Ali Farka Touré [1939-2006]

A última canção de Touré.

Dizem que o blues nasceu quando o primeiro escravo africano se deu conta que deixara essa condição para passar a ser um negro americano. Era o final do século XIX: os traficantes de escravos negociavam a mão-de-obra africana para os campos de algodão nas margens do Mississipi. Mal sabiam eles que, inadvertidamente, estavam a contribuir para o mais importante acontecimento da música anglo-saxónica.

Os escravos oriundos da África ocidental levaram para a América, na sua bagagem cultural, os vigorosos ritmos de percussão africanos, que ameaçavam impregnar um novo ritmo não só aos campos de trabalho da apanha do algodão, mas ao próprio mundo ocidental. Pode-se dizer que foi quando essa nova linha melódica, a escala africana pentatónica, encontrou a escala europeia diatónica que nasceu uma nova forma de tocar – o blues.

O blues era assim um misto de liberdade e saudade: a liberdade que os escravos ansiavam e a saudade que tinham da sua terra distante.

Contudo, para entendermos qualquer coisa temos que ir até às suas raízes mais profundas, para que a possamos legitimar. Por isso, só quando os ouvidos ocidentais começaram a prestar atenção a um estilo de música que vinha do Mali é que começaram a perceber que as raízes do blues se estendiam muito mais além do que normalmente se tinha como garantido.

Com efeito, do Mali começava-se a ouvir um músico chamado Ali Farka Touré, cujo som era uma espécie de mistura entre o blues norte-americano e o fado português. Talvez a situação geográfica do Mali, implantado na zona sub-saariana explorada exaustivamente pelos mercadores de escravos nos séculos passados queira dizer muita coisa, mas o que era inquestionável é que o ritmo hipnotizante da guitarra de Ali Farka Touré era uma espécie de blues do deserto.

Ali Ibrahim Touré nasceu na vila maliana de Kanau, presume-se em 1939 (o próprio não o sabia dizer com exactidão), na bacia do rio Niger (haverá alguma ligação entre o blues e a água?). O apelido Farka (cuja tradução literal é burro) ganhou-o por ser o único sobrevivente dos dez irmãos, num sinónimo de tenacidade. A música conheceu-a aos 7 anos, quando começou a aprender guitarra, mas o mundo ocidental só o descobriu quando este passara o meio século de idade, com o álbum homónimo “Ali Farka Touré”, em 1988.

Apesar das inúmeras digressões internacionais que começou a planear, Ali Farka Touré sempre manteve uma forte ligação com a sua terra, não só nos temas que cantava – educação, trabalho, amor e educação, segundo as suas próprias palavras –, mas principalmente na própria língua com que o fazia, utilizando regularmente o songhai, o fula ou o tamasheck. Mas o próprio Ali Farka compreendeu que tanto tempo ausente do seu país lhe tolhia a relação telúrica que mantinha com a terra e, por isso, as suas digressões pelo estrangeiro passaram a ser ocasionais e rigorosamente seleccionadas.

Mais do que um símbolo da world music (designação ingrata de alguns estilos musicais, mas que pela vulgaridade com que é utilizada já se tornou num lugar comum), Ali Farka tornou-se num autêntico ícone do Mali e no seu mais importante embaixador no estrangeiro. Por isso, não é de estranhar que o Ministro da Cultura do Mali tenha iniciado o seu comunicado ao mundo sobre a morte do músico com a frase perdemos um monumento. Mas a ligação de Ali Farka Touré com o Mali ia ainda mais longe; em 2004 tornou-se Presidente da Câmara de Niafunké, a sua região natal, que lhe permitiu gastar o seu dinheiro na construção de escolas, estradas e infra-estruturas, na tentativa incessante de melhorar o seu lar.

Ali Farka Touré foi uma autêntica lição de vida que, apesar de viver no quarto país mais pobre do Mundo, sempre defendeu que o dinheiro era efémero e pouco valioso. Ali Farka Touré apelidava-se de agricultor e não de músico; dava mais importância à terra e àquilo que colhia dela. Se tivermos água, temos tudo disse à jornalista Ana Sousa Dias, o ano passado, durante a sua passagem por Portugal, por ocasião da actuação no Auditório Keil do Amaral, naquele que foi o seu penúltimo concerto.

Musicalmente, Ali Farka Touré foi sempre considerado uma influência por muitos músicos ocidentais e tomado como referência por outro grande grupo de artistas. Dos seus discos, destacam-se dois: “Talking Timbuktu”, de 1994, que gravou em parceria com o outro “músico do deserto”, Ry Cooder, e que, para além de um Grammy, lhe valeu o reconhecimento internacional; e “In The Heart Of The Moon”, de 2005, gravado a meias com Toumani Diabaté, outro vulto incontornável da música maliana e verdadeiro deus da kora (instrumento de cordas mandingo), como Ali Farka o apelidava. Pelo meio ficaram outros oito álbuns de originais.

O músico do Mali desapareceu aos 67 anos; padecia de cancro nos ossos. Disseram que morreu na cama, em paz e a sorrir, depois de ter passado os últimos meses a tocar solitariamente com o seu filho e a recordar o concerto em Monsanto como o último da sua vida – foi na realidade o penúltimo, mas o concerto de Nice parece não ter corrido nada bem, recebendo inclusive insultos racistas do público.

Ali Farka Touré era um africano com um chapéu de cowboy, que tocava blues africano. Parece paradoxal, mas a sua música fazia tanto sentido como a própria vida. Chamavam-lhe o John Lee Hooker Africano, mas Ali Farka era mais o Jimi Hendrix Africano, tal a forma como se tornou num ícone popular e como projectou a sua música no tempo e no espaço. Agora, com a sua morte vão-se sobrepôr as referências, as reedições e os tributos. Perde-se o homem, ganha-se a memória.



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