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“A inteligência natural & a lógica da consciência” de António Damásio

A lógica íntima da consciência antes da máquina

Numa altura em que a Inteligência Artificial, ameaça, com ou sem aspas, o modo de vida e pensamento humano, é importante refletir sobre como a própria evolução humana, enquanto espécie de seres carregados de cogito, entende a sua relação com o lado mais consciente.

É esse o ponto de partida de A inteligência natural & a lógica da consciência (Temas e Debates, 2025), de António Damásio, um dos nomes maiores do estudo da Neurociência aliada à Psicologia e Filosofia, que leva o leitor por caminhos cuja orientação nasce da tentativa de resposta a uma das perguntas mais antigas e urgentes da humanidade: “como pensamos, sentimos e sabemos que existimos?”

O trajeto para alcançar uma meta em forma de resposta é feito sem misticismos nem atalhos fáceis, propondo uma viagem rigorosa e profundamente humana ao interior da mente, onde a razão deixa de ser uma entidade abstrata e passa a ser um fenómeno enraizado no corpo, na biologia e na vida.

Ao navegar pelos 30 capítulos do livro, somos convidados a seguir a corrente dos enigmas da consciência, mergulhando em dúvidas sobre a possibilidade da mesma, da sua potencial perda, de questões relacionados com a sobrevivência, como a fome, a sede, a dor ou a náusea, mas nunca perdendo de vista uma ilha cada vez mais emergente cujos pontos cardeais são definidos pelo ChatGPT e afins.

Para nossa orientação, Damásio traça um mapa sublinhado por altos relevo e zonas de grande profundidade que tem em comum o facto de que a inteligência não nasce separada da emoção, defendendo que, pelo contrário, é moldada por ela. Mas também que a consciência emerge da relação constante entre cérebro, corpo e ambiente, num processo contínuo de regulação da vida. Por isso, pensar não é apenas calcular ou decidir; é, antes de mais, sentir o impacto do mundo sobre nós e responder-lhe.

Em A inteligência natural & a lógica da consciência há ainda espaço para aprofundar o conceito de Inteligência Natural, distinguindo-o das formas artificiais que hoje dominam o debate público, que, segundo o especialista, falta-lhe o essencial: “um corpo vivo, vulnerável, regulado por emoções”.

A inteligência humana, argumenta, não resulta apenas da capacidade de processamento de informação, mas da experiência vivida, da dor, do prazer, da memória, do afeto. É uma inteligência que nasce da necessidade de sobreviver, de manter o equilíbrio interno, de dar sentido ao que nos acontece.

Assim, e através de uma linguagem simples, descomplicada, António Damásio cruza neurociência, filosofia e biologia sem perder a clareza que nos habituou, fazendo da escrita uma forma de diálogo com alguns pensamentos clássicos e contemporâneos, nunca perdendo o compromisso com a evidência científica.

Mais do que um tratado científico, temos nas mãos um convite à humildade, um apelo à recordação de que pensar é um ato profundamente orgânico e que compreender a mente implica reconhecer a fragilidade que nos define. E, num tempo obcecado com desempenho, velocidade e eficiência, propõe outra medida de inteligência: a capacidade de sentir, cuidar e atribuir significado à vida.



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