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“Femina”

Work in progress de The Legendary Tigerman.

Treze diálogos surpreendentes, assentes no universo feminino, mais duas faixas extra, compõem o novo disco de The Legendary Tigerman.

Projecto idealizado há já cerca de dois anos e meio atrás, o alter-ego de Paulo Furtado afirma com felicidade (“mais do que ansioso sinto-me feliz”, refere) o início de um ciclo que não sabe bem, ainda, quando estará terminado.
 Para além das canções existem ainda as curtas-metragens criadas para documentar estes encontros e que mostram um outro lado das convidadas, do espectáculo, das gravações, etc. “Femina” é, no fundo, o princípio de uma história que o próprio ainda não sabe como e quando acabará.

Após a estreia de “Naked Blues” (2001), o arrepio na espinha de “Fuck Christmas, I Got the Blues” (em 2003), a lascívia de “In Cold Bold” (2004) e o apego às fantasias estéticas de “Masquerade” (2006), o “one man band mais numeroso de sempre” (como define Paulo Furtado) regressa bem acompanhado. Asia Argento, Maria de Medeiros, Becky Lee, Rita Red Shoes, as meninas do Cais do Sodré Cabaret, Lisa Keaula, Cláudia Effe, Phoebe Killdeer, Mafalda Nascimento e Cibelle, foram algumas das mulheres com que Paulo quis traçar este work in progress. 
Em comum no percurso de Tiger Man? O universo feminino em que sempre se envolveu. O que há de específico e diferente dos anteriores? O contraste entre a ideia difusa de mulher pelos alvos em concreto, que foram as mulheres para quem escreveu ou fizeram crescer versões já conhecidas. A versão de «These Boots Are Made For Walking»- divulgada durante décadas na voz de Nancy Sinatra- é disso exemplo. “Acreditei que com a MM a música podia crescer de um modo diferente. Ao dar-lhe uma certa fragilidade que é uma força diferente, mas que tem, obviamente, muita força”, refere Paulo.

No dia em que foi feita esta entrevista (vinte e dois de Setembro) o “Femina” ainda não tinha saído, mas Paulo Furtado acredita ser “até agora o trabalho que mais prazer me deu fazer. Estou muito satisfeito com o disco e tenho que agradecer à generosidade de todas as pessoas envolvidas, pois sem a generosidade e cumplicidade de todos os que o têm vindo a ajudar isto não seria possível”. Paulo referia-se não só às convidadas como a todos os que o acompanham no percurso enquanto Tigerman. Da parceria na produção com Nélson Carvalho, à realização do single de apresentação de Rodrigo Areias ou ao excelente trabalho do fotógrafo Mondino, não esquecendo, também, de falar nos cúmplices habituais, que não apareceram aqui “mas são e serão com grande certeza cúmplices em breve” diz Paulo lembrando, entre outros, o fotógrafo Pedro Medeiros.

“Femina” estará desde vinte e oito de Setembro disponível em vários formatos e suportes. Uma edição em vinil com temas exclusivos, um CD com treze músicas originais mais duas extra e uma edição especial FNAC composta por um CD e um DVD, que inclui seis curtas-metragens – realizadas por Paulo Furtado – o videoclip de apresentação realizado por Rodigo Areias, um álbum de fotografias da sessão com o internacional e conhecido fotógrafo JB Mondino e o documentário, da autoria de Jorge Quintela, “On the Road to Femina”.

A disposição do trabalho em vários formatos, deixa a ideia de querer chegar a um maior número de pessoas quase colocada em segundo plano. Paulo F explica: “para começar o projecto não começou inicialmente como um disco. A primeiríssima ideia que eu tive foi de um guião para uma longa-metragem a realizar a médio-prazo, pelo menos, e depois imediatamente a seguir a essa ideia quis desenvolvê-la como um disco e como várias curtas-metragens que não tivessem propriamente uma grande componente narrativa, mas quase uma volta a uma “inocência” do Super 8, ao filme de família quase documental/teatral. De certo modo achei que o “Femina” era o projecto ideal para fazer uma coisa global.

“A minha primeira análise em relação ao disco foi a de que pudesse existir em vinil, que fizesse com que as pessoas procurassem e descobrissem onde estava, mas por outro lado queria que outros temas pudessem chegar mais rapidamente às pessoas, torná-lo mais imediato.

Até ao momento tenho vinte e uma músicas. Queria dar atenção às pessoas envolvidas no trabalho e para mim era mais interessante libertar primeiro este álbum e depois ir libertando várias músicas em vários formatos e que podem chegar a pessoas muito diversas e de formas, também, diversas.”

Paulo acredita que “à partida uma pessoa que compre um disco meu terá, a meu ver, sempre de ter uma empatia com aquilo que faço. Poderá haver alguém ignóbil que compre um disco meu, mas acho difícil” (risos).

A profusão de universos diferenciados, trazidos pelas diferentes convidadas que nele colaboram, veio enriquecer o projecto. “Jamais convidaria pessoas cujo universo tivesse directamente  que ver com o meu. Se bem que considero que há vários pontos de contacto com o meu. Mas, acho que se convidasse pessoas especificamente do mesmo universo, seria reduzir as possibilidades do disco crescer e reduziria, igualmente, o interesse do trabalho” afirma.

Um dos aspectos basilares de “Femina” é a ideia exacta do que fica ao longo da conversa – a necessidade de diálogo entre todos os intervenientes, até porque Tigerman escreveu para determinadas mulheres que acreditou e acredita que possam levar a música mais além, alimentando-a ou colorindo-a de uma forma especial, que até direito à mudança, nos casos de Peaches e Becky Lee especificamente, para uma melhor interpretação teve.

“Femina” não vive de retratos e a componente cénico-teatral é posta logo de lado por Paulo quando lhe falo nisso. “Quis mostrar, tanto na música como nas imagens em super 8, a mulher por detrás da artista. Não ser a artista que todos já viram em vídeo, espectáculo ou numa foto. Poderá existir alguma teatralização, mas que é própria das pessoas enquanto animais de sociedade e acho que isso até é mais visível em Peaches que nas restantes”.

As convidadas foram-no porque as admira, mas também porque idealizou músicas que só algumas pudessem interpretar. “Algumas pessoas convidei, por achar que os universos se iriam fundir bem com o meu, outras o convite foi feito porque de repente uma determinada música me fez crer que essa pessoa levasse a música para um outro lado que a fizesse crescer noutras direcções. Até um ponto em que eu achasse que a música tinha atingido a sua finalidade” explica.

As expectactivas criadas para o concerto de apresentação no Lux (ver reportagem nesta edição), não o intimidam. “Mais do que ansioso ou nervoso estou sobretudo contente, como nunca estive com outro disco. Há algum nervosismo natural, mas mais até pelas pessoas envolvidas no trabalho e pelos adiamentos que o disco teve”, refere.

O universo feminino foi a atmosfera em que Paulo Furtado sempre respirou, os amores e desamores, o espírito blues e rock´n´roll mais abrasivos, mas em Tigerman as tonalidades sentem-se de um modo especial e um pouco diferente.

“O amor e a paixão tiveram sempre uma parte importante em tudo o que fiz, mas não encaro isto como algo em que estive a ir em direcção a. Acho antes que tenho vários percursos em paralelo, que podem ter pontos em comum, mas esta ideia insere-se no percurso exclusivo de Legendary Tiger Man”, explicita PF.

Mas, o Homem Tigre que recebeu elogios do ex-Pulp Jarvis Cocker, continuará em tour com o mesmo na temporada (ainda por agendar) de Inverno por Inglaterra.

As convidadas não estarão presentes, mas Paulo quando partiu para este projecto já o sabia e “vou fazer algo que nunca fiz anteriormente, que é ter as pessoas comigo virtualmente. Já tinha falado com as pessoas envolvidas e estiveram de acordo com isso”.

O concerto do Lux está para breve, o disco foi uma boa surpresa, o DVD a reflexão sobre os primeiros passos quiçá numa “nova arte”, resta agora ver e ouvir ao vivo o outro lado de cantar as mulheres, com algumas delas presentes.



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