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“Answer Me”, de Dood Paard

Podia acontecer em qualquer lado e em qualquer momento e infelizmente acontece. Toda a gente esquece e quem sobrevive tenta nunca mais se lembrar das perguntas que esquecem a resposta.

Uma hora e meia de interrogações eufóricas, sem nexo aparente e sem perdão, que busca a (tua) verdade e o (teu) sentido da vida sem medo. Mesmo sem se querer ou esperar, é inevitável ir para casa a pensar naquelas perguntas. A peça tem esse mérito. É forte, intensa e original.

Cinco profissionais de interrogações policiais, vestidos com roupa e adereços de humor estilo kitsch que se despem na expectativa de sentirmos vontade de fazer o mesmo do outro lado. São três homens e duas mulheres que nos interrogam, em ricochete e, alegadamente em equipa, sem dar tempo para fechar os olhos e sem cessar-fogo a quem os escuta.

O público é chamado a responder a perguntas que nunca têm respostas e que, na verdade, não esperam resposta. É um jogo psicológico de tortura e de terror. Fazem perguntas sem parar depois de dias sem dormir. Querem obrigar o público a responder a perguntas que não deixam ouvir ou que, entre si, não têm qualquer coerência ou seriedade. Querem baralhar, querem assustar. Querem incomodar. Brincam com as perguntas, brincam com a fonética, brincam com o público e com o interrogado. Mas quando um intervalo de paz e de tréguas surge, logo soltam gritos e histeria, com perguntas e gestos bem-feitos e provocadores, muitas vezes de falsa sedução. Querem ouvir a verdade de uma história que eles dizem já saber. Graças aos serviços secretos, eles já sabem tudo, querem apenas ouvir essas palavras da nossa boca. Mas ninguém responde. Não há tempo para pensar, não há espaço para falar, há apenas medo e pressão que dominam o interrogado.
E os interrogados somos nós.

No fim, sem se esperar, despem-se e adormecem, com o tranquilo espírito de missão cumprida. E a sua serenidade contrasta com o fim de toda aquela violência e desconforto criado. O interrogatório passa-se num beco escuro e sem saída, separado por cortinas de armazéns frigoríficos do mundo verde e humano que está do lado de lá.

Retrata-se aqui um exercício de poder e de descontrolo, de loucura e de narcisismo. Ficam a nu os devaneios, os desequilíbrios inconscientes e as projecções pessoais na parte mais fraca de quem diariamente interroga e tortura prisioneiros de guerra, sem regras, sem tempo, sem paciência e sem respeito pelas convenções internacionais e pelo ser humano que teve a infelicidade de ali estar sentado e submetido aquele jogo de poder.

É inevitável não questionar o dia-a-dia de quem se dedica a extorquir respostas involuntárias ou pequenos tímidos reflexos automáticos de quem só tem os lábios para morder como sua arma de defesa pessoal num cenário de guerra psicológico como àquele.

As luzes eram frias, cruas e duras, escolhidas a dedo para nos fazerem sentir num espaço hostil e desumano.

O cenário parco e estranho, separado do mundo vivo e verde por tiras de plásticos do supermercado, resumia-se a uma cadeira, tapetes fofos e coloridos de casa de banho que embalavam o sono dos guerreiros das perguntas. E sem se esperar, ainda aparecia uma botija desparasitante, que dá o mote a um monólogo interpretado por Luz da Câmara num inglês de Babel, com uma mensagem em formato happy end, cheia de esperança, moral e bons costumes.

Destaca-se a deslumbrante interpretação de Gonçalo Waddington que, mais uma vez, nos brinda, com arte, alma e dicção impar. Porém, os actores holandeses não lhe ficam atrás. São extraordinariamente expressivos e cativantes, no seu gramaticalmente inglês correcto mas que não deixa esquecer o sotaque da sua língua mãe. Gillis Blesheuvel consegue ser tão gracioso quanto a sua altura e faz apaixonar qualquer público. Manja Topper também, é uma delícia para os nossos olhos e ouvidos, mesmo quando grita desesperadamente e num timbre inaudível de soprano desafinado. Ela brinca com as expressões faciais e com o seu corpo com detalhe e sem pudor. Em suma, os Dood Paard e o Gonçalo Waddington são apaixonados pelo que fazem e em palco dão tudo, corpo, ritmo, cor, suor, requinte e glamour às suas personagens só com o som dos seus gestos, palavras e olhar.

Em “Answer me”, espectáculo falado em inglês e legendado em português, genialmente concebido e interpretado pela Companhia holandesa Dood Paard – à semelhança do que se passou com a peça “Medeia”, que esteve no passado mês de Maio no palco do Teatro Maria Matos – que se encena a si própria, com um texto escrito especialmente para o Festival Alkantara pelo autor/actor Gerardjan Rijnders, que intimida credivelmente o espectador. Os Dood Paard  – que em português se traduz como “Cavalo Morto”, nome retirado de um verso do  poeta holandês Gerrit Achterberg –  são uma companhia de teatro atípica e exemplar que prescinde de director artístico e encenador e opta por dar toda a liberdade criativa aos actores quanto à interpretação do texto, cenografia, desenho de luz, adereços e guarda-roupa.

Esta peça vai continuar em itinerância nos palcos europeus com a participação, também em português, de Gonçalo Waddington nos próximos meses: em Julho em Rakvere (Estônia), em Agosto em Aarhus (Dinamarca), em Setembro em Roterdão (Holanda) e por fim, em Novembro de 2010 em Helsínquia (Finlândia).

Bem hajam Thomas Walgrave e Dood Paard.



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