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Nelson Dona

Conversa com o director do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora que comemora 20 anos de vida.

O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), que este ano ostenta um novo nome no cartaz, o de “Amadora BD”, comemora o seu 20º aniversário. O evento irá decorrer entre 23 de Outubro e 8 de Novembro e promete fazer um balanço destes 20 anos de BD em Portugal.

O núcleo central do festival localiza-se novamente no Fórum Luís de Camões, na Brandoa, mas como é costume haverão várias exposições espalhadas pela cidade tais como na Casa Roque Gameiro, nos Recreios da Amadora, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (retrospectiva de Héctor Oesterheld), no Centro Comercial Dolce Vita Tejo/Kidzania, na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos e na Galeria Municipal Artur Bual onde decorrerá a merecida homenagem a Vasco Granja.

Para conhecermos um pouco melhor a história deste festival e a programação deste ano a Rua de Baixo esteve à conversa com o director do festival, Nelson Dona.

O festival da Amadora teve início há 20 anos atrás. Ainda se lembra como tudo isto começou?

Sim. Na altura trabalhava como assistente na galeria municipal de artes em exposições de artes plásticas e nesse âmbito foi organizado um pequeno salão de BD com uma proposta de dois ou três organismos, um deles na área da juventude, com um concurso. Ao mesmo tempo decidiu-se fazer um prémio em função de toda a tradição que a Amadora tinha desde há muitos anos na BD e com a presença de alguns artistas que foram uma coincidência terem sido possíveis naquele momento, incluindo o Morris, autor do Lucky Luke, o que deu uma projecção muito grande à exposição em 1990. No 2º ano fizemos já uma exposição maior na académica da Amadora e a partir do 3º foi quando a câmara municipal da Amadora decidiu internacionalizar o festival e transformá-lo num grande evento.

Este ano o festival celebra portanto 20 anos. E Aproveito para dar os meus parabéns ao festival. A comemoração de uma data como esta é obrigatória. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre o que estão a preparar nesse âmbito?

Obrigado em nome da equipa toda. Por norma o festival tem um tema e este ano decidimos que iria ser a comemoração de si do 20º aniversário, portanto decidimos comemorar estes 20 anos enquanto projecto cultural e aqui é importante frisar que o festival faz neste momento parte do calendário internacional dos eventos mais importantes na área da 9º arte em todo mundo e também que, em Portugal, é um dos projectos culturais com maior longevidade ininterrupta e cuja relevância para a cidade portuguesa é importante.

O nosso ideal seria reunir todo o público que passou por aqui das várias idades mas como fisicamente isso não é possível vamos lembrar momentos importantes durante estes 20 anos.

Como referiu o tema deste ano é “O grande vigésimo”. Estando o tema normalmente relacionado com as exposições e convidados não acha que esta escolha vos dificultou imenso o trabalho?

Dificultou por um lado mas isso foi desde o primeiro momento uma dificuldade assumida e encarámo-la como uma oportunidade de podermos repensar algumas das coisas.

A grande exposição central deste ano faz um panorama do que foi/é a edição de BD durante estes 20 anos em Portugal, quais são os momentos mais relevantes, os artistas mais importantes e as heranças que o festival deixa. Uma delas por exemplo é uma colecção de originais que neste momento o Centro Nacional de BD e Imagem da Amadora possui e que é a única colecção pública de BD que existe em toda a Península Ibérica. Nesse sentido o convite aos artistas e a programação que estamos a estruturar é uma programação que faz esse próprio balanço.

Pode então falar-nos sobre o que está reservado para as exposições?

Em primeiro lugar existe então esta grande exposição com vários núcleos, a começar pela apresentação de uma amostra da colecção de BD da Amadora, que anda na ordem das cerca de 30 000 peças. Depois há uma perspectiva do que é que é a contemporaneidade na BD portuguesa. A exposição conta com a participação dos concorrentes que durante estes 20 anos se transformaram em profissionais de BD. Outros núcleos passam pela relevância editorial destes 20 anos.

Decidimos também comemorar duas efemérides em que por acaso o número é o mesmo. Uma é a comemoração dos 50 anos do Astérix e outra os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa. São duas grandes homenagens que o festival faz não esquecendo que o Maurício de Sousa é neste momento, provavelmente, o autor de BD lusófono mais conhecido em todo o mundo.

Ainda sobre a programação em relação aos prémios do ano anterior, os autores em destaque são Rui Lacas, que é também o autor do desenho do cartaz deste ano e de toda a imagem para a comunicação, e Emmanuel Lepage um autor francófono da maior importância na contemporaneidade da BD clássica francófona.

E no que toca a nomes de convidados o que nos pode adiantar?

Vão estar os que mencionei na questão anterior como o Rui Lacas, o Lepage e o Maurício de Sousa. De outros convidados que estejam confirmados temos uma delegação canadiana que traz artistas como o Cameron Stewart entre outros. Estão igualmente confirmados artistas do universo do Mangá quer japoneses quer europeus tais como suecos, italianos e portugueses.

Também importante é uma exposição de uma parceria com o festival de Łódź na Polónia em que vamos apresentar BD Polaca com presença de artistas polacos, num universo que não é muito conhecido da Europa e aqui somos pioneiros.

Depois existem uma série de outros nomes que não estão confirmados a esta data.

Este ano voltaremos a contar com um dia dedicado ao “Cosplay”? Corriga-me se estiver errado mas este costuma ser o dia com maior afluência de pessoas ao festival.

Normalmente na inauguração há mais pessoas mas enquanto público geral é o dia com maior enchente o que no princípio foi uma grande surpresa para nós. Aqui juntam-se dois públicos o tradicional do festival, que à partida viria sempre, com outro público que é específico do universo anime e do cosplay que muitos deles nem conhecem BD.

Este ano haverá à partida dois dias de cosplay, o ano passado foi um enchente extraordinário, uma alegria bastante grande e como nos foi pedido vamos fazer dois dias. Em princípio no próximo ano uma das eliminatórias europeias do concurso mundial de cosplay será na Amadora, isto já está a outro nível que nem eu próprio sabia que atingia.

Aproveito já agora para relembrar que qualquer pessoa que vá ao festival vestida de uma personagem de BD não paga para entrar no festival.

No festival existe também um espaço dedicado aos mais jovens o que os espera este ano?

Este ano decidimos dedicar toda uma parte ao espaço infantil com uma programação específica que é sempre pensada não para as crianças mas para as famílias que têm crianças e também para as várias faixas etárias porque temos de separar imediatamente as crianças que já sabem ler das que não sabem.
Em termos de programação temos a exposição de Maurício de Sousa, a exposição de José Garcês sobre os animais em extinção que foi feita no âmbito do projecto que ele fez do jardim zoológico e também a exposição do prémio nacional de ilustração do ano passado, em que se decidiu fazer uma exposição sobre o Planeta Tangerina, uma editora que está neste momento com um projecto artístico absolutamente extraordinário.

Para além disso há toda uma programação não expositiva com oficinas e com animações de diversa ordem, com horas do conto e com jincanas internas em que as perguntas são sobre BD.

O festival recebe nos vários horários quer uma programação preparada para as visitas escolares, que são durante a semana, quer uma programação para as famílias.

No que toca a palestras e oficinas para jovens/adultos quais os convidados com que podemos contar?

Em termos de oficinas vamos ter, para já um atelier de cinema de animação, um de escrita criativa e um de desenho livre.

Todas as palestras do festival têm dois universos, umas palestras de cariz mais científico e outras que são mais conversas dos autores com o público e estas dependem da presença dos artistas que são depois associados em função das suas afinidades.

No âmbito científico é nossa intenção, e se não fizermos este ano faremos no próximo, que possamos compor alguma coisa no campo da lusofonia e num primeiro momento o que nos parece que é importante é que nos conheçamos todos melhor, até porque se dantes esta conversa se fazia entre Portugal e Brasil hoje felizmente nos países africanos de expressão portuguesa e nos asiáticos começam a haver não só novas publicações como também eventos dedicados à BD, por isso parece-nos oportuno que possamos recolher esta informação e é uma mais valia para nós.

Com o passar dos anos mais eventos de BD se têm realizado ao longo do país o Festival de Beja já vai na sua 5º edição e recentemente Viseu que retomou o seu festival dedicado à BD. Qual a tua opinião sobre estes acontecimentos?

Em primeira lugar é com muita satisfação que isso acontece, por duas razões. Primeiro porque temos concorrência e é concorrência a salutar, obviamente que por diversas razões o festival da Amadora continua a ser o maior do país uma deles é porque estamos na região metropolitana de Lisboa, mas não só. E por outro lado porque o nosso intuito é divulgar a BD portuguesa e depois a BD em geral. Nós ficamos contentes pela qualidade desse trabalho, o caso de Beja é o mais dominante, nasceu de um trabalho continuado de mais de uma década de formação na área da BD feito em Beja e essa formação deu lugar a interessados e a artistas na área que por sua vez sentiram a necessidade de fazer um festival. Mas fizeram-no desde o princípio muito bem e continuam com uma programação extraordinária do ponto de vista cultural, muito diferente da Amadora com objectivos muito diferentes, para públicos diferentes mas que preza pela qualidade e isso parece-me que é aquilo que é mais importante independentemente dos meios que se tenham para fazer uma iniciativa ou não.

Depois citou o caso de Viseu que retomou tradições antigas. O festival de Viseu já foi um dos mais antigos do país, existia antes do da Amadora, mas parou muito tempo e este ano eles fizeram a iniciativa de retomar o festival que se chama “Salão”.

Depois existe um em Moura com bastante importância e foi criado há pouco tempo, este ano vão partir na 3º edição, o festival de Leiria também com um trabalho de qualidade elevado quer com acções junto da comunidade universitária e associado a um projecto de revitalização urbana na cidade de Leiria, onde a BD e as artes em geral participam.

Sobre a relação com os outros festivais, eu falei na concorrência mas em primeiro lugar é um trabalho de parceria e nós temos feito questão de poder trocar exposições com Beja e com Leiria. Trocar trabalho também e inclusive estabelecer parcerias para projectos, isto já o fazíamos com o Porto e com Lisboa e agora fazemo-lo com os festivais que existem porque o Universo da BD é de facto muito pequenino e parece-me mais interessante, ainda que de uma forma concorrencional, que tenhamos uma postura de entreajuda, de juntar-se energias para termos o melhor em cada localidade do que estarmos em guerrilha constante que não beneficiaria nenhum.

Em relação ao concurso qual a razão de este continuar a estar limitado a escalões para menores de 30 anos?

O concurso da Amadorafoi sempre pensado para jovens artistas e não para novas revelações, o que não quer dizer que não possa ser mudado, porque de facto em tudo se não houver uma dinâmica de actualização em relação àquilo que é o mundo contemporâneo estamos todos estagnados. Mas foi sempre pensado assim e até há pouco tempo a definição de juventude era até aos 25 ou 26 anos e que nós alargámos até aos 30.

De facto esta noção muito exacta de até onde acaba a juventude se no início dela é mais simples porque há uma questão física, onde é que ela termina é cada vez mais difícil de determinar por diversas razões, inclusive pela instabilidade de trabalho, pelo prolongamento do tempo de estudo, etc. Por outro lado não era normal até alguns anos termos autores ou potenciais autores de BD com mais de 30 anos que quisessem participar no festival.

Hoje começamos a questionar-nos sobre isso, são casos pontuais, mas há pessoas com mais de 30 anos a quererem começar a fazer BD. É uma crítica que eu aceito como legítima hoje em dia, não foi ainda alterado conscientemente, porque isso implica repensarmos todo o sistema de participação no concurso.

Se pudesse escolher um autor/artista de BD para vir ao festival quem é que escolhia?

Neste momento há três autores a nível internacional que nunca estiveram no festival. Um é Marjane Satrapi de origem iraniana mas nacionalidade francesa e que por razões de segurança pessoal não viaja, porque ela e a família estão ameaçadas pelo estado Iraniano.

Gostava muito de trazer o Joe Sacco e também o Hayao Miyazaki, mas que tem uma idade em que lhe é complicado viajar e tem uma actividade absolutamente extraordinária mais ou menos como o nosso Manoel de Oliveira.

Para terminar, 20 anos é um grande número, ao longo desta caminhada existe um algum momento/s em particular que queira destacar?

Destacaria a 1º inauguração na fábrica da cultura, ou seja, o primeiro momento em que a câmara municipal da Amadora decidiu internacionalizar o festival da Amadora.

Destacaria dois artistas muito importantes que estiveram na Amadora um estrangeiro e um português. O Will Eisner que se juntou ao Morris como dois grandes nomes internacionais que estiveram em primeiro momento na Amadora. O outro mestre é o Eduardo Teixeira Coelho que tem uma relevância internacional extraordinária. A sua presença acontece 40 anos depois de ter saído de Portugal e essa presença correu tão bem ou tão mal que ele decidiu doar a obra da vida toda à Amadora e é desse primeiro momento que nasce a colecção de BD da Amadora, que eventualmente um dia dará lugar a um museu de BD que será provavelmente o primeiro da Península Ibérica e um dos poucos do mundo.

Por fim destacaria o 10º aniversário onde fizemos um primeiro balanço como vamos fazer agora. A surpresa foi quando começámos a juntar os nomes das pessoas e instituições e da arte que tinha passado por Portugal por culpa da Amadora e esse momento foi muito importante para nós.



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