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Blancanieves

Um dos nomes mais importantes do cinema espanhol em discurso directo

Sevilla tiene un color especial, não é a melhor definição para “Blancanieves” de Pablo Berger, uma versão do conto dos irmãos Grimm, que apresenta uma Sevilha dos anos vinte, a preto-e-branco, sem diálogos e em formato 35mm. Um filme repleto de olés em voz off, arte, tourada, pasodobles, flamenco e sete anões que em tudo se parecem ao esquadrão de anões espanhóis de “O Silêncio” (1963) do sueco Ingmar Bergman.

Também se pode salientar que “Blancanieves” estava em produção e tinha já intenções muito antes do filme “The Artist”, por isso não houve qualquer imitação, como seria de supor. O filme está nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro, ao lado de “Sangue do Meu Sangue” de João Canijo. Para além disso foi nomeado no Festival de San Sebastián e venceu em Portugal o prémio do Público FNAC no Cine Fiesta.

Em relação ao argumento, o conto da “Branca de Neve e os Sete Anões” é bem conhecido. Conhecido de tal forma que já nem se pode bem com ele, mas Pablo Berger deu-lhe outro toque pessoal e andaluz. Um toque talvez insuficiente, pois parece que se manteve na superficialidade e no óbvio. Uma Sevilha estereotipada salta à vista, de imagens tão limpas e imaculadas, que por vezes parece um filme publicitário de turismo. Com isto não tento retirar os méritos ao filme, porque os tem, e sim, é um filme cheio de beleza estética; Kiko de la Rica, aposta numa fotografia actual com graves contrastes e brilhos.

O ritmo da narração mantém-se constante com poucas surpresas, já que o realizador não foge por aí além ao que estava escrito, o expressionismo dos rostos e das bocas está sempre em primeiro plano, derivado da aposta no cinema mudo.

A actriz Ángela Molina faz parte do elenco, embora com um papel secundário. Representa a Doña Concha, a avó de Carmen, que é a Blancanieves, e fá-lo como ela sabe, com arte.

Ángela recebeu a RDB para uma entrevista pessoal, disposta a falar um pouco dos seus quarenta anos de cinema, da sua participação em mais de cem filmes, e não só. Revelou ao longo da entrevista uma personalidade incrivelmente amável, cúmplice e inspiradora. Trabalhou com grandes realizadores mundiais, é vista como um ícone em Espanha. Ainda assim, é uma actriz acessível e pragmática.

Ángela, há 20 anos que não vinhas a Portugal, sentes mudanças no País e nos portugueses?

Só cheguei há um dia, há poucas horas que aqui estou por isso pouco ou nada mudou para mim, parece que estive aqui ontem. É natural que culturalmente a sociedade tenha mudado ao longo deste tempo. Sabemos como está a sociedade espanhola e a portuguesa, sabemos os problemas que temos, sabemos os problemas internos que existem, sabemos o que temos que superar e que a conexão entre todos é fundamental, tal como a honestidade, a honra e o respeito. O que me preenche ao estar aqui são as pessoas, sinto que são cálidas e próximas, como senti quando aqui estive da última vez e desfruto imenso com isso.

Os espanhóis contam com fama de serem um povo muito alegre e espalhafatoso, já o português é associado a um povo triste e melancólico. É isso verdade ou é apenas um mito?

Acho que o povo português não é triste, é romântico, e eu considero-me uma romântica também. Em nada considero que este povo tenha uma áurea triste. Sinto inclusive que transmite sinceridade, talvez acompanhada de uma ingenuidade diferente, possui uma beleza característica, absolutamente complementária e peculiar.

Contas já com mais de uma centena de filmes no teu currículo. Isso no mínimo é fantástico, é simplesmente de admirar e louvar. Como vês a situação?

Não olho para trás, tenho os olhos no futuro, o passado está em mim, é o que sou hoje. Quando, por vezes, as pessoas me trazem partes e alusões ao meu passado é um privilégio, uma alegria, emociona-me, preenche-me e motiva-me para continuar o meu trabalho.

Iniciaste-te no mundo cinematográfico com Luis Buñuel e Manuel Gutiérrez, que recordações guardas dessa época?

Todas. Tenho muito boa memória, recordo-me tão bem desses tempos, tal como quando estive em Lisboa há 20 anos. Os primeiros filmes que fiz são inesquecíveis para mim, são recordações muito fortes e que estão gravadas para sempre. Tem uma intensidade similar aos primeiros filmes que viste na vida.

Há algum filme em que tenhas participado que gostasses de destacar?

Não posso destacar, sinto o meu trabalho como um todo. Adoro todos os filmes que fiz e guardo-os muito dentro do meu íntimo. É uma unidade que está formada por imensas partes, é isso a vida de uma pessoa. Mas, para exemplificar, Luís Buñuel encarregou-se que o meu trabalho começasse a fluir pela Europa e pelo mundo, ele é dono dum cinema sem fronteiras e isso complementou-me consequentemente, como é o caso de outros realizadores e outros filmes que me formaram, cada um tem a sua essência e o seu significado, todos são necessários e todos importantes.

Participaste em “Carne Trémula” e “Abrazos Partidos” de Pedro Almodóvar, em Portugal talvez seja o cineasta espanhol mais conhecido entre o público. Como vês o trabalho deste realizador?

É um cineasta muito próximo do público internacional. Tem o seu modo particular de exprimir-se e trabalhar. Diverti-me com ele, aliás porque também é da minha geração, uma pessoa muito próxima e por quem nutro imensa consideração. É um homem muito valente que agora nos vai surpreender com uma comédia que em breve estará em exibição. Creio que será especial retornar a ver esse espírito tão divertido e lúdico cheio de inspiração, que marcou as suas primeiras obras e estará presente nesta; depois de toda a experiência que ele já tem será interessante.

Um filme que te marcou

Lembro-me de imensos, todos, eu amo o cinema, mas posso mencionar o “Noites de Circo” e o “A Fonte da Donzela” de Bergman. Depois disso lembro-me também de outros grandes cineastas que me marcaram muito, especialmente todo o cinema de Buñuel, de Truffaut e o oriental. O cinema do mundo é a nossa cultura, isso fascina-me como a uma criança, guia-me, orienta-me e reorienta-me, ensina-me, constitui-me e faz-me reflectir. O cinema é uma compilação de artes humanas, das mais variadíssimas, é a consagração do que o ser humano está a fazer em função da sua existência.

“Blancanieves” é o teu último filme, mudo, a preto-e-branco, com Toureiros e Touros

Até nisso é um filme mágico, trata a tauromaquia como uma arte. É algo que sempre existiu assim e no filme está reflectido como tal. É uma vocação como outra, um toureiro sente que nasceu para tourear, da mesma forma que outros têm a vocação para serem actores, pintores ou padeiros.

Achas que a tauromaquia tem os dias contados? Com as leis a favor dos direitos dos animas que se têm imposto nos últimos anos, parece já possível.

Não acho. Não creio que a tauromaquia esteja com os dias contados, não vai morrer enquanto haja toureiros. As leis são criadas pelo homem, por isso, enquanto existirem homens dispostos a pôr a sua alma na arena e considerarem essa a sua arte de viver, as faenas continuarão.

Conheces bem o cinema português?

Gostaria de trabalhar mais e conhecer melhor os realizadores portugueses da actualidade.

O cinema português enfrenta uma fase complicada

Não estamos a viver uma fase fácil a nível de produção, porém muitos cineastas jovens estão a introduzir-se noutros países, de forma a conseguir fazer o seu trabalho, e pouco a pouco estão a consegui-lo. Hoje, o cinema liga-se muito mais com a sociedade, é cada vez mais valorizado.

Se tivesses que ir embora de Espanha por qualquer motivo, para que País irias?

Para qualquer lugar que vá sinto-me bem. Já vivi em vários sítios diferentes e adorei. Custa-me escolher. Onde vou sinto que vivo, a minha imaginação não tem limites, sou feliz onde estou ou não, sou e estou, o que importa é com as pessoas com quem estou no momento. Claro que há países que têm uma maior vivacidade e afinidade comigo, nos restantes mesmo que isso não aconteça sou capaz de ser feliz.

Fazer cinema sem dinheiro é possível?

Tem que se inventar, está-se a reinventar uma nova forma de fazer cinema. Arranjar hoje outras metodologias torna-se essencial. O ser humano vive em constante adaptação e é isso que nos permite seguir em frente.

Pensas continuar presente na fábrica dos sonhos?

Há 40 anos que a minha vida é o cinema e continuará a sê-lo no futuro, adoro o meu trabalho.

Depois de mais de 100 papéis representados, são muitas personagens vividas e sentidas, embora o cinema não seja oficialmente a realidade, ambos coexistem no tempo e no espaço. Ao longo dos anos ganhaste experiência nos palcos da vida. Que conselho darias ao mundo?

Eu ao mundo e o mundo a mim. Eu acho que o mundo é o Ser Humano que o faz. O amor e a solidariedade são sentimentos que nos trazem de volta ao verdadeiro significado do que somos.



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