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Anne Fontaine

"Acredito mais na ficção que na própria vida"

Em exibição no cinema Zon Lusomundo das Amoreiras está o filme “O Meu Pior Pesadelo”, de Anne Fontaine. Depois dos enormes sucessos de “Coco Avant Chanel”, “O Preço da Traição” ou “Nathalie”, a realizadora aposta agora numa comédia romântica de estilo francês onde intersecta no argumento intelectualidade com vulgaridade que conta com a participação dos geniais actores Isabelle Huppert e Benoît Poelvoorde como protagonistas.

A realizadora esteve à conversa com a Rua de Baixo onde abordou o passado, presente e futuro da sua carreira.

Começou a sua carreira como bailarina, depois disso tornou-se actriz e por fim argumentista e realizadora. Alguma vez imaginou que o seu percurso profissional fosse este? Sonhava tornar-se realizadora?

Nunca imaginei ser realizadora. Comecei a minha carreira de bailarina muito jovem. Certo dia, numa classe de ballet quando tinha dezassete anos, um director de teatro viu-me e propôs-me um papel principal. Foi aí que me tornei actriz, por acidente. Fiz teatro e cinema até aos 25 anos, mais ou menos, mas já não me satisfazia; então decidi parar de representar e comecei a escrever argumentos para outros realizadores. Nunca pensei escrever argumentos para mim.

Finalmente, depois de alguns anos, um produtor achou que talvez pudesse realizar um filme. Não fiz nenhum curso de cinema, apesar disso acreditei que seria possível. E assim foi, realizei o primeiro filme em 1992, “Les histoires d’amour finissent mal… en général”, com um elenco composto por jovens actrizes. Foi seleccionado no Festival de Cannes, recebeu um prémio muito importante em França, o Prix Jean Vigo, e assim tudo começou.

Depois do primeiro filme comecei a tomar-lhe o gosto e senti que era aquilo que queria fazer.

Começar a realizar assim, de rompante, sem qualquer formação anterior, sem nenhum curso, nem workshop parece complicado

A única coisa que eu sabia, e para a qual estava de facto preparada era para escrever, de resto não tinha qualquer preparação. Tinha a noção da história que queria contar e um bom senso na escolha e coordenação dos actores. Mas, incrivelmente, no primeiro filme eu sabia como dirigir os actores, tinha a experiência de actriz. Observei e aprendi muito durante esse período, ajudou-me muito. Executei o trabalho de realizadora desde o início, mas tecnicamente não sabia nada, as coisas fluíram naturalmente. Eu sabia o que queria exprimir, estava rodeada de uma equipa técnica que me ajudou, cada um na sua função.

Aprendi as técnicas depois.

Então com essa falta de conhecimento das técnicas cinematográficas precisava sempre de uma forte equipa a acompanhá-la

Sim, há sempre uma boa equipa envolvida em cada filme e é necessário uma equipa especializada. Nunca fiz uma curta-metragem, não passei por esse processo. O meu primeiro filme foi uma longa-metragem, contou directamente com uma equipa profissional, forte e adequada.

Conte-me como surgiu esse primeiro filme, o “Les histoires d’amour finissent mal… en général”

É uma comédia francesa sobre adolescentes, com personagens muito jovens. Este filme tem fortes rasgos do típico cinema de autor francês. Primeiro escrevi o argumento, mas não imaginava que fosse eu a realizá-lo; estava à espera de o vender a alguém. Mas isso não aconteceu, então realizei-o. Ninguém quis comprar o argumento. Diziam que era muito pessoal e que eu é que devia fazê-lo. Eu respondia-lhes: “Mas eu não sou realizadora”. Até que um dia decidi tentar e foi para mim uma experiência incrível, foi o filme que me lançou na realização.

Como está o panorama do cinema francês?

Em França temos muito apoio e muita sorte. Há imensos cinemas e bastante diversificados. Os subsídios e ajudas para os primeiros filmes estão lá, é o País da Europa que mais investe no cinema. França tem uma produção de cerca de cento e trinta filmes por ano, é bastante. O que simboliza que há muita energia e muita riqueza cinematográfica. Para além disso, existe uma situação curiosa em França, há muitas mulheres realizadoras, facto que não acontece tão intensamente pela Europa, nem pelo Mundo, é raro. Quando vou a outros Países apresentar os meus filmes as pessoas ainda olham curiosas por eu ser mulher e realizadora.

Para um filme o que prefere: escrever o argumento, escrever o argumento e realizá-lo, ou realizá-lo apenas? O que lhe causa mais satisfação?

Tenho feito dos três tipos. Por exemplo, o meu último filme, “Two Mothers”, que só estreia no fim do próximo ano, é da minha realização, inspirado no romance de Doris Lessing e adaptado por Christopher Hampton. “O Meu Pior Pesadelo”, filme em exibição durante Janeiro em Portugal, foi realizado por mim e também escrito por mim e pelo Nicolas Mercier. Por isso, depende muito; posso inspirar-me num livro, como também posso a partir de aí escrever um argumento novo adaptando-o ou alterando-o de uma maneira especial e pessoal, como posso partir de uma ideia só minha.

É difícil categorizar o seu trabalho. Já se referiram várias vezes aos seus filmes como “dramas psicológicos”. Esclareça-nos

Depende, por acaso o “Two mothers” é um “drama psicológico”, mas “O Meu Pior Pesadelo” é uma comédia, o “Coco Avant Chanel” uma biografia e o “Fille de Monaco” uma comédia trágica. O meu trabalho é difícil de categorizar porque é variado.

Viveu em Lisboa durante alguns anos

Sim, vivi em Lisboa até aos quinze anos. Frequentei o Lycée Français Charles Lepierre dos três aos quinze, foi quase toda a minha infância e parte da adolescência.

Acompanha o Cinema Português?

Sim, acompanho Manoel de Oliveira e Pedro Costa, por exemplo. Gostava muito do João César Monteiro. Quando em França estreia um filme português vou vê-lo. Claro que não vejo todos, só os que me interessam. O cinema português é um cinema muito interessante. Agora vou ver o “Tabu” de Miguel Gomes, ouvi boas críticas e estou muito curiosa.

Os portugueses vão poder ver agora o seu filme “Mon Pire Cauchemar” que estreou esta semana. Fale-nos um pouco deste filme

Escrevi este argumento a pensar nos protagonistas, considerados uns dos melhores actores franceses. Falo de Isabelle Huppert e Benoît Poelvoorde. São tão diferentes, são opostos, a Isabelle é muito intelectual e cerebral. O Benoît é considerado em França um dos actores mais interessantes e carismáticos, é um actor extremamente versátil. Quis então escrever uma comédia sobre dois mundos que não se encontram nem coexistem, que não podem comunicar e que culturalmente estão afastados, tanto a nível de inteligência como na educação.

O meu objectivo foi intersectar essas duas personalidades, duma maneira cómica e profunda. O encontro deles é acidental e desenvolvem uma relação especial. Ela não estava habituada a um homem daqueles, um tipo ordinário. Quando fiz este filme gostava de destacar o que é chique e vulgar e como ocorre a sua junção, focar esses dois pólos opostos.

Costuma escolher o actor Benoît Poelvoorde como protagonista dos seus filmes. A que se deve essa escolha repetida?

O “Mon Pire Cauchemar” é o meu terceiro filme em que o Benoît é protagonista. Também protagoniza o “Coco Avant Chanel” e “Entre Ses mans”. Neste último representa um serial-killer tenebroso, o pior de toda a França, cria medo e ansiedade. O Benoît é belga e é dos actores mais apreciados em França, eu adoro-o, ele é óptimo e entrega-se ao papel na totalidade; é mesmo verdadeiro, genuíno, original, profundo e incrível.

Aproximam-se novos projectos?

Concluí o filme australiano “Two mothers” e vou levá-lo ao Festival Sundance em Janeiro; estreia em França em Abril. Acabei de escrever uma nova história sobre uma inglesa que vem viver para França, é a adaptação de um livro inglês muito interessante, por isso os idiomas serão Inglês e Francês, mas mais Francês que Inglês. Também estou a fazer o casting para escolher os dois actores principais para este filme.

Quer deixar algum conselho ou alguma dica para os jovens realizadores?

É muito difícil dar conselhos, mas penso que quando se quer fazer um filme e não há investimento, nem dinheiro, então deve ser um filme muito pessoal, que trate de um ponto de vista subjectivo e íntimo. Só cada um pode contar a história pessoal, mais ninguém. Isso ajuda a ter alguma força para lutar, para conseguir realizar o filme, porque é muito difícil fazer um filme, muito, muito difícil, tanto economicamente como psicologicamente. É como uma guerra.

Acredita no destino e na sucessão inevitável de acontecimentos aos quais não podemos escapar?

Não, acredito na construção e na nossa construção pessoal. Também há o lado injusto da coisa e uma pessoa sem talento pode conseguir realizar algo que deseja e uma pessoa com talento não. É complicado, é uma mistura da personalidade com determinação. É muito importante ser determinado, o cinema é uma arte industrial na qual sempre haverá pessoas a criticar, a dizer que não é bom, que não dá, que não vai… eu sempre fui determinada.

Acredito mais na ficção que na própria vida. Isso ajuda na minha profissão, prefiro criar alguma coisa do que ir para a praia todo dia.



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