bia_maria_01

Bia Maria | Entrevista

A Rua de Baixo esteve à conversa com Bia Maria, que lançou, em Novembro de 2024, o seu mais recente trabalho artístico “Qualquer Um Pode Cantar”.

“Qualquer Um Pode Cantar” é o título deste novo álbum da cantautora Bia Maria. O caminho que a artista tem palmeado revela-se meigo, gracioso, honesto e convicto. Estas dez canções são um corpo presente, consciente e preciso que vamos escutando como quem é amparado pelo colo mais saboroso do mundo. É um disco que da introspecção se tornou casa comum, e a partir do qual podemos dar azo às nossas inquietações e vontades. “Qualquer Um Pode Cantar” é um belo poema compassado, em que as palavras são sinónimo de quase cura. 

Está disponível nas várias plataformas digitais. A artista conta com vários concertos marcados para este início de ano, sendo o próximo já no dia 25 de Janeiro, em Palmela (Microsons). 

Obrigada, Bia Maria. Obrigada por este “Qualquer Um Pode Cantar”. Quem te ouve e quem te sente sabe que pode fazê-lo com a leveza que um «Lenço de Papel» envolve – e que é tanta, mas tanta. 

Boas escutas!

Rua de Baixo (RDB): Como tem evoluído a tua presença artística e a tua música desde 2019 até agora? De que forma distingues, se é que o fazes, a Bia Maria dos EPs da Bia Maria para este álbum, “Qualquer Um Pode Cantar”?
Bia Maria: Eu diria que a Bia Maria deste álbum é alguém que já leva mais a sério o que está a fazer, tem mais consciência. Estou aqui, cheguei até aqui e é isto o que eu quero fazer. O gosto por escrever foi crescendo, da mesma forma que o gosto por tocar, por cantar também foram aumentando em mim; e, dessa forma, pude conciliar essa vontade crescente com uma maior seriedade. E eu diria que há essa diferença desde 2019 até agora. 

RDB: Qual(ais) o(s) principal(ais) desafio(s) nestes cinco anos? 
Bia Maria: Um desafio muito grande para mim, enquanto pelo menos artista independente, é pensar que a minha arte tem de ser sustentável… e como é que posso gerir os recursos e conseguir apoios… E de repente eu vou escrevendo, e já tenho outro álbum feito, mas é preciso muita perseverança, pois por mais que eu queira fazer, é preciso muito para que isso se concretize materialmente. São processos demorados, e isso é um grande desafio. 

RDB: Como é o teu processo de escrita de canções?
Bia Maria: O processo de escrita, na verdade, é muito natural. Eu gosto de ter uma certa disciplina de escrita e gosto de me sentar e tentar escrever um pouco todos os dias. Às vezes não é possível, mas até nesses momentos surgem coisas que acabo por gostar. Venho do trabalho, aproveito um fim-de-semana, chego ao estúdio e pego numa guitarra, exploro um instrumento novo e começam a surgir ideias e letras e coisas por onde caminhar.

RDB: Como foi o processo de produção e gravação do “Qualquer Um Pode Cantar”? Como foi trabalhar com os vários coros, as várias vozes, por exemplo?
Bia Maria: Foi, acima de tudo, um processo demorado. São muitas pessoas, muitas temáticas diferentes e então foi sendo gravado ao longo do tempo. O importante é que há sempre forma de fazer acontecer e o processo, apesar de longo, também foi super tranquilo – as pessoas deixaram-se envolver pelo processo muito bem… Acho que o processo foi como tinha de ser, tivemos tempo para refletir sobre cada canção e sobre aquilo que precisávamos para cada uma delas, quase que de uma forma hierárquica. Era importante também não perder tempo e saber aquilo que íamos gravando e, para além disso, fomos ajustando os recursos disponíveis para agilizar o processo.

RDB: Que mensagem, que sensações queres transmitir através da tua música e, particularmente, através deste álbum? Como descreves este “Qualquer Um Pode Cantar”?
Bia Maria: Eu acho que é um álbum de muitas vozes. Acho que celebra a voz, tanto a nossa voz individual, mas também a nossa voz enquanto conjunto de pessoas e acho que o que ele tenta transmitir é um bocadinho isso. Todos nós temos a possibilidade de fazer qualquer coisa que gostamos e que nos é importante, então é meio que também uma mensagem de perseverança e de força nesse sentido – para quem se calhar já ouviu muitos nãos, para quem acha que não pode ou não consegue ou não tem maneira de fazer algo, seja escrever, seja pintar, seja cantar, seja dançar ou outra coisa qualquer… nós temos uma linguagem e através da exploração dessa mesma linguagem é que vamos chegar realmente a qualquer lado, acho que é por aí. 

RDB: Ao pensar na capa do “Qualquer Um Pode Cantar”, consigo distingui-la e identificá-la como um todo através do traço desenhado, através do abstrato que se torna concreto… acima de tudo, é feita de pessoas… Este álbum é um encontro entre ti o mundo à tua volta? De que forma é que se processa este encontro?
Bia Maria: É muito um álbum de tudo aquilo que é exterior a mim e que tem influência em mim e na minha vida, nas minhas experiências e no meu viver. Eu vou vivenciando coisas, vou reparando, reflectindo sobre certos acontecimentos, lugares, pessoas… e vou discernindo e escrevendo sobre o impacto que isso tem em mim. Depois há o outro lado muito comunitário, o viver em comunidade, e que é uma parte essencial na minha vida. Daí também escolher viver em Ourém, onde o sentido de comunidade está muito presente.

RDB: Acho muito bela a forma como tu começas e fechas o álbum, como se houvesse um ciclo (muito bonito que se perpetua). Começas e terminas a cappella e depois há tantas vozes que se misturam… como é que se concilia isso, essa partilha simbiótica? 

Bia Maria: Acho que o álbum pode despertar algumas vontades, algumas inquietações, alguns desejos e/ou outras coisas nas quais as pessoas se calhar já estavam a borbulhar. Sempre escrevi o álbum numa perspectiva muito pessoal, de dentro para fora; acho também que há pessoas que se identificam com o que escrevo e canto, da mesma forma que se calhar há outras que não se vão identificar logo automaticamente e isso também é giro de ver. 

RDB: Como descreverias a tua música para alguém que nunca a tenha ouvido?
Bia Maria: Eu gosto muito pouco de cair nos rótulos da música, sabes; ainda por cima, hoje em dia, a música tem tantas ramificações… é tanta coisa, nós somos influenciados por tanta coisa e temos backgrounds gigantes de influências musicais diferentes – então acho que, cada vez mais, a música é uma mistura imensa e eu na verdade também não sei muito bem definir a minha, às vezes… não sei bem o que é, ou a que é que vai soar nos ouvidos das outras pessoas, ou o que é que vão reconhecer nela… eu reconheço muitas influências em mim, na minha música, isso sim… influências de música tradicional, também de música pop, indie, de música mais religiosa, de música que se centra muito na palavra… 

RDB: Queres partilhar alguma história por detrás de alguma música do “Qualquer Um Pode Cantar”?
Bia Maria: Eu acho que todas elas foram acontecendo assim muito naturalmente, mas a «Para o Joaquim» foi a que surgiu mais da epifania, talvez. Eu estava em Sagres, e estava maravilhada com a beleza do local, na ponta do cabo, a olhar o mar e a terra – senti que era muito pequenina comparado com o que estava a ver e a sentir. O mundo é tanta coisa e entrei ali num estado de reflexão e de gratidão ao mesmo tempo, e dei por mim a pensar que às vezes somos tão estúpidos por estarmos a dar cabo desta grandiosidade que é o planeta terra, que é este lugar onde vivemos, e a pensar que as outras pessoas que vão chegar depois de nós se calhar já não vão ter tanta possibilidade de experienciar esta grandiosidade porque estamos a destruir tudo. E eu lembro-me de estar a pensar sobre isto tudo e de me surgir a «Para o Joaquim» mesmo ali, de repente. 

RDB: Queres partilhar algum verso de uma das canções deste novo álbum e falar um pouco sobre ele e sobre o te impele a falar sobre ele?
Bia Maria: Eu acho que há muitos versos que me foram dizendo muitas coisas ao longo do tempo e que eram assim importantes para mim e para o álbum. Houve um que inicialmente foi o que deu mote ao álbum e que eu percebi que queria falar sobre isso e que o álbum também era muito sobre isso… no fundo, é uma quadra – “só que nós não somos santos / nem se quer existe altar / boas vozes, somos tantos / qualquer um pode cantar”. Nós passamos muito tempo a colocar as pessoas em pedestais, e a colocarmo-nos a nós próprios em pedestais; a achar que temos que subir na vida, e conquistar coisas, e títulos, e lugares… eu acho que a vida, no fundo, não é sobre isso… nós todos temos esta condição de falha, não somos perfeitos… eu gosto muito da ideia de viver em comunidade quase horizontal em que, apesar de haver algumas diferenças no trabalho que todos temos, acho que essa humildade seria necessária e traria um bocadinho mais de paz ao mundo… 

RDB: Álbuns ou músicas que alimentaram a forma como tu vês a música no seu todo?
Bia Maria: Muita coisa, muita coisa ao longo do tempo… temos muitas fases e a vida vai acontecendo… Mas imagina, há muita música portuguesa que me tem influenciado… José Mário Branco e Zeca Afonso desde logo, saltam sempre ao de cima… Joni Mitchell também tem sido uma grande influência para mim… vou ouvindo várias coisas, vou absorvendo de várias fontes que depois acabam por ser importantes para a minha música e que influenciam directa ou indirectamente aquilo que escrevo. 

RDB: Como te sentes relativamente a 2025 e a este “Qualquer Um Pode Cantar”? 
Bia Maria: A perspectiva para este ano é tocar… já temos umas quantas datas marcadas. É isso, tenho mesmo muita vontade de ir por aí a tocar e a cantar, a trabalhar com coros diferentes, a conhecer pessoas novas… E tudo isto acaba por ser uma grande inspiração para eu ir escrevendo e vivendo… E entretanto também já estou a acabar outro álbum, mas com calma. Tenho vontade de me cruzar com outros artistas também.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This