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À conversa com Julian Lynch

Quando abordámos Julian Lynch para uma entrevista há algum tempo atrás, este gentilmente acedeu mas não deixou de frisar que estava a trabalhar bastante. Por aqui pensou-se que poderia estar já a trabalhar no sucessor de “Mare”, o último álbum, que ainda agora saiu, ou mesmo nalguma colaboração. Não poderíamos estar mais enganados como vão constatar ao longo das próximas linhas.

A “conversa” teve lugar por via electrónica mas tal não se revelou nem de perto suficiente para a tornar menos interessante. Desde logo ficou notório que Lynch é daquelas pessoas que têm prazer em conversar, em trocar ideias e argumentos.

Começámos então por lhe perguntar em que estava a trabalhar. A resposta surpreendeu: “assumi um novo projecto que envolve muita pesquisa de arquivo. Estou a pesquisar um vasto conjunto de documentos legais e jornais do século XIX. O assunto envolve um padrão de violência que teve o seu apogeu na Índia colonial no final do século XIX, início do século XX. Estes incidentes violentos, que ocorreram ao longo de todo o sub-continente, tiveram início em disputas entre grupos religiosos, normalmente entre Hindus e Muçulmanos, com algumas excepções pelo meio, sobre a execução pública de música”. Neste ponto o novo projecto de Julian Lynch começou a fazer sentido. Fará ainda mais sentido se adicionarmos uma informação importante neste ponto da prosa. Lynch é licenciado em Etnomusicologia.

Lynch continua a explicar com um entusiasmo que transparece claramente das suas palavras: “o desfecho normal destes incidentes passava por cenas como uma procissão Hindu sendo dirigida por forma a passar directamente em frente a uma mesquita durante a hora da oração, incomodando quem rezava no interior e originando violência”. Por esta altura falta apenas compreender o derradeiro objectivo de Lynch no trabalho de pesquisa levado e cabo, e este não se coíbe de o fazer: “estive a procurar como diversas formas de identificação social, dentro e entre estas comunidades religiosas, eram moldadas através de encontros com tanta violência e música”.

Voltemo-nos agora para a vertente musical de Julian Lynch. É comum ver o seu nome associado a bandas da cena lo-fi, como os Real Estate ou Ducktails, mas tal associação acaba por induzir alguns em erro, quando procuram na música de Lynch esta componente que caracteriza fortemente os nomes referidos. A explicação é bem mais simples. “Aqueles rapazes (n.a.: Matt Mondanile é 25% dos Real Estate e 100% de Ducktails) são meus amigos desde tenra idade e eu faço questão de manter a relação de amizade que temos!”. Lynch faz mesmo questão de desmistificar qualquer associação que tentem estabelecer entre a sua música e o lo-fi como definição ou género. “Intencionalmente, não pretendo gravar música que soe assim e, verdadeiramente, não invisto muito tempo nesse conceito, nem mesmo de forma a perceber se tem algum significado para mim. O termo (lo-fi) pressupõe que, por exemplo, se eu colocar um microfone junto da minha guitarra e gravar o som com um gravador de cassetes, eu quero ter uma cassete que soa a mim a tocar guitarra”. Em jeito de conclusão acrescenta que “o meu objectivo é fazer uma gravação que soe da maneira que eu quero que soe, independentemente dos materiais que use para a fazer”.

Já sabem: caso tenham oportunidade de alguma vez trocar meia dúzia de palavras com Julian Lynch, não vale a pena tentar ligá-lo ao lo-fi, de que forma seja. Ele tratará de desconstruir qualquer argumento. “Sempre que penso na distinção das gravações lo-fi, lembro daquele quadro de Magritte, “The Treachery of Images”, conheces esse?” – não o conhecia, devo confessar – “A distinção relativamente a esse quadro é que quem o observa não está a olhar para um cachimbo mas sim a olhar para uma pintura. É o seu ou a sua mente, através das suas próprias experiências, que faz a ligação de que a pintura é a representação de um cachimbo. No entanto tudo não passa de tinta numa tela. Penso nos discos um pouco da mesma forma”.

A etnomusicologia é uma disciplina da ciência que se debruça sobre a música no seu contexto cultural. Não é todos os dias que encontramos pessoas que tenham formação nesta área e que, simultaneamente, persigam uma carreira musical, por isso decidimos saber de que forma afecta o processo criativo de Lynch. Antes de começar a responder, Lynch faz questão de referir que é uma pergunta que lhe colocam habitualmente e que, recentemente, tem lido alguns artigos que “falham em representar” o seu trabalho correctamente. Refere como principal aspecto a disciplina na forma como aborda o seu trabalho. Adicionalmente refere que o leva a “pensar em música de formas diferentes, mas provavelmente não teve o impacto imediato na minha música como algumas pessoas podem pensar”.

Uma rápida visita ao Bandcamp, essa mina de ouro para descobrir novas sonoridades de forma legal e gratuita, revela toda a obra de Lynch, disponível para escuta à simples distância de um clique. Para Julian Lynch, o Bandcamp é pura e simplesmente “excelente”. Sim, muitas vezes uma palavra resume tudo!

Eis que a conversa entra na recta final, e é incontornável não abordar o novo “aré”. Perguntamos-lhe se concorda que em “aré”, as letras ganham uma maior importância. A resposta é-nos dada num tom algo reticente, reflexo da forma como Lynch se vê a si próprio como músico: “Penso que, talvez, lentamente, me sinta mais confiante relativamente às minhas letras. Nunca pensei em mim como um letrista mas estou a tornar-me mais interessado em escrevê-las”. A música de Lynch não é imediata. Requere algum interiorização, alguma audição atenta, e talvez para alguns, alguma paciência. No entanto, “Orange You Glad”, o álbum que antecedeu “aré”, é mais difícil de assimilar. Procurámos saber se houve uma intenção deliberada em fazê-lo, por forma a levar as pessoas a embrenharem-se mais na sua música, como uma forma de a poderem apreciar em toda a sua plenitude. Lynch responde: “Bem, eu tento deliberadamente evitar qualquer tipo de romantismo, num sentido musical, e penso que essa estratégia é um reflexo da maneira como estruturo a melodia, a dinâmica, a progressão das cordas, etc. Não estou realmente a tentar levar as pessoas a envolverem-se no que quer que seja, realmente. É mesmo mais uma questão de gosto pessoal, penso eu”.

Durante Maio e Junho Julian Lynch vai estar em tour pela Europa. Portugal, até ver, não está no roteiro. As expectativas, essas, são elevadas até porque “nunca toquei na Europa continental, só no Reino Unido”. A conversa terminou com Julian Lynch a dizer que daqui a dois meses poderia voltar a falar no assunto de forma mais elaborada. Ficamos à espera!



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