Ninfomaníaca

NINFOMANÍACA, VOL. 2

Joe e o desejo lascivo.

Esta é uma obra que faz apenas sentido no seu conjunto. Comparar uma primeira parte a esta segunda seria um erro e deve ser vista como um todo. A primeira parte não é de todo menos séria, no entanto o desenvolvimento deste inacreditavelmente bem escrito enredo desenvolve-se com uma dinâmica completamente diferente nesta parte. Estruturalmente idêntica na forma como nos é apresentada, a história atinge uma dimensão bem diferente e falamos na seriedade das circunstâncias e na violência das imagens que nos são apresentadas e naquilo que elas representam. Joe (Charlotte Gainsbourg) é agora uma mulher e isso inunda o argumento de substância e seriedade. Enquanto a primeira parte se traduz numa descoberta e exploração da sexualidade, Joe enquanto adulta depara-se em busca de uma felicidade de moroso alcance.

É no capítulo seis “The Eastern and The Western Church” que Von Trier traz à tona aquela que se pode considerar uma das mais polémicas apreciações deste filme, talvez a mais característica do seu estilo. Polémica mas não menos inteligente e bem pensada. São postos lado a lado dois cultos que acompanham o Homem desde os seus tempos mais remotos: a Religião e o Sexo. Neste capítulo, o sexo representa para Joe aquilo que para muitos representa a religião. O desespero perante a sua frigidez sexual fá-la procurar K (Jamie Bell) e entrar num processo de flagelação comparável aos cultos religiosos que movem multidões de lés-a-lés.

A certo ponto acompanhamos Joe numa fase de possível redenção. No capítulo sete, “The Mirror”, é aconselhada a frequentar um grupo de reabilitação para viciados em sexo. A protagonista introduz-se como uma ninfomaníaca e apercebemo-nos do fosso existente entre ela e as restantes pessoas na sala. Joe aceita a correcção e assume o seu problema e dependência sexual levando a sério o processo de reabilitação, no entanto é numa das reuniões que Joe se olha ao espelho, vê o seu reflexo enquanto criança e se apercebe da sua realidade sexual enquanto ninfomaníaca. Joe não está doente, nunca esteve e não serão as condutas sociais que lhe tentam impingir que a farão pensar de outra forma. Poderíamos dizer que afasta do seu caminho qualquer possível salvação mas digamos exactamente o oposto, a aceitação da personagem enquanto ninfomaníaca é exactamente a sua libertação. De ressaltar a imagem da criança que teve o importante simbolismo de recordar à protagonista que aquilo a que se propõe, aquilo que tenta redimir é algo que já nasceu com ela.

O disparo do último capítulo “The Gun” é visceral e irónico. Joe encontra-se em circunstâncias onde trazer à tona o âmago sexual do Homem diz muito a respeito deste mesmo (mais até do que a maioria poderia pensar). Caminhando no seu habitat natural Joe recorre a técnicas natas desempenhando o seu papel com mestria. Finalmente é-nos revelado o motivo que levou a cruzar-se com Seligman (Stellan Skarsgård). Num curto espaço de horas Joe é duplamente traída, primeiramente pela sua aprendiza e finalmente pelo seu novo amigo. Em nome da luxúria, tendo o amor ficado de fora nas quatro horas que assim terminam.

Os diálogos de Seligman com Joe são marcados pela grande altivez do próprio realizador. As suas metáforas são acima de todos, o principal motivo da sua larga legião de fãs. Mais do que nunca, em Nymphomaniac, existe uma grande necessidade de nos explicar o seu ponto de vista. Seligman é hipérbole disso mesmo: desconstrói-nos a vida de Joe, fazendo comparações e dando-nos justificações como se de doutrinas se tratassem. Mas Lars Von Trier é isso mesmo, um homem de grandes certezas.

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