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Bonnie “Prince” Billy & The Cairo Gang

O Oeste irreal.

Sociedade de Geografia de Lisboa, 5 de Junho de 2010

Who are you?, canta Susanna Wallumrød ao início, sozinha em palco. Will Oldham abre uma das portas laterais da envidraçada sala (que não parecem portas quando fechadas, o que torna a sua aparição mais espantosa) e contempla-a uns minutos parado como que a responder a um chamamento. Vemo-lo de costas, reconhecemo-lo pela careca, pelas roupas extravagantes (a camisa azul, as calças laranjas), mas Will Oldham volta para dentro sem que lhe vejamos a cara e a pergunta fica mais uma vez sem resposta.

Pouco mais tarde, Bonnie “Prince” Billy, a personagem, sobe ao palco com Emmett Kelly (os Cairo Gang) juntando-se a Susanna – que  perdeu a sua orquestra mágica para ganhar outra. A primeira parte não foi bem uma primeira parte, foi um começo – Susanna tocou ao piano e cantou três das suas músicas etéreas e evanescentes sozinha, mas à quarta já a voz de Bonnie combinava com a dela e a guitarra de Emmett acompanhava.

Estava dado o mote para o resto da noite: nunca foi só um concerto a solo de Bonnie “Prince” Billy, as composições de Susanna (que perderam em electrónica suave, o que ganharam em cor e textura de madeira) continuaram a ter lugar e a relevância tanto da sua presença como da de Emmett Kelly dificilmente poderá ser posta em causa. Bonnie era a principal atracção – sempre mais irrequieto, dado a alguns saltos de rã – no entanto tivemos direito a três músicos extraordinários preguiçando num alpendre imaginado a saborear uma tarde de Verão: cantando e tocando a música uns dos outros sem pressas, brincando por vezes, como se o tempo fosse inesgotável, parando, admirando o talento dos outros. Houve harmonias vocais quase abstractas sobre instrumentação esparsa: ora era a guitarra, ora era o piano, ora era Bonnie que sacava da escaleta, mas os sons não se amontoavam.

Contudo, como em tudo, havia representação. No palco (a que a arquitectura da sala, a sua vetustade davam ares de teatral) os três actores fingiam ser velhos vultos do Oeste empoeirado (ainda mais a norueguesa Susanna cuja voz Bonnie descobriu numa loja de música em Portugal, o que lhe mudou a vida, diz) numa gravação radiofónica emitida a partir da casa de um deles, e nós, o público, os amigos que se sentam à volta deles para que tenham alguém para quem actuar. As canções, essas, estenderam-se na paisagem americana, o começo indiferenciado de um afinar de guitarra, o final quase imperceptível – houve sempre uma pausa entre o fim de cada canção e as palmas do público, como que da necessidade de acordar daquele conforto.

O nevoeiro sobre a identidade de Will Oldham adensa-se, embora já se lhe veja a cara. As canções falam de um amor perdido, de amores perdidos (serão sempre sobre a mesma pessoa ou serão sobre o amor perdido de cada das personagens que Will Oldham constrói para cada canção?), de oportunidades falhadas, de derrotas, como se algo as amaldiçoasse. Sonha-se que Bonnie “Prince” Billy é uma personagem póstuma, uma fotografia daquelas que se tiravam aos mortos, vestidos e sentados, para a posteridade, Will Oldham é o fantasma que assola Bonnie “Prince” Billy e as suas canções, ou é um dos fantasmas, que há outras vozes que se ouvem e não são dali.

Antes do encore a banda lança-se a «Without You». Provoca risos, o público pensa que é uma anedota, de certo lembrado da versão de Mariah Carey. Mas não é. É uma canção funesta, o refrão fala de alguém que não consegue viver sem outra pessoa, aquela pessoa. Os fantasmas outra vez. Os fantasmas de Pete Ham e Tom Evans, a dupla de compositores da canção, que fazia parte da banda galesa Badfinger, ambos suicidas. Tom quando foi disse que queria juntar-se a Pete num mundo melhor. Não podia viver sem ele. A morte ronda por aqui.

Bonnie “Prince” Billy, Susanna Wallumrød e Emmett Kelly no encore deixam a tecnologia para trás e cantam e tocam sem amplificação (Bonnie aproveita para fazer umas quantas piscinas, já cansado de estar sentado no mesmo sítio). A acústica da belíssima sala permite-o, o que a forma da dita nunca permitiu foi que todo o público pudesse ver o concerto em condições ou que a fotógrafa da Rua de Baixo pudesse fazer bem o seu trabalho. Custa estar sempre a cascar na promotora que traz os artistas mais interessantes a Portugal, mas que não se façam coisas às três pancadas; lá porque a Sociedade de Geografia de Lisboa é um local bonito pode não ser acertado para casa de espectáculos. Não assim.

A máscara de Bonnie “Prince” Billy nunca caiu. Continuamos sem saber quem é Will Oldham. Para quê estragar o mistério?



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