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Brel nos Açores

A passagem de Jacques Brel pelos Açores serviu de mote para o espectáculo. Conversa com o autor, Nuno Costa Santos e com o "narrador" Dinarte Branco.

De uma grande paixão por Jacques Brel e uma necessidade de contar um episódio interessante que nos mostrasse a parte mais humana do mesmo, Nuno Costa Santos criou o espectáculo Brel nos Açores (que esteve em cena no Teatro S.Luiz) . Serve-se do acontecimento de 1974, aquando da paragem e permanência de Brel nos Açores, por motivos de doença, e o seu irreconhecimento entre os habitantes. Através de um incidente motivado por uma forte gripe (que mais adiante, se iria revelar significante na sua morte prematura, por um tumor no pulmão), e do seu encontro com o médico Luís Carlos Decq Mota que desconhecendo-o, torna-se seu amigo, desenvolve-se um espectáculo, que paralelamente, homenageia a figura do artista belga e os Açores, e aborda temas universais acerca da génese humana, das suas fragilidades e (des)contentamentos.

Em estilo de improviso, o actor Dinarte Branco principia o espectáculo em forma de cumplicidade com o seu público, “embarcando-o” no desenrolar dos acontecimentos relacionados com aquela história singela, num cenário minimalista, onde intercaladamente, se ouvem músicas ou se vêm vídeos expostos na vela desfraldada em cena.

Nuno Costa Santos, criativo, guionista e escritor, assegura que a sua autoria, poderia quase ser assinada em co-autoria, com aquele que decidiu dar a função de narrador da sua história em palco, Dinarte Branco. Depois de terem trabalhado juntos nas primeiras “Urgências” (projecto que inseriu um espectáculo escrito por Nuno Costa Santos e representado por Dinarte Branco, no Teatro Maria Matos, em 2004) desenvolvem esta criação, que na voz do autor, “veio ter, alguma coisa, a ver com isto. Coisa que não foi programada. Se calhar tem a ver com a nossa vocação.” Apesar de o autor ainda referir que o espectáculo não foi pensando para integrar a programação “Açores, Região Europeia 2010”, mas, pelo contrário, proposto ao Teatro Micaelense, percebe-se a razão de ser inserido à posteriori pelos responsáveis da iniciativa comemorativa: o espectáculo celebra uma importante personalidade europeia e a sua ligação íntima com a região autónoma (no sentido de viver em liberdade e em independência) dos Açores.

Em conversa com a RDB, estes dois elementos, que também integram conjuntamente a direcção artística do espectáculo, confidenciam-nos alguns aspectos relativos à criação e composição de Brel nos Açores.

Rua de Baixo – Como é realizada a escolha de Jacques Brel para a criação do espectáculo?

Nuno Costa Santos – O espectáculo surge, primeiro, de uma paixão grande pelo Jacques Brel e da sua música, que vem de vários anos. No meu caso, começou com uma audição das bobines que o meu pai tinha e uns cartuchos que haviam nos carros, anteriores aos leitores de cassetes. Depois comecei-me a interessar pelos CDs, comprei uma caixa de DVDs… E depois da paixão por Jacques Brel, saber de uma boa história.

Soube da passagem dele pelos Açores, através de um amigo, há cerca de dois anos e houve um clique qualquer.

Eu sou açoriano mas mesmo que não o fosse, interessar-me-ia por esta história, porque é uma boa história, que merece ser contada.

Fomos caminhados para a ideia de ser um monólogo e chegámos à conversa com o Dinarte, que também era um apaixonado pelo Brel.

Foi depois de muito diálogo, muita afinação, depois de muito corte e cola (que não acabou porque às vezes até uma pequena frase ainda precisa de ser limada), é que o espectáculo foi construído. Aqui há um trabalho de equipa muito grande, em grande sintonia. Portanto, este projecto, nos moldes em que está feito, era muito difícil de se fazer com outra pessoa que não o Dinarte. Depois há outros elementos fundamentais, os de sonoplastia, na parte dos vídeos e do cenário.

Dinarte Branco – Já há uns anos, eu andava com uma ideia de fazer uma espécie de formato em que usava as letras traduzidas para português. Não era sobre Jacques Brel, mas ele estava lá. Pegar em histórias do Tom Waits, Jacques Brel, Serge Gainsbourg, …, traduzir para português e fazer um grande poema. E depois acrescentar uns elementos de sonoplastia. Ou seja, acabou por se realizar, mas só com Jacques Brel. O que é óptimo, porque se calhar assim, é ainda mais fulcral. Em vez de um cocktail, é só um autor; penso que isso resulta melhor.

Afirmas peremptoriamente que não ousarias interpretar Brel.

DB – Tenho um certo pudor quando lido com aquilo que ele escreveu. Sobretudo, não quero tentar fazer de Brel. Ou seja, não existe uma composição de uma personagem. Sou eu a dizer coisas que ele escreveu e a contar uma história, que foi a dele. Eu não iria querer ver ninguém a fazer de Brel, por isso sou incapaz de o fazer, por uma questão de ética, ou até bases filosóficas, se quiseres. É o actor Dinarte Branco que está em cima do palco.

Como é ter a sua figura como fonte de inspiração no processo criativo da representação?

DB – Brel como artista e como performer é uma pessoa que me diz muito e é fácil apaixonares-te por aquela figura; ele é capaz de congregar a minha motivação.

Desde há já alguns anos que tenho uma antologia das suas canções e já ouvia as suas músicas. Certamente as mais conhecidas, mas que estavam lá para mim. E esse livro acompanha-me. Quando estou mal de amores, procuro em alguns poetas a salvação: Brel é um deles.

Quando o Nuno me falou do projecto, não pensei duas vezes. Quando se está apaixonado, há um trabalho contínuo, de querer fazer e de querer dizer aquilo que se gosta. Pegávamos nas letras todas traduzidas e escolhíamos aquilo que gostávamos de dizer. Depois, fomos negociando aquilo que queríamos muito dizer e meter no texto. Foi uma mistura entre pegar no texto e nas letras traduzidas. Mas a base da tradução das canções, o Nuno descobriu no blogue de Sérgio Paixão.

Sérgio Paixão também está presente no texto do espectáculo, como seu grande admirador. Como é que se deu a sua descoberta e como participou no projecto?

NCS – Foi através da Blogolândia, pelo blogsearch. Tão romântico quanto isso. Foi a minha namorada que o encontrou, primeiramente. Entrei em contacto com ele, em Setembro/Outubro do ano passado. Ele foi simpatiquíssimo, muito generoso, foi um dos agentes fundamentais durante todo o processo. Nunca senti qualquer tipo de reticências. Talvez porque todos queiram celebrar Jacques Brel. O nosso objectivo não é jogar os nossos egos, mas sim celebrá-lo, para as novas gerações, que não o conhecem. (Ainda ontem, tivemos uma experiência de uma pessoa de vinte e tal anos que chegou aqui e assumiu que não conhecia praticamente nada de Jacques Brel. Ficou muito impressionada com o personagem e artista e ficou muita vontade de pesquisar)

Sérgio Paixão, na sua de generosidade, mandou um documentário que já tinha feito, especificamente sobre a história, que é uma parte do espectáculo. Não nos interessava muito fazer um catálogo das possibilidades artísticas dele. Queríamos captar o homem naquela altura, depois de ter deixado os palcos, quando quis dar uma volta ao mundo. Como é que ele pode ter-se confrontado com aquela natureza açoriana e como é que ele pode ter dialogado com ela.

Há uma frase muito marcante no espectáculo: “Açores, tão longe e tão perto”. Qual o papel desempenhado pelos Açores nesta peça?

NCS – Isto é uma homenagem aos lugares que têm a ver com os Açores, não só com os Açores.

DB – Por um lado, tem a ver com aquela ideia de refúgio, por outro, pode-se apanhar um avião a qualquer momento. Podes estar completamente isolado lá, mas também se tomares a decisão de te vires embora, metes-te num carro, vais até ao aeroporto e vens.

Se for para a minha terra querer isolar-me e estar sossegado, não consigo, é impossível. Isso preocupa-me.

Nos Açores já consigo, porque ninguém me conhece, não estabeleci relações. E eu preciso desse espaço.
Se calhar os Açores significaram para o Brel essa possibilidade de isolamento, de anonimato, comunhão com a natureza e com as coisas ainda num estado menos sofisticado, mais bruto, mais puro, mais olhos nos olhos, sem muitos filtros. Por isso ele ficou lá algum tempo. Depois foi acabar nas Marquesas que ficam no meio do Pacífico, um bocadinho mais distante (diz com sarcasmo). Os Açores foram uma espécie de ponto intermédio.

NCS – A Madly, a actriz com quem ele foi na viagem, chegou a escrever que o Brel e ela gostavam imenso dos Açores. Só não puderam ficar lá, porque estavam demasiado perto do “ruído” (um jornalista ou podia aparecer alguém que eles queriam evitar).

DB – Depois há esta contradição: nós, de facto, queremos o anonimato, mas depois quando não nos reconhecem ficamos “chateados”. Eu já me senti assim, mas lido bem com isso: prefiro não ser reconhecido. Também não sou nenhuma figura de mainstream, tenho um patamar intermédio. Mesmo tendo feito “Os Contemporâneos”, não sou o Nuno Lopes nem o Bruno Nogueira. Nem quero ter a mesma exposição que eles levam. O Nuno, por exemplo, não pode sair à rua com a namorada, que toda a gente fotografa e aparece no outro dia nas revistas. Comigo nunca aconteceu e ainda bem.

É importante para um artista e figura pública ter esse “porto de abrigo”?

DB – Ele era uma figura conhecida mundialmente que já arrastava multidões e tinha muita pressão dos jornalistas. Acho que sim, concordo perfeitamente com aquilo que ele fez. Decidiu parar, sair de Paris e dar a volta ao mundo. Deve ter chegado a um ponto de ruptura física, psicológica e artisticamente, um ponto em que pensa: “Eu já não consigo”.

Tenho exactamente a mesma idade que o Jacques Brel tinha quando decidiu parar: 38 anos. E tenho exactamente os mesmos anos de actor que ele tinha de cantor quando decidiu parar. Agora já tenho 16, ele aos 38, tinha 15. Penso nisso, que se calhar também deveria estar quieto agora porque também me sinto muito cansado. Não me quero comparar, de todo, com a vida que ele levava, nem com aquilo que ele tinha e era. Penso que todos temos de ter uma gestão racional: não podemos só ir sempre em frente. Podes ir, mas eventualmente, falir muito cedo ou se calhar repetires-te. É preciso alimentar o caldeirão da imaginação e dos afectos …

NCS – Este recuperar do Jacques Brel permite, justamente, o confronto com todas essas questões, mas não só para personalidades públicas, para toda a gente que venha com disponibilidade. O confronto com o “até que ponto estamos a viver a vida que queremos viver”, o viver autenticamente a ir ver aquilo que queremos ver, ele dizia “é importante ir ver, lá no sítio”. Eu acho que a reacção emocional que temos tido ao espectáculo, tem a ver com a possibilidade que, sobretudo, os textos e a forma como são interpretados pelo Dinarte, dão às pessoas de se confrontarem com os seus fantasmas e esperanças.

Desejam, assim, causar impacto no público através de alguma mensagem subliminar?

NCS – Não sei se queremos transmitir uma mensagem, propriamente. Nós queremos interpelar as pessoas. Isso é que não pomos de parte. O que eu acho interessante, é haver uma ideia de provocação, no sentido lato. Nós dizemos sempre que esta não é uma peça direitinha, toda acabadinha, que tem ruídos. Tem, justamente, a ver com a ideia de um “certo teatro”, com essa função de interpelação. Que o Dinarte já fez, mas falando com da nossa relação artística, tem também a ver com o momento das “Urgências”, que teve essa característica. Convocou as pessoas, ou por adesão ou oposição.

DB – Mais do que uma mensagem, eu gostava que as pessoas conhecessem o Jacques Brel. Depois daí, descubram as mensagens que estão inerentes. Conhecer, apresentar, voltar a falar dele – para quem já não ouviu falar dele há algum tempo, dar a perspectivar a figura que ele era, …

Como foi a vossa receptividade nos Açores?

NCS – As pessoas manifestaram-se em bloco, foi uma grande reacção, uma reacção emocional. Podemos interpretar a partir daquilo que as pessoas nos disseram. Isto tem a ver, sobretudo, com a recuperação da personagem “Brel”. Com o facto de se convocá-lo numa altura que se encontra quatro anos antes da morte, numa situação-limite. Por falar das questões que tocam a todos: desde a infância à velhice, ao amor, à amizade, à compaixão. Tudo de uma forma tão directa, tão crua. Com palavras tão certeiras. Tudo isto é o resultado de todo o nosso espectáculo: através da música, das imagens, da forma como o texto é dito. As pessoas também estavam com uma grande generosidade. Estavam ali para curtir.

DB – Quando perguntei às pessoas se elas conheciam o Jacques Brel, elas disseram que sim, com muita convicção. E a seguir, mais surpreendente ainda, quando se ouviu a música instrumental Les bonbons, as pessoas começaram a cantar. E aí, uau!, atalhei logo uma parte do texto em que eu o apresentava e fui directo ao assunto. Foi brutal! Não estava à espera. Não tinha considerado essa possibilidade sequer. Fui inocente, não sei.

Há carência deste tipo de espectáculos nos Açores?

NCS – Não. Então em Ponta Delgada tem passado muitas e muito boas coisas. As pessoas aderem. O que há carência, possivelmente, é de produção local, de criação. Espero que a esta peça, se sucedam outras. Já têm havido, mas penso que era importante fomentar mais.

Faz sentido comparar os Açores daquela altura com os Açores de agora?

NCS – Os Açores, ainda felizmente, são um sítio que tem muitas zonas que são parecidas com aquele Faial que nós relembramos aqui na peça. Há um lado bom em não estar permanentemente online com o mundo. Eu penso que hoje os Açores também têm esse lado, mas acrescentam o lado de possibilidades que as comunicações nos oferecem. Hoje em dia, uma pessoa pode estar nas Flores ou Corvo e receber uma encomenda da Amazon três dias depois, mas também pode estar afastada da Amazon.

DB – No Continente também há zonas assim. Mas mais do que isso, os Açores têm características geológicas e biológicas muito fortes. Não é um sítio igual aos outros. Quando se vai lá, sente-se isso logo na pele. Há um estado de espírito e um magnetismo que nos afecta, sem nós nos apercebermos.

NCS – Acho que se sentiu isso mesmo no grupo que fez o projecto. Nós somos diferentes nos Açores e cá. Eu noto diferenças nas personalidades: há certas pessoas que são mais tensas em Lisboa do que eram nos Açores. Isto tem a ver com o magnetismo e com a energia natural que relaxa possivelmente as mentes.



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