BASE

Nova revista de criação literária. Querem conhecê-la?

Com o objectivo de promover e incentivar a criação literária (e não só), a BASE surgiu recentemente no mercado para preencher uma lacuna que há muito se encontrava vazia. A ideia é simples: duas vezes por ano é editado um “compêndio” de trabalhos inéditos (ficção, poesia e outras formas de expressão criativa), de diferentes autores, que têm por mote um mesmo tema.

No primeiro número da BASE, foram os “Erros” que serviram de reflexão para catorze autores, conhecidos ou não, deixarem a sua contribuição impressa e registada. José Eduardo Agualusa escreve sobre «Um corpo estranho em Luanda», Ana Pessoa entra num quadro para um «Primeiro estudo para retratos femininos», Mário Rui de Oliveira abraça a arte do poeta em «Ramos de solidão» e muitos outros convidados completam as 192 páginas desta interessante primeira edição da BASE.

Esta publicação faz parte de um projecto mais abrangente na área da divulgação cultural, a Base pt, Associação Cultural da qual também faz parte a Base Recordings que tem editado algumas compilações em parceria com a Fonoteca Municipal de Lisboa.

A rua de baixo colocou algumas perguntas à directora da revista BASE, Susana Moreira Marques, que nos ajudou a compreender melhor a filosofia desta publicação, bem como aquilo que gostava que acontecesse no futuro próximo.

Rua de baixo: Como e quando surgiu a ideia desta publicação?

Susana Moreira Marques: Depois de três ou quatro anos a amadurecer a ideia, finalmente há um ano sentimos que estava na altura de avançar. Quando a Ana Costa Franco e o Paulo Romão Brás fundaram a Base pt, a grande vontade da Ana Costa Franco era fazer uma revista, inicialmente, de contos. Eu entrei para a Associação nessa fase inicial e, em conjunto, fomos desenvolvendo a ideia da revista até chegarmos a este formato e decisões espelhadas na Base 01.

Rdb: Foi difícil arranjar os apoios necessários para criar este projecto?

SMM: Não foi nada fácil, e acho que a sorte esteve connosco. Em Portugal tem-se muito medo de arriscar. De algumas instituições a resposta era “esperamos para ver o número 01”, de outras, nem sequer tínhamos resposta. Não havia nenhum objecto para mostrar e nenhum de nós tinha um currículo que impressionasse. Felizmente, a Câmara Municipal de Lisboa acreditou em nós e deu um apoio crucial para a existência do número de estreia, assegurando o serviço de impressão.

Rdb: Qual é a vossa principal motivação?

SMM: Contribuir para a vitalidade da edição e criação literária em Portugal.
Uma revista literária como a Base fornece um modo de ler muito diferente de um livro. Fizemos a revista à imagem de uma publicação que gostaríamos de ver, comprar e ler em Portugal. A Base é uma revista que se guarda como um livro, mas que pode ser lida como uma revista. Gostaríamos que a Base mostre o que de novo se vai escrevendo por cá.
A revista existe como um desafio aos autores – criarem a partir de um tema – e aos leitores – lerem textos que não podem ser lidos em mais sítio nenhum, inéditos, e descobrirem novos autores. É essa uma das nossas grandes motivações – descobrir e divulgar novos talentos.

Rdb: Qual tem sido o feedback das pessoas? O preço (8€) não é um pouco elevado para a bolsa da maioria dos portugueses?

SMM: Temos tido muito boas reacções à revista, tanto da parte da Comunicação Social como do público em geral, o que é um incentivo para continuar a trabalhar com energia neste projecto. Até agora, temos tido bastantes elogios no que toca à escolha editorial e também ao aspecto gráfico. Toda a gente gosta muito do formato – um livro, A5, fácil de transportar.
Tendo em conta o preço das outras revistas literárias em Portugal, a Base é barata. Estamos a falar de um livro de 192 páginas, no caso do número 01, e com imagens a cores, portanto um produto que sai caro. Vender a Base mais barata que isso seria inviabilizar qualquer hipótese de que as vendas possam ajudar na manutenção e produção de outros números e mesmo com este preço, é impossível conseguir fazer outro número só com o dinheiro das vendas. Vamos continuar a precisar de apoios. Mas optamos por 8 euros por ser uma quantia que torna a revista bastante acessível, porque queremos que seja, de facto, comprada e lida.

Rdb: Qual é o vosso critério na escolha dos escritores convidados?

SMM: Cada número da Base tem um tema diferente e, para escrever inspirado nesse tema, convidamos diversos autores. Tentamos um equilíbrio entre prosa e poesia e autores conhecidos e novos talentos. E apostamos também em autores que não são portugueses, mas do mundo de língua portuguesa.
A escolha dos autores é sempre subjectiva – convidamos autores de que gostamos e tentamos que a selecção seja eclética em termos de estilo.
Em relação aos novos autores, procuramos escritores que nos parecem promissores, ainda que por agora tenham pouca obra publicada ou mesmo nenhuma, e esse trabalho de pesquisa de novas escritas é muito estimulante. Estamos também muito atentos ao trabalho de escrita desenvolvida noutras áreas que não a literatura, como o jornalismo ou a música. Textos diferentes, impregnados de métodos criativos distintos, podem surgir de pessoas que não são escritoras, mas que se destacam em noutras zonas culturais. Por exemplo, no caso do primeiro número convidámos a jornalista Alexandra Lucas Coelho, o que foi uma excelente aposta.
“Last but not the least”, o importante é sempre a qualidade.

Rdb: Qualquer pessoa pode escrever para a BASE?

SMM: Aceitamos propostas de colaboração de qualquer pessoa e a escolha depende, claro, da qualidade e do nosso interesse em determinado tipo de textos, porque dizer que é bom ou mau não é nunca um absoluto, mas uma avaliação muito subjectiva. A ideia é sempre convidar autores a trabalhar criativamente para a Base e não seleccionar textos que nos enviem. Mas claro que é essencial para nós estar sempre a descobrir autores e portanto, muito valioso qualquer contacto de escritores interessados em colaborar. Às pessoas que propõem colaborar, pedimos que enviem textos que considerem representativos da sua escrita. A partir do conhecimento do trabalho de qualquer autor, decidimos ou não convidá-lo a escrever para algum número da Base.

Rdb: Existe uma procura em dividir a revista entre prosa e poesia?

SMM: Para cada número, vamos convidar ficcionistas e poetas e procurar um equilíbrio entre estes dois géneros, habitualmente separados, e que na Base conseguimos juntar.

Rdb: Planos para o futuro? Qual e o tema da próxima revista?

SMM: O tema da próxima revista é PROTECT ME FROM WHAT I WANT, um mote cheio de força, muito íntimo por um lado, e por outro, público, porque familiar para muitas pessoas, sendo uma frase dos anos 80 da artista norte-americana Jenny Holzer. Para trabalhar esse tema, estamos neste momento a convidar diversos autores, procurando sempre originalidade, qualidade e um equilíbrio entre estilos diversos. Para o futuro, gostaríamos de abrir a BASE a outras línguas, sendo a primeira perspectiva publicar autores espanhóis. Mas é ainda muito cedo para falar disso. Estamos a começar, mas há que continuar a pensar para a frente e a acreditar que a Base pode crescer.

Depois do lançamento em Lisboa no mês de Junho, a base chega também à cidade invicta. A sessão de apresentação decorre no Maus Hábitos, dia 6 de Julho às 22 horas e vai contar com a presença de Marco D’Almeida e Susana Menezes que vão ler excertos dos textos, acompanhados por desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves.



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