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Audrey Hepburn

E a intemporalidade de um vestido preto

“Breakfast at Tiffany’s” é um daqueles títulos de Cinema que mereceu a honra de uma tradução muito criativa para o Português, décadas antes de existir o Google Translator. Em Portugal, chamou-se “Boneca de Luxo” e, no Brasil, teve a honra suplementar de uma “inha”: “Bonequinha de Luxo”.

A boneca, ou bonequinha, era Audrey Hepburn. Estava-se em 1961 e a actriz desempenhava o papel que Truman Capote, que escrevera a novela que deu origem ao filme, pensara para Marylin Monroe. Uma introvertida a fazer de extrovertida, nas palavras da própria. Muito para lá de extrovertida, a personagem era de uma candura a dizer as maiores barbaridades. “Tenho de fazer alguma coisa pelo meu aspecto. Quer dizer, uma rapariga não pode ir a Sing Sing com esta cara verde.” Parecia antever já a personagem de “My Fair Lady” que anos mais tarde interpretaria, mas sem o sotaque cockney.

Audrey Hepburn enquanto Holly Golightly, a bonequinha da trama, com o seu olhar de gazela a segurar uma boquilha de tamanho extra, é uma daquelas imagens iconográficas do Cinema norte-americano. Só por isso, “Breakfast at Tiffany’s” merecia um lugar destacado entre os filmes que ditaram uma moda, um estilo. Mas há muito mais: os óculos da personagem, entretanto reeditados aquando dos 50 anos do filme, e os vestidos Givenchy, especialmente o vestido preto que a personagem usa logo no início. Uma dessas peças de roupa femininas que são intemporais.

Em 1954, já tinha protagonizado “Sabrina”, a comédia romântica de Billy Wilder que encantaria o público com este conto de fadas norte-americano sobre a filha do motorista que é pretendida (ferozmente!) pelos dois patrões. Curiosamente, é já um vestido preto de cocktail que o público associa a Audrey Hepburn nesse filme, que condiz na perfeição com o seu ar de quase debutante, uma expressão de olhar única e uma figura esguia e de cabelo curto. A complementar o visual, calças curtas à corsário e as famosas sabrinas.

Quanto à autoria do vestido, não há certeza de ter sido uma criação de Givenchy; sabe-se sim que Audrey Hepburn gostava bastante de ter a última palavra sobre a roupa que vestia na tela e que a sua grande amizade com Givenchy começa nessa época.

Felizmente para os apreciadores de Moda no Cinema, depois de Sabrina seguir-se-ia “Funny Face” (em Português: “Cinderela em Paris”, outra tradução muito criativa), um filme que agradou particularmente à actriz pelo facto de poder dançar. “From ballet to be-bop”, como anunciava o trailer. Dançar era algo tão natural para Audrey, ela que quase abraçara a carreira de bailarina clássica e que fora recusada por ser demasiado alta. Também o facto de ter sofrido de subnutrição durante a Segunda Guerra Mundial impedira o seu físico de sonhar ser uma estrela do ballet. Mas ficou a disciplina férrea da modalidade, uns modos e um porte muito distintos e uns olhos que espelhavam bem a sua tenacidade.

Anos antes, Hollywood já tinha visto muita mulher bela e destemida, mas na altura a Europa estava em guerra e a femme fatale dera lugar à espia misteriosa ou à mulher emancipada que fazia pela vida. Trabalhava, viajava, tinha um passado. Bogart e Bacall são o expoente do par dessa época. Mas sempre a dois. Pelo menos aparentemente, a mulher no Cinema tinha de ter também um papel decorativo. Ou fingir que tinha.

Agora era diferente porque Audrey Hepburn vinha sem acompanhamento masculino, numa indústria dominada pelos homens como é o Cinema. Nos seus filmes, os homens estão lá, mas num mesmo plano. De certa forma, vencera num mundo difícil usando a sua feminilidade porque vivera tempos duros na infância e era uma sobrevivente. Agora era uma vencedora. Chegara ao Cinema com a Guerra Fria e com Givenchy criara um look para os próximos 50 anos. 50 anos? 70, 90…

Anos mais tarde, entre 1988 e 1993, há-de ser a Embaixadora para a boa vontade da UNICEF. Falava com conhecimento de causa, sabia o que era ser criança e ter fome. Ela sabia, sim. Tinha tido uma infância que oscilara entre ser uma menina aristocrata e viver o mal nazi por dentro, em Amesterdão.

Foi até ao fim da vida considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo. E era.



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