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A minha rua…Manila

Mabuhay Ibabang kanto!*

A minha rua situa-se num extenso arquipélago formado por 7.107 ilhas,  situado a 400 km a sul da Macau e Hong Kong, onde o Navegador Português Fernão de Magalhães chegou no ano de 1521 ao serviço dos reis de Espanha e que dá pelo nome de Filipinas.

Uma extensa rua repleta de becos e vielas, onde por portas entre-abertas e janelas semi-cerradas me vou esgueirando com o intuito de compreender este povo e a sua identidade asiática, mas numa inebriante mistura de influências, onde se destacam a Hispânica e Norte Americana num verdadeiro caldeirão onde as mais variadas culturas são derretidas e assimiladas.

A capital desta nação, denominada pelos mais românticos ‘A Pérola do Oriente’, Manila, preserva ainda  características arquitectónicas de colónia Espanhola que, no final do século XIX, deu lugar a uma ocupação administrativa Norte Americana – da qual se viria a tornar independente após o final da II Guerra Mundial.

Deambulado numa enorme área metropolitana que actualmente alberga 12 milhões de habitantes em 14 cidades de largas avenidas e elegantes edifícios, que coabitam, num simples ‘atravessar a rua’ com imensos barangays de construção rudimentar, que se estendem para lá da linha do horizonte, é possível cruzarmo-nos com ruas como De La Rosa Street, Bagtikan Street, Kalayaan (Liberdade) ou San Paul Road. Esta ultima, é a minha rua emprestada, situada na freguesia (Barangay) San Antonio cidade de Makati.

5 e meia da manha e já os galos cantam o esplendor de mais um dia. A confusão, essa já se faz ouvir, os vendedores em bicicleta apregoam frutas e outros víveres, homens carregando numa vara em ombros os baldes de onde servem o Taho (uma bebida feita a base de Soja) ou o vendedor de Balot (ovo de pato incubado e cozido!!), misturam-se com as Trykies (triciclos motorizados) e as constantes buzinadelas dos restantes condutores que, indiferentes, utilizam a buzina com apêndice do acelerador e do travão. Buzina-se por todas as razões – na passadeira quem tem buzina tem prioridade. Nas avenidas principais, um novo elemento de transporte é encontrado. De nome  Jeepney, trata-se de um furgão com capacidade para doze pessoas e se o triciclo funciona como substituto do táxi dentro dos Barangays, o Jeepney faz carreira entre vários pontos desta metrópole, fornecida com uma única linha de metro… de superfície.

O trânsito é uma constante e a hora de ponta parece durar cerca de cinco horas na manhã e outras cinco na parte da tarde. Com este cenário, optar por se deslocar de autocarro acaba por ser como embarcar num épico sinfónico de pára arranca, buzinadelas sem fim, onde vendedores que aparecem não se sabe bem de onde trazendo os mais variados produtos: água, sumos, amendoins, ovos de codornizes cozidos e cigarros a vulso. O mais cómodo e menos moroso acaba por ser optar pelo táxi, onde num qualquer sinal vermelho ou mesmo em plena fila de trânsito é possível adquirir os mesmo produtos acima referidos, assim com um jornal, panos de louça e tantos outros utensílios como se numa das já antigas ‘loja dos 300’ se tratasse.

Manila, onde palmeiras teimam em  brotar do alcatrão é confusa. De dia ou de noite, a luta pela sobrevivência manifesta-se de um modo que acaba por se tornar incómodo aos olhos mais desprevenidos. Mas é curioso encontrar áreas como Intramuros, a cidadela fortificada pelos espanhóis no século XVI, onde se encontra a Catedral, o Palácio do Governador e todo um conjunto de edifícios de traço assumidamente Europeu. No exterior, envolvendo as muralhas pode-se dar umas tacadas num curioso circuito de golf.
 Na área mais antiga de Manila, cruza-se Binondo, o velho bairro chinês com edifícios de traço colonial, envoltos numa praça que onde se ergue no meio, como uma fronteira que abraça as duas culturas, a igreja católica  de Ongpin.

O trânsito constante é o melhor retrato de uma quase anarquia que se vive. O caos não é maior, porque o filipino é um povo que gosta de rir. Por exemplo, quando um condutor de um Jeepney, sorrindo, corta o caminho ao taxista onde seguimos, este o ofende com os habituais insultos sorrindo também. É um povo de grandes sorrisos.

Exemplo também dessa alegria é entrar numa das imensas food stores e encontrar algumas pessoas comendo arroz e peixe frito, enquanto noutra mesa alguém canta num vídeo de Karaoke, enquanto toma o pequeno almoço. Isto pelas sete e meia da manhã. É um povo alegre e festivo, este que encontro na minha rua. Estabelecimento que se preze, tem sempre uma ou duas máquinas de Karaoke disponíveis para os seus clientes darem largas aos seus dotes vocais. Seja nos típicos estabelecimentos no Barangay, em ambiente quase familiar, como nos muitos locais de diversão nocturna da badalada Malate.

Mas a 5 minutos de onde resido, este cenário de ‘Barrio’ de casas rasteiras, vendedores de bicicleta é substituido pelos aranha-céus da extensa Ayala Avenue e o seu Central Business District. Escritórios, centros comerciais e luxosos condomínios e requintados hoteis que alimentam os anseios e desejos  de um povo que com o boom de deslocação de outsourcing para estas paragens do globo, viu ampliada a sua capacidade de sonhar. Um bom exemplo disso é o sofisticado ambiente que se encontra nesta cidade de Makati. Do guarda que em qualquer loja nos abre a porta com um rasgado Welcome, Sir, às restritivas regras de circulação rodoviária e pedonal, onde o simples facto de se atirar para o chão uma beata  pode valer uma viagem à esquadra mais próxima…

Basta sair dos limites da área metropolitana, para se chegar mais perto da essência que é a explosão de sentidos que se encontra nas Filipinas. Taxis, só em Manila se encontram. Fora da área metropolitana, exeptuando a Trykie ou o Jeepney, pode-se sempre, com grande facilidade optar por uma Calissa, minúsculas carroças que nos transportam ao destino sempre ornamentadas numa mixtura de estilos, representativo desta nação.

Embora de maioria Católica, este é um país cheio de misticismo e superstição. Durante todo o ano, é muito fácil encontrar uma povoação a festejar o seu santo padroeiro, na denominada  ‘Fiesta’. Em tudo muito similar às nossas festas populares; este é um arraial de cor onde a fé se mistura com os beats das mais recentes músicas de dança e Hip Hop, entre tradicionais casas de madeira – as Nipa Hut – e igrejas de traço Europeu.

Relacionado com manifestações de fé, o expoente máximo sãoas celebrações da Páscoa, onde em três províncias da zona norte do país, pessoas comuns se oferecem para literalmente serem pregadas à cruz, e outras tantas dezenas se prefilham pelas ruas, chicoteando-se severamente. Este biazarro cináculo atrai milhares de pessoas todos os anos, sendo praticamente mais um produto meramente comercial, longe dos parâmetros de devoção esperados.

Neste país, que é um dos maiores em termos de índicie de diversidade natural com mais de 50.000 espécies descritas e cujo 65% não se encontra em mais nenhum lugar no planeta, pode o visitante perder-se muito facilmente. Praias de águas quentes, 45 vulcões activos, infinitos roteiros para a prática de montanhismo, onde nos podemos cruzar com vilas (ainda) indígenas e mais de duzentas espécies de corais para serem descobertos através da prática de mergulho, são alguns dos tesouros que encontrei neste país e que partilho com quem quiser se iniciar numa aventura à descoberta do enigma que é a Ásia, no mais Ocidentalizado dos seus países.

*”longa vida Rua de Baixo”, em Tagalog.



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