Flies”. Outra influencia significativa foi Larry Clarck, filmes como “Kids” e “Bully”. O cinema é muitas vezes um meio das classes priveligiadas e por isso tende a mostrar a vida dos priveligiados, principalmente quando se trata de crianças. Com este filme queria mostrar personagens de meios marginais e foi importante para mim ser o mais autêntico possível sobre isso.

Desculpe se esta pergunta soa ignorante, mas: as crianças em “Summer Scars” seriam o tipo de pessoas que no Reino Unido são denominadas chavs?

Sim, sim. São duma área pobre trabalhista do Sul do País de Gales e acho que cada vez mais já não se trata só dum sistema de classes – classe trabalhadora, class média, classe alta – acho que agora temos uma underclass, e é desse grupo que vêm estes putos.

Pelo que ouvi há até um debate sobre se a palavra chav já por si é ofensiva. O que acha disso?

(risos) Depende de quem diz, é como a palavra nigga. Chav pelo que sei vem da palavra chavi, um termo que faz parte do mundo de Charles Dickens. Ele viveu em Rochester e Chattam e escrevia sobre as classes escondidas. Suspeito que chav vem deste ambiente. Eu já estive em aldeias de classes trabalhadoras, quer dizer, eu sou duma aldeia dessas. E também já estive em aldeias de classes trabalhadoras com pessoas das classes médias; ouvia-as chamar as pessoas dessas aldeias chavs e achei isso ofensivo. É como disse, depende de quem diz.

Mencionou Dickens – acabou de realizar uma mini-série sobre o mesmo. Diria que ele se insere nessa tradição que mencionou antes, de mostrar a vida das classes marginalizadas?

É isso que o faz especial. Dickens destaca-se dos seus contemporâneos porque mais uma vez, ser um autor publicado nessa altura tendia a ser uma ocupação dos priveligiados. Bem, o Dickens não era sub-priveligiado, vinha dum meio de classe média baixa, mas o seu pai tinha problemas financeiros, e a essa altura quem tinha dívidas ia para a prisão, portanto a família do Dickens foi para a prisão. O próprio Dickens foi forçado a trabalhar desde os seus doze anos e isso teve um impacto extraordinário sobre a sua vida, e acho que o tornou no escritor em que eventualmente se transformou, ou seja, um escritor pelo povo, alguém que expõe os problemas sociais que havia.

Como disse, trabalha num meio de cinema fantástico, cinema de terror, se bem que não sei se chamaria a “Summer Scars” um filme de terror. A tendência mais prominente nos últimos anos a esse nível tem sido o que se chama de torture porn – filmes como “Hostel” e a série “Saw”. O que acha desse movimento?

O cinema de terror movimenta-se num certo estranho ciclo. Suponho que…eu adoro filmes de terror, mas não me excito com torture porn, acho que…eu gosto de suspense. Gosto de alguns dos velhos ingredientes mais prácticos no cinema de terror. É que quando se trata de enjoar…acho que o Stephen King diz que no terror há três ingredientes essenciais: suspense, nojo e choque, como naquela cena famosa do “Jaws” em que toda a gente que vê dá um salto duma milha. Para mim a parte menos importante é o nojo e o torture porn tende a ser só sobre isso. Prefiro filmes de stalkers e slash porque têm mais suspense Hitchcockiano. Tendo dito isso, sou um grande fã dos filmes franceses desta década, a começar com “Haute Tension” e a acabar com “Martyrs”, que até pode ser categorizado como torture porn, sendo sobre puxar as coisas até ao limite…mas para mim esse filme transcende o torture porn, é um filme bastante especial.

Michael Hannecke? Vi alguns paralelos entre a sua obra e “Summer Scars”…

Sou um grande fã de Michael Hannecke, particularmente “Benny’s Video”, que foi uma das influencias sobre “The Last Horror Movie”, o meu último filme. Mas…o que é que diria que lhe fez lembrar Hannecke em “Summer Scars”?

Isto se calhar vai soar tacanho, mas basicamente é…pessoas normais a serem colocadas em situações em que têm que fazer certas escolhas. Como por exemplo quando o Peter pede aos miúdos para lhe baterem.

Concordo. O Hannecke pega em pessoas normais e impõe-lhes situações fora do comum, e brinca com como elas tratam disso. Mas acho que para além disso há mensagens muito fortes nos seus filmes, em “Funny Games” e em “Benny’s Video”, o efeito que a violência tem no espectador. Eu não concordo necessariamente com isso,  acho que é um assunto interessante e lidei com isso em “The Last Horror Movie”, mas não gostaria de fazer um filme que dissesse que a violência nos filmes é responsável pelos crimes que a imitam, e julgo que alguns dos seus filmes dizem isso.

Como foi trabalhar com Spielberg?

Tive uma experiência extraordinária, porque “Jaws” foi o filme que me fez querer ser realizador. Foi o filme que vi enquanto criança que me fez pensar “que quero fazer com a minha vida? Quero realizar filmes”. Fui para a escola de cinema, fiz duas curtas e logo que acabei o curso fui para LA. Consegui mostrar um dos filmes num festival AFI, arranjei um agente, e este conseguiu ligar-me à empresa do Spielberg e, assim do nada, arranjei um development deal. Mas nunca me encontrei com ele quando lá estava, trabalhei através da sua development staff. Depois quando voltei ao Reino Unido e continuei a trabalhar no guião, saía à noite com os amigos para pubs e clubs e voltava pelas duas, três da manhã, um pouco bêbedo, e o telefone tocava. Seria um dos development executives da Amblin, que diria “oh, o Stephen está cá, e gostaria de ter uma chamada em conferência contigo daqui a uns dez minutos”. Teria que tomar muito café, ficar sóbrio, e uma vez aconteceu mesmo ter a chamada em conferência. Eu em Londres, o development executive em Los Angeles e o Spielberg julgo que estava na Polónia, a fazer o “Schindler’s List”. Foi uma conversa bastante breve, mas ele foi bastante apoiante…e foi o mais perto que cheguei dele. (risos)

Tem visto os filmes em exibição?

Sim, faço parte do juri e portanto vi a maioria dos filmes. Gostei especialmente das curtas do 11 de Setembro, feitas por vários realizadores célebres,  com destaque para o filme feito pelo Ken Loach, filmado na África, achei muito bom. Vi hoje de manhã “Where In The World Is Osama Bin Laden?” de Morgan Spurlock, também gostei, com algumas reservas. Achei que tinha o coração no lugar certo, que está a tentar fazer a coisa certa. É claro que “Gomorrah” é um filme extraordinário, é o tipo de filme que quero ver vez após vez, e tem uma certa semelhança com “Summer Scars” na medida em que é filmado como um documentário e dá mesmo a impressão que os actores são pessoas a sério. Não julgo ter conseguido isso nem remotamente tão bem como o fizeram em “Gomorrah”, portanto quando vejo o filme…é um artista muito corajoso que consegue criar um certo grau de realismo, como existe nesse filme.

Quais são os seus projectos futuros?

Tenho vários projectos em fase de desenvolvimento, dois são de terror. O primeiro é um filme de zombies em 3D que estou a filmar na Roménia e tenho um thriller de vingança situado no País de Gales mas que acabou por ser filmado no Canadá. Tenho um filme de gangsters chamado “Gringo”, que se passa em Londres e no Rio de Janeiro, nas favelas. Da última vez que fui ao Rio tive uma arma apontada à minha cabeça, portanto tenho certas reservas contra filmar lá. Aqui no Porto dei uma vista de olhos pela Ribeira, e julgo que se calhar será possível reconstruir um ambiente tipo favela lá, filmar o Rio no Porto, de momento estou a pensar em fazer isso. Também tenho uma comédia romântica, muito na linha do “My Fair Lady”, mas urbano, quero ver se arranjo a Rhianna e o Michael Sheen para os papéis principais.



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