bisonte_header

Atenção que O Bisonte anda à solta!

Asneirada e muito Rock em entrevista à Rua de Baixo

Em vésperas de lançarem o seu novo álbum “Mundos e Fundos”, Davide Lobão (voz) e João Carvalho (guitarra) juntaram-se à Rua de Baixo para um café e dois dedos de conversa.

O Bisonte anda aí e promete causar estragos.

Tendo para trás tantos outros projectos e vindos de backgrounds musicais tão diferentes, como surge a necessidade de criar O Bisonte?

João – Isto aconteceu numa altura em que estávamos todos um pouco parados. Eu e o Guilherme, o baixista, estávamos a tocar na mesma banda, My Eyes Inside. Enquanto que eu estava lá a ajudá-los no novo CD, o Davide estava a fazer o som. Essa banda não resultou como gostaríamos e sentimos a necessidade de fazer algo do coração, em que quiséssemos todos dar o máximo. E tinha que ser Rock. Então, numa noite de copos, foi mesmo “Olha, vamos fazer uma banda Rock!”. Já andava a lixar a cabeça ao Davide há algum tempo, o Guilherme também estava na sala, Stone Temple Pilots a tocar e o entusiasmo aumentou de tal forma que foi impossível parar. Foi tudo muito natural.

O Gualter apareceu mais tarde. Ainda fizemos umas experiências com alguns bateristas mas acabou por ficar ele. Mas não à primeira (risos). Eu e o Davide ficámos um bocado apreensivos com o primeiro teste que fez, mas o Guilherme ficou convencido e marcou logo um segundo teste. Aí nós já alinhámos mais na onda dele.

E porquê o nome “O Bisonte”?

Davide – Quando me juntei com o João para ouvir os primeiros riffs que ele tinha, depois de me dizer “Vamos fazer uma banda, vamos fazer uma banda!”, eu disse-lhe que não tinha tempo e tal mas que um nome fixe para uma banda era Bisonte. Ele ficou a olhar para mim com ar de quem não sabia muito bem o que dizer, mas pronto (risos). Aquilo passou-se e, quando nos juntámos de facto para fazer uma banda e tínhamos que escolher o nome, eles começaram a pensar “Qual é que vai ser o nome?”. Eu tornei a dizer a mesma coisa “Nós vamos procurar mas o nome, no fim, vai ser O Bisonte”. “Ah não é nada, vamos procurar”, disseram. E realmente depois ficou “O Bisonte”.

Bisonte por isto ser quase instintivo. É uma coisa que não é muito reflectida: fazemos, juntamo-nos, tocamos, aquilo sai tudo de uma assentada e vamos criando. Se calhar isso e também o facto de ser um animal forte e o nosso som ser também algo corpulento. Assim, para nós, fez todo o sentido sermos “O Bisonte”.

E as pessoas gostam. Isso é que é extraordinário! E acham que é diferente. Para nós isso é o melhor! (risos)

Depois de um tempo recorde de composição e gravação do vosso primeiro trabalho, “Ala”, como decorreu o processo criativo do novo álbum “Mundos e Fundos”?

João – O processo criativo foi muito idêntico. Somos nós os quatro na sala de ensaios, há sempre alguém que chega com uma ideia, uns dias sou eu, outros dias é o Guilherme… vai variando. Quem tem ideias chega lá e manda para o ar! (risos) E depois estamos os quatro a martelar no sentido que mais nos agradar. Há músicas que saem muito mais facilmente que outras mas, comparativamente com o processo criativo do “Ala, muita pouca coisa mudou, com a excepção daquilo que queremos da música. Isso mudou um pouco pois ficámos mais exigentes com o que fazemos.

Davide – Sim, se o “Ala” foi todo feito de um rasgo porque as ideias, riffs e estruturas iniciais já estavam todas alinhadas pelo João, nós fomos revestindo por cima as músicas e as letras surgiram todas na hora, já no “Mundos e Fundos” nós críamos tudo de raiz, juntos. Os riffs foram surgindo uns atrás dos outros, algumas letras saíram imediatamente mas outras tiveram que ser mais reflectidas. Como o João estava a dizer, tornámo-nos mais exigentes. As ideias têm que ser mais concretas, temos que saber exactamente aquilo que estamos a fazer, o que queremos dizer, de que forma é que o queremos transmitir… temos que encaixar tudo.

Onde é que O Bisonte vai beber as suas influências?

João – Essa é uma pergunta cada vez mais difícil de responder. Se, no primeiro álbum, eu tinha as minhas referências bem definidas, cada vez mais me perco em novas referências. Pessoalmente, estou numa fase em que tenho dificuldade em agarrar-me a alguma coisa. Quero ouvir um bocado de cada coisa e nesse processo perco-me um pouco. É bom ouvir de tudo mas é mau sob este ponto de vista, porque depois não há nada muito concreto e um gajo anda sempre a divagar entre estilos.

Davide – Pá, a influência continua a ser sempre o Rock (risos)…

João – Sim, é isso (risos).

Davide – E o Rock é uma influência tão vasta, abrange tantas coisas, que independentemente de ser mais calmo ou mais pesado o Rock é sempre Rock. As referências de base, instrumentalmente, continuam a ser os Led Zeppelin, os AC/DC ou os Stone Temple Pilots, os Nirvana… por aí fora! Depois há um conjunto de coisas que ouvimos, como bandas de Post Rock ou até música mais calma. É por ouvirmos estas coisas todas e as misturarmos que obtemos o resultado que temos. Até nos podem dizer que estamos a fazer Rock dos 90’s como já nos disseram, de uma forma negativa, mas, para nós, dizerem-nos que soamos como uma banda rock dos 90’s é extraordinário! (risos) Nós gostamos! Gostamos de Pearl Jam, gostamos de Alice in Chains…

João – E dos Soundgarden!

Davide – Tudo! Não negamos nada. Continuam a ser as nossas influências. Até mesmo o que ouvimos agora, bandas que apareceram mais recentemente, movimentos, que dizem bem, que dizem mal… tudo é uma influência.

Em relação às letras, as do “Ala” foram escritas totalmente em Português. É um princípio a manter? E como tem sido a receptividade do público?

Davide – Nós estamos outra vez a assistir a uma mudança. Aqui há cinco ou seis anos atrás a moda era ter letras em Inglês. Já há dois ou três anos, passou-se a fazer música em Português e agora estamos outra vez a passar mais uma fase.

Desde que faço música que para mim é irrelevante. Se o faço em Inglês é porque me apetece. Se o faço em Português é também porque me apetece. Aqui n’O Bisonte as coisas saem assim e, ao contrário do que se esperaria, não encontro dificuldade nenhuma. As pessoas até se identificam mais. Chegamos aos sítios e há pessoas para nos verem, o que é incrível (risos). E há pessoas que sabem as letras de cor, como se aquilo já fosse deles. Só isto já nos demonstra bem essa aceitação. E para nós é óptimo!

O que trazem de novo à música made in Portugal? O que vos distingue de tudo o resto que tem aparecido nos últimos anos?

Davide – A única coisa que nos diferencia… é sermos únicos! (risos) É sermos nós próprios. Tal como todas as bandas que aparecem, que aquilo que as diferencia é serem todas uma “pessoa” diferente das outras. Na música é sempre assim. Não concordo muito quando dizem que está tudo inventado. Se todas as pessoas são diferentes e nos comportamos todos de modo diferente, ainda que tenhamos semelhanças, se temos algo para dar e força suficiente para ir com esse algo para a frente, então estamos a dar algo que é nosso, somos nós próprios. Somos O Bisonte, que é como um animal feito de quatro pessoas que tocam Rock e dizem palavrões às vezes (e outras vezes não). Isso é que nos torna quem somos.

Então o segredo para ir vingando por cá passa exactamente pela paixão visceral pelo que se faz…

João – Sim, sem dúvida alguma. Acho que esse é mesmo o principal factor: fazer o que se gosta, sem querer pertencer a nenhuma facção. E, apesar de ser um bocadinho cliché, ter uma mente aberta. Antes de dizermos que uma coisa não presta, devemos ouvir. Porque se calhar até gostamos. É preciso ter gosto e muita convicção.

Apesar de vos sabermos da cena Rock, onde poderemos dizer que se posiciona concretamente a vossa sonoridade?

João – É um Rock, que dentro do saco do Rock, vai um bocadinho a todo o lado (risos). Quando estamos a compor vemos isso e já percebemos que isto não vai parar de mudar. Num terceiro álbum as coisas já vão ser diferentes do primeiro ou do segundo. A única certeza que temos é que vai continuar a ser Rock. Para onde vamos fugir, isso é que já…

E o que é que o público pode esperar deste novo “Mundos e Fundos”?

Davide – É um álbum mais denso, mais carregado que o primeiro. O primeiro é sempre… explícito. Mas continua a ser O Bisonte, continua a ser Rock, continuam a ser quatro gajos a tocar…

…e com pouco tento na língua…

Davide – (risos) Sim, sim, mas é assim que as pessoas falam! Aliás, as ideias que temos primeiro são bem piores que aquilo que fica no final (risos). Mas as pessoas são assim. Nós saímos à rua todos os dias e ouvimos falar assim, falamos assim! No Porto até falamos pior! Dizemos palavrões como usamos uma vírgula. E se no Inglês dizer palavrões, para além de normal, é fixe, em Português a reacção já é mais “Olhó gajo que se põe ali a dizer asneiradas…”. É um desafio (risos).

Com a digressão a começar a ser definida, com que é que já podemos ir contando?

Davide – Para já temos cerca de dez datas. O concerto de apresentação será dia 31 de Março, no local onde gravámos o primeiro disco (Lagares, Penafiel). É um pouco longe do Porto mas vale a pena visitar. Daí também termos corrido o risco de fazer o concerto lá, mesmo sabendo que poderá aparecer pouca gente, pois quem for vai certamente gostar da aldeia, que é extraordinária. Dos restantes concertos já agendados, destacaria os concertos no Porto, nomeadamente no Plano B (uma oportunidade que apareceu para tocarmos cá e que decidimos agarrar) e no Hard Club, em Guimarães, em Caldas das Taipas e também na zona de Alcobaça. Anunciaremos muito em breve outras datas no nosso site.

E com O Bisonte à solta, para onde é que ele agora vai?

Davide – Vamos continuar a empurrar e empurrar porque Portugal é pequeno. É difícil conseguir encher um espaço de, sei lá, vinte mil pessoas como enche uma banda estrangeira. Por isso é que queremos empurrar limites e limitações. À força, se for preciso.

João – Acho que cada vez menos existem problemas em relação a gostar de bandas portuguesas. Na minha visão as pessoas ainda não sabem ao certo do que realmente gostam mas vão provando de tudo. Por isso acredito que está para chegar um bom período para as bandas portuguesas, para a música portuguesa, para a arte, no geral.

Empurrar os limites até para lá da fronteira também?

João – Sim, é uma porta sempre aberta.

Davide – Mesmo que possam dizer que a língua é uma barreira, não achamos que isso faça sentido. Música é música. Se ela chega, tem força e as pessoas gostam, se sentem o ritmo, não precisam perceber o que um gajo está a dizer. Quando era miúdo e saiu o primeiro disco dos Ornatos eu também não percebia metade do que o gajo dizia. E achava aquilo incrível! E só depois, com o tempo, é que fui percebendo o que ele dizia. Se pode ser assim com os outros, porque é que não pode ser assim connosco?

E as groupies?

João – Isso é com o Davide (risos).

Davide – (risos) Não sei. Isto é estranho… isto de as pessoas se interessarem tanto por esta banda. Nós achávamos que estávamos a fazer uma coisa incrível, mas para nós! (risos)

Andam bem… Eu gosto. Eu gosto porque as pessoas gostam disto. Há interesse pela música e os concertos enchem. Mas isso são outras conversas… (risos)

Fotografia de Pedro Castro



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This