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Vivenciar Ann Demeulemeester

A experiência de uma jovem que estagiou na marca, que agora deixou de contar com sua grande mestre.

Ao se encontrar no último ano de um curso de mestrado em Design de Moda, Teresa Mineiro sentiu certa urgência em entrar em contato com o mercado de trabalho, já que esse tipo de necessidade, infelizmente, é muito comum em estudantes universitários devido à grande diferença entre o que é vivenciado dentro das salas de aulas e o que é vivenciado em ambiente profissional. Mesmo após ter obtido a Licenciatura, Teresa ainda não tinha o incentivo e a certeza do que queria trabalhar quando se formasse.  Ao sentir essa necessidade de perceber melhor o que é uma empresa de moda e que mecanismos são necessários para que uma coleção de moda seja concluída, mostrada e vendida, Teresa enviou seu porfolio digital para várias marcas conhecidas internacionalmente. Após algum tempo, a grife belga Ann Demeulemeester, marca apresentada na Paris Fashion Week, aceitou-a para um programa de estágio que durou de 4 de fevereiro de 2013 a 12 de julho de 2013.

Antes de concluir esse artigo, a notícia de que a designer Ann Demeulemeester  deixará de chefiar a marca que leva seu nome faz de Teresa uma das últimas pessoas que a viu trabalhar na empresa. Segundo Teresa: “É uma pena, mas se calhar era realmente a hora de ela seguir um novo caminho, tendo criado uma imagem tão forte ao longo dos anos”.

Nesse programa de estágio, Teresa participou de várias áreas de desenvolvimento dentro do atelier, desde o uso e manipulação dos tecidos, acabamentos técnicos, trabalhos com padrões até aprender como um showroom e stock sale funcionam. Também teve oportunidade de acompanhar a equipa do departamento técnico e da designer a Paris para ajudar nos bastidores e na organização do showroom.

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Conversamos com Teresa Mineiro para saber mais detalhes sobre essa experiência:

Qual foi a primeira impressão que teve do atelier?

Quando cheguei ao atelier fui super bem recebida, fizeram-me logo uma visita guiada e a coordenadora do dep. técnico disse-me que as raparigas que lá trabalham são todas malucas e muito queridas. Fiquei só um pouco confusa porque pareceu-me tudo muito grande e um pouco labiríntico, mas ao fim de uma semana já sabia onde eram os ateliers, os arquivos, etc..

As raparigas estagiárias foram simpáticas, mas pareciam um bocado entediadas.

O que mais gostou e o que menos gostou do ambiente do atelier?

Adorei estar com as minhas amigas estagiárias, ouvíamos música dos anos 90, estávamos sempre a dizer parvoíces e de vez em quando lá vinha alguém dizer para baixarmos o volume, porque era mesmo divertido. Fomos nós que comprámos umas colunas para ligar aos ipods, porque até aí, só uma estação de rádio é que funcionava. Não gostei quando veio o estagiário da coleção masculina que nos começou a dizer que o assistente principal era arrogante e que nós não podíamos ir lá ao atelier deles sem perguntar (ele achava-se mais importante que nós). Isso criou uma distância desnecessária entre nós (estagiárias da coleção técnica) e os assistentes da coleção masculina. Já as assistentes da coleção feminina eram umas queridas e sabiam os nossos nomes. Uma delas veio passar férias a minha casa, em Cascais.

Dentre as atividades que realizou, qual delas mais gostou? E qual teve mais dificuldade?

Apesar de ter adorado trabalhar no arquivo e ser uma oportunidade maravilhosa de ver e conhecer melhor todas as coleções da Ann, este trabalho também era muito duro e cansativo. Nunca acabava e chegava por vezes uma altura em que só me apetecia destruir tudo, porque o espaço era cada vez mais pequeno e os corredores cada vez mais apertados. Um deles parecia mesmo uma selva de plástico. Tínhamos mesmo de lutar contra esses sacos onde as roupas estavam guardadas!

O mais difícil para mim, não pelo nível de dificuldade intelectual, mas sim, pelo nível de dificuldade física e psicológica, foram os primeiros 10 dias que passei em Paris no showroom. Fiquei no quarto de uma estagiária que passou todo o tempo do showroom a comer, enquanto eu e a Noëmi (a outra estagiária na altura) nos matávamos a levar caixotes, caixas, caixinhas e montes de roupa para os sítios certos. O ambiente foi muito sério, o que não me agradou porque eu costumo ser uma pessoa divertida. Já não podía ver a miúda à frente. Até lhe disseram “try to look more alive…”, mas não havia nada a fazer… Os dias foram monótonos e pareceram todos iguais.

O que mais te surpreendeu em relação ao que tu achavas que seria essa experiência?

Sinceramente eu não tinha expectativas muito altas. Acho que o que mais me surpreendeu foi a amizade e simpatia de algumas pessoas e o facto de, por vezes, nos tentarem fazer sentir “medo” das “classes” mais altas na hierarquia da empresa. Tudo isto me fez entender mais sobre relações humanas. Achava que, apesar de Ann estar mais afastado de todos os processos, que a veria muito mais vezes. Por vezes ela ficava lá 3 dias seguidos mas depois não aparecia durante umas semanas. Em relação à cidade, pensei que seria muito mais cosmopolita e, na realidade, apesar de turística, em Antuérpia, às 6 da tarde está tudo fechado. Isso aliado ao facto de as primeiras estagiárias não serem muito interessantes limitou muito a minha “actividade” social durante os meses mais frios.

Recomendaria um estágio como esse para alguém?


Sem dúvida alguma! É muito importante ser posto à prova e aprender coisas que não se aprendem na escola. É uma experiência extremamente enriquecedora não só a nível profissional.

Quais dicas daria para quem procura um estágio semelhante?

Eu penso que é muito importante ter um portfólio coerente, que mostre trabalho versátil e que seja apresentado de forma interessante. No entanto, eu acho que fui escolhida não só por isso como também pelo meu currículo, que conta com participações em concursos e outros projetos em paralelo, o que confirma a minha versatilidade e a minha sede de conhecimento. O importante é não parar de lutar. Não nos contentarmos com um não e não nos desvalorizarmos. Eu enviei uns 8 e-mails e teria enviado mais se não me tivessem respondido da Ann, para outras marcas tão ou mais conhecidas.

Após a experiência, conseguiu encontrar-se? É mesmo o design que quer seguir?

O design de moda é a minha grande paixão e esta experiência foi claramente uma confirmação disso. No entanto, abriu-me portas para outras coisas que não podem ser dissociadas da prática criativa como a parte técnica e de vendas. Fiquei muito interessada pelo trabalho dos vendedores no showroom que vendem o conceito, mas para além disso, nenhum outro posto me cativou.

 

Tem algum agradecimento a fazer?

O meu maior agradecimento vai para o Miguel Flor (coordenador da plataforma Bloom do Portugal Fashion e meu antigo professor) que, no último ano da minha licenciatura, depois de eu ter feito um trabalho de adição de coordenados a uma coleção da Ann, me disse que eu devia estagiar para ela. Parece quase incrível isso realmente ter acontecido. Sem ele, provavelmente não teria descoberto que afinal até tenho jeito para o design e que as coisas que faço têm valor e me podem levar para paragens inesperadas.



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