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Anticristo

2010 começa com a explosão misógina de Lars von Trier, um filme que é também um dos mais polémicos de sempre, mesmo não sendo assim tão obsceno e horrendo, uma fábula de terror à maneira do homem que nos deu o Dogma e que agora não quer saber dele.

Parece que hoje em dia a dimensão cultural e artística de um filme e o seu respectivo sucesso nas salas de cinema é directamente comparável ao fluxo de polémica criado nos media à volta do mesmo. Como se um filme existisse apenas para provocar o estômago e a língua afiada dos espectadores e, assim, engrossar uns milhões nos bolsos das produtoras e distribuidoras que assim vêm o seu trabalho concluído. Não que estejamos numa fase decadente ou que não haja criatividade, mas porque a experiência cinematográfica é quase sinónimo de fluxo de informação – quanto mais polémica, mais espectadores. Tudo isto pode ser alcançado simplesmente por uma boa campanha publicitária. Mas há filmes que não precisam de estratégias elaboradas nem de souvenirs.

“Anticristo” foi vaiado, idolatrado, mal interpretado ou, pior, interpretado até à exaustão desde que estreou na Primavera passada. Quase um ano depois chega às nossas salas de cinema. Não se consegue perceber porque não vimos o filme na altura, mas também não parece importar. Lars von Trier parece também não se importar muito. Sinteticamente, “Anticristo” conta a estória de um casal que perde o filho e relata a cura psicológica da mãe através da perda e do luto, da dor. Ele, o pai, é também um terapeuta especializado e é o próprio que encena uma série de episódios psicológicos para ajudar a sua mulher no processo. Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg são os únicos actores no filme inteiro, e atiram-nos valentes interpretações, especialmente Gainsbourg, à beira de um colapso nervoso, expondo-se sem precedentes às ideias de von Trier.

“Anticristo” é também um pseudo-horror barra thriller (carregado de suspense, acrescentaria o locutor da RTP), mas feito à maneira de von Trier, que nunca nos decepciona na sua concepção do mal, do real, e dos limites da consciência humana (ou falta dela). As metáforas contadas pelas imagens belas e obscenas, a floresta e a cabana onde metade do filme se desenrola (chamada de Eden), os animais e todo o sangue que pinta de vermelho este filme politicamente incorrecto. A sequência inicial, o prólogo de “Anticristo”, é a melhor do ano, um slow-motion soberbo que marca desde logo o ritmo e ambiente do filme. A mestria do realizador, ajudado por alguns efeitos digitais, e, no conjunto, as performances de Gainsbourg e Dafoe, tornam este exercício de von Trier numa atmosférica e propositadamente senil experiência que por mais palavras que corram na internet, nas revistas e nos jornais não há quem faça verdadeira justiça. Mas não são os belos pormenores estéticos ou o propositado descontruir das regras de campo-contracampo e raccord, numa das primeiras cenas, no hospital, onde von Trier nos ilude com a sua brincadeira de colocar os actores no mesmo eixo – se von Trier disse que fez este filme como recuperação de uma depressão parece estar mais consciente que nós.

Mas é claro que estes pormenores não fazem sentido para a maioria. Por mais que ataquem o machismo e a misoginia do filme, a mutilação sexual e o sexo obsceno e carnal, a maldade e a aparente falta de sentido, são os pormenores que estão à superfície que transformam “Anticristo” num filme que vale a pena ser visto. A estória, especialmente na primeira metade do argumento, é contada à faca e sentimos o sangue a correr-nos nas veias à espera do desenlace. Os actores, os animais, o animalesco, o nú, a floresta e a natureza que se revolta contra nós (estando dentro de cada um, ou a natureza humana versus a natureza lá fora), e von Trier. O problema é que tentamos descodificar o filme e os símbolos e eles não fazem sentido.

Mas isso também não é uma boa desculpa, porque a propositada demência do filme é demasiado presente e estraga alguma inteligência que possa salvar a película do absolutamente ridículo. Mas o que é realmente obsceno é a facilidade que von Trier tem de nos iludir e apontar o dedo do meio, é ele quem manda, claro, é ele que nos tem nas mãos. São tudo razões para não deixar escapar este brilhante e exdrúxulo Anticristo nesta fase senil de von Trier. Sem vomitar.



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