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Bushfire 2011

A RDB já chegou à Swazilândia. Estivemos num dos maiores acontecimentos musicais da África Austral. Preparados para uma viagem bem ao estilo swazi?

Zero graus e mesmo assim a Swazilândia ardeu no último fim-de-semana de Maio. Felizmente, sem feridos graves, lesões ou outros incidentes chatos a registar. Pelo contrário. O responsável de tamanha azáfama foi o festival local de música e artes, o Bushfire. Curioso? Então vai descendo o scroll e prepara-te para esta viagem de mais de 8300 quilómetros em linha recta até um dos países mais pequenos da gigante África.

Muito prazer, sou o Bushfire

O Bushfire é um dos maiores acontecimentos musicais da África Austral e o maior da Swazilândia, o qual atrai anualmente mais de 20 mil pessoas. Swazi quê? Boa questão. Swazilândia. Terra do povo Swazi, com rei de extravagantes hábitos e concubinas tribais, artesanato excêntrico e umas das maiores taxas de HIV/SIDA do mundo – e, vá, carne de-li-ci-o-sa. Provavelmente já tinhas ouvido falar, algures na época do Mundial do ano passado. Dá vontade de ir ver com os próprios olhos, como um país tão peculiar consegue acolher gente de todo o mundo, não dá?

É incrível a quantidade e diversidade de pessoas que por lá se vê, juntas a celebrar a harmonia ao som da música do mundo e performances multi-disciplinares. Tal como outros festivais de vanguarda do século XXI, o Bushfire tem um forte compromisso de responsabilidade social e sustentabilidade para com o local onde se insere e suas populações. Assim, apoia o desenvolvimento das artes, ao mesmo tempo que recolhe fundos para um dos mais alarmantes dramas sociais na Swazilândia: as vítimas indirectas do HIV/SIDA, as crianças órfãs (estima-se que cerca de 45% da população nacional está infectado com o vírus).

Assim, 100% dos lucros do festival vão para uma ONG local, a Young Heroes, a qual garante educação, cuidados médicos, alimentação e apoio geral a órfãos do HIV/Sida.

Quem disse que os heróis têm que ser sempre super?

Tralala. Quem canta o seu público encanta

Mas animemos que o Bushfire é uma festa da música e das artes. Este ano juntou nomes da África do Sul à América do Norte. Batuques do Mali, estrelas do Zimbabué, Djs vestidos de Darth Vader tribal directos de Cape Town, uma orquestra de sopro da Universidade de Yale, tudo no mesmo espaço e distribuídos por três dias. Novidade para alguns mas ídolos da maioria, a contagiante dupla electrónica sul-africana Goldfish, levou o relvado ao êxtase com o seu saxofone, baixo e flauta transversal muito bem entrosados com a restante musicalidade. É ouvir.

A maior lenda viva do Zimbabué, Oliver Mtukudzi, também esteve presente e pôs tudo a cantar, para grande surpresa dos turistas como nós. Outros nomes como Habib Koité do Mali, o francês Mime Dcol e os excêntricos vizinhos sul-africanos Gazelle e Hot Water, um dos highlights do festival, aqueceram as noites geladas da montanha. Claro que o pessoal da casa também não faltou. Nomzamo, Bholoja e Spirits Indigenous e ainda alguns incríveis seriously swazi DJs.

Por outras palavras, é acordar ao som do djambé, almoçar a dançar, pular para o pôr-do-sol ao som contagiante das sonoridades mágicas africanas. E, para aquecer os tais zero graus, é aproveitar a boleia de boas doses de bebida maltada. E da boa gente e disposição.

O outro festival

Há relva no festival e os pés não levam a mal. Falamos de relva verdinha graças aos incansáveis limpadores oficiais, os quais não paravam nem durante os concertos, não sem antes cumprirem a sua missão possível: manter o recinto impecável para se andar descalço. Afinal, estamos em África e a terra é que manda.

Outra particularidade do Bushfire é a feira de gastronomia e artesanato, com os clássicos kits-festival e outros itens mais exóticos. Tiaras de princesa da Disney, colares da largura de imbondeiros, cornos de diabo cintilantes, calças tailandesas de seda indiana, são apenas exemplos do que por lá se encontrava.

Quanto aos comes, wraps com caril Hare Krishna, pitas de frango com molho viscoso, espetadas de batata assada, brownies e crepes chineses de tamanho africano estavam entre os mais requisitados, juntamente com o vinho quente com muita canela e limão. Hambúrgueres e cachorros de qualidade H3, pizzas gordurosas e donuts caseiros coloridos terminavam o leque calórico que tanto ajudava a aguentar as horas de alguma maior dureza.

Finalmente, festival que é festival tem tendas, muitas e desorganizadas. Não o Bushfire. De um lado, as tendas da organização que se apresentam, lá está, organizadas em filas mesmo em frente aos WC montados para a ocasião, com chuveiros de água quente e autoclismos (os quais se mostraram insuficientes para a grande afluência de festivaleiros campistas, que trocaram os mega lodges das redondezas pela opção mais próxima e económica).

Do outro, a conceptual Tonik Tent onde os festivaleiros se sentavam, nas cadeira ou no chão, colocavam os phones e deixavam-se ir ao som dos Silent Gigs. Shiuuu!

África está na moda

Por tudo isto e ainda mais, longe vão os tempos em que falar de estilo era falar da moda europeia. Ainda bem. África está na moda e só os africanos é que não sabem – mas atenção, começam a saber e muito bem. Basta parar cinco minutos num canto qualquer do Bushfire, enquanto o vinho quente arrefece, e observar: o estilo Swazi mete Camdem a um canto, ou pelo menos dá que pensar. Cabelos rapados com tranças de lado, mega pulseiras de missangas de cores berrantes, colares do tamanho de serpentes, saias que parecem cintos, golas que são gorros, brincos que servem de base para copos quando começam a cansar as orelhas. Aqui vale tudo e elas podem. É um choque que não choca.

Já fora do relvado, dentro da House of Fire, a casa da organização do festival, também houve tempo para moda profissional. Qual Fashion Week à escala local (convém não esquecer que a Swazilândia é um dos países mais pequenos de África), designers swazis puderam expor o seu trabalho na passarela. Se tivéssemos que descrever numa só palavra, casual-afro-utilitário não estaria longe da realidade. Certamente que já está a inspirar bloggers e stylists um pouco por todo o lado.

Mas como tudo o que é moda acaba rápido, o Bushfire já era. Para o ano há mais. Fica a nota do que temos para aprender com os sul-africanos. E ensinar. Mas isso fica para uma próxima.



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