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A Minha Rua…Estocolmo

O dia-a-dia de trabalho e lazer entre almôndegas, IKEA e raparigas bonitas...

“Estocolmo não é o Pólo Norte!” – é a frase que tenho de proferir em grande parte das minhas conversas com amigos de Portugal, normalmente seguida de: “Frio? Frio tenho em Portugal!” (teoria aparentemente confirmada pois durante o Natal em Portugal, estive doente). O nome desta rubrica é “A minha rua” e desde há cerca seis meses a minha rua é Nytorget em Estocolmo, Suécia.

A cidade é composta por um terço de urbanização, um terço de natureza verde e um terço de água. É também uma cidade “serena”, sendo raro avistar-se o caos rodoviário que se vê em Lisboa, provavelmente devido à excelente qualidade dos transportes públicos.
Associada por todos a loiras giras, alces, almôndegas e ao IKEA, a capital escandinava tem muito mais para oferecer; inúmeras são as bandas que originárias deste país; Inúmeras são as marcas de roupa que andam a ecoar pelo mundo fora: Acne, Cheap Monday, Monki, Fillipa K, Tiger, J Lindeberg e H&M têm como berço a Suécia. Pode-se dizer que se respira moda em Estocolmo, pois todos dão muita importância à sua imagem pessoal. Às vezes demasiada.

Os Suecos são por natureza criaturas poucos sociáveis, mas não são como os imaginamos em Portugal, i.e. seres frios conhecidos como “Bichos-do-mato”. São pessoas educadas, civilizadas e muito informais. Aqui não existem as formalidades a que estamos tão bem habituados em Portugal. Facilmente se diz “Hej!” (Olá!) a um chefe como também se diz “Tja!” ou “Tjena!” (uma espécie de ‘Yo!’).

A cultura de trabalho é extremamente informal seguindo um estilo de hierarquia bastante flat e onde as pessoas não são avaliadas pela sua imagem mas pela qualidade do trabalho que produzem. Existe o cultivo da meritocracia, sendo bastante recorrente ver managers a elogiarem o trabalho dos seus subordinados, seja através de palavras, seja através da oferta de uma fika. A fika é para os Suecos o que o nosso “café da manhã” é para nós. É sobretudo um evento social, onde as pessoas se reúnem para beber café (fika vem do verbo att fika que significa beber café) ou chá e comer bolos, bolachas, etc.

O dia-a-dia de trabalho normalmente começa às oito da manhã e acaba às cinco da tarde. Contudo, as chefias são muito flexíveis e não se importam com horários desde que os empregados cumpram as suas 40 horas semanais. Sendo assim, é bastante comum ver colegas a chegarem às 09:00 ou às 10:00 e trabalharem apenas seis horas e compensarem ao trabalharem mais horas nos restantes dias. Como em Portugal, tem-se direito a uma hora de almoço mas grande parte opta por trazer a refeição de casa. Isto permite-lhes almoçar em 30 minutos ou menos e deixarem o escritório mais cedo. Depois do trabalho, alguns colegas seguem para um after-work esporádico, outros vão para casa para estarem com os filhos e família, enquanto outros reúnem-se com amigos para jantar (cedo, por volta das 19h00) e tomarem umas bebidas.

Toda esta informalidade de que falei não se reflecte apenas no mundo do trabalho. Na noite, facilmente se conversa com alguém num clube, sobre a música, sobre o clube, sobre o que fazem, sobre o que gostam, sobre o que vier à ideia.
A vida nocturna em Estocolmo é muito diferente das noites loucas de Portugal; a maior parte dos clubes fecham às 03:00, ou mais cedo, havendo apenas alguns que continuam abertos até às 05:00, normalmente na zona mais “posh” da cidade – Stureplan. Södermalm, onde vivo, é um bom sítio para se começar a noite. Continua a ser a zona trendy de Estocolmo (é onde a Lykke Li mora, pá!) dada a quantidade de lojas de designers e estilistas que se resolveu instalar em Slussen e em SoFo (sul de Folkungagatan, o Soho cá da zona) e à noite oferece sugestões como o Indigo, Nada ou o Pet Sounds Bar, bares pequenos onde se começa a noite. No entanto, o álcool nos clubes é caro e muitos suecos optam por beber em casa antes de sair para os clubes. Para tal, têm de comprar bebidas na loja estatal que controla a sua venda a maiores de 21 anos – o “Systembolaget”. Se quiserem perder 1h numa fila, tentem ir a uma destas lojas numa sexta-feira depois de trabalho!

Segue-se para o Debaser, Marie Laveau, F12 (no verão) ou KNAST até às 03h00. A partir das 03:00 da manhã a noite pode continuar num svartklubb, festas em locais ‘secretos’, normalmente armazéns, caves ou algures. No entanto, por serem festas algo ilegais, o controle de idades é mais relaxado e podem acabar num jardim-escola (já me aconteceu). Em alternativa, a noite pode continuar em casa de alguém, que pode-se ter conhecido no clube, no formato de efterfest. São grupos de pessoas que decidem continuar a conversar e tomar uns copos em casa de alguém.
Os domingos são normalmente pacatos (demasiado pacatos) e são passados com amigos a tomar um latte num café com um ambiente cozy como o Vurma ou o String. No verão, é típico ir-se a barbeques ou piqueniques em Djurgården, a ilha de recreação preferida pelos suecos.
Aqui sai-se de casa aos 18 anos, quando se vai para a universidade. Quem não sai de casa, em muito dos casos começa a pagar rendas aos pais, como se de um aluguer de quarto se tratasse. Apesar de soar estranho para nós, isto dá desde muito cedo um certo sentimento de independência aos jovens daqui. Pode levar a pensar que as relações familiares aqui são um pouco estranhas, mas se há povo que dá importância à família são os Suecos, tendo uma política orientada para family-first em muitos aspectos do dia-a-dia, e.g. é muito comum trabalhar-se a partir de casa quando se tem um filho doente.

É uma cidade colorida com prédios cor de salmão, laranja, amarelos, verdes, etc. Todos estes elementos combinados dão à cidade um charme especial que pessoalmente me fez querer morar cá desde a primeira vez que a visitei. Seja pela arquitectura, pela natureza, pela moda, pelas almôndegas, pela cultura ou pelas suecas (há muitas pessoas que vêm para cá por isso), vale a pena viver na minha rua.”



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