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[Quem quer comprar?]

“Mercadoria Humana” é uma instalação fotográfica da autoria de Pedro Medeiros, integrada no âmbito do projecto global «Mercadoria Humana – Projecto de Sensibilização em Tráfico de Seres Humanos». Entrevista exclusiva com o autor.

“Mercadoria Humana” é uma instalação fotográfica da autoria de Pedro Medeiros, integrada no âmbito do projecto global «Mercadoria Humana – Projecto de Sensibilização em Tráfico de Seres Humanos» que a Saúde em Português, Associação de Profissionais de Cuidados de Saúde dos Países de Língua Portuguesa, está a desenvolver na Região Centro. Este projecto tem como objectivos principais a prevenção, sensibilização, informação e consciencialização acerca da problemática do Tráfico de Seres Humanos para fins de exploração laboral e sexual, combatendo desta forma o alheamento da sociedade relativamente à natureza e opacidade deste fenómeno.

Instalação patente em Coimbra, 3 de Maio a 3 de Setembro de 2011

Há um vazio nas imagens do projecto “Mercadoria Humana” que reproduzem a frieza da nossa impotência. Essa impotência reproduz-se, facilmente, no descartar da responsabilidade, sendo natural considerarmo-nos inconscientes de uma coisa tida como ausente, por outras palavras, um supremo tabu.

O trabalho de Pedro Medeiros insiste, portanto, em provar justamente o contrário: que é tempo de vermos nas arcas frigoríficas, nos armazéns de mercadorias, nas bancas de venda de um mercado, na solidão congelada de um elevador, no “açaime de um animal”, a vida nua que corresponde a um espaço de excepção permanente fabricado por nós à margem da lei, o mesmo espaço que nos evita ter de pensar nesta realidade e que, além disso, é gérmen imanente da sociedade em que nos envolvemos.

Fomos conversar com o autor desta exposição para percebermos um pouco melhor este projecto.

Podes explicar sucintamente que programa é este, o da mercadoria humana?

Pedro Medeiros: Mercadoria Humana é uma instalação fotográfica, integrada no âmbito do projecto global «Mercadoria Humana – Projecto de Sensibilização em Tráfico de Seres Humanos» que a Saúde em Português (Associação de Profissionais de Cuidados de Saúde dos Países de Língua Portuguesa) está a desenvolver na Região Centro com financiamento do Programa Operacional do Potencial Humano através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Este projecto tem como objectivos principais a prevenção, sensibilização, informação e consciencialização acerca da problemática do Tráfico de Seres Humanos para fins de exploração laboral e sexual, combatendo desta forma o alheamento da sociedade relativamente à natureza e opacidade deste fenómeno.

A instalação fotográfica está patente em vários espaços públicos da cidade de Coimbra até 3 de Setembro do corrente ano. Depois desta data, está prevista uma primeira itinerância do projecto em Lisboa. Seriam desejáveis outras itinerâncias nos países da lusofonia, no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. O carácter humano e social desta iniciativa justifica, no meu ponto de vista, a ambição e o esforço de tentativa de internacionalização do projecto.

Estamos a produzir, ainda, a edição de um livro sobre este trabalho fotográfico, com a designação “Mercadoria Humana [Encomenda Postal] ”, que será apresentado na FNAC Fórum Coimbra no próximo dia 7 de Julho.

Como reagiste a esta proposta, de um fotógrafo participar numa campanha destas? Que papel para a fotografia e que enquadramento fazes no seio do teu trabalho?

Reagi muito bem, com a consciência de que tinha a oportunidade de poder tratar um tema muito duro. É um desafio enorme, de grande responsabilidade, poder representar fotograficamente este flagelo humano e social. O tráfico de seres humanos é uma actividade criminosa à qual é impossível ficar imune. A fotografia e as artes plásticas têm todos os instrumentos possíveis e impossíveis para poderem integrar de forma activa este tipo de campanhas. A minha atitude perante estes temas é, se quiseres, mais do que uma intenção artística, a afirmação de um compromisso de ordem ética e o exercício de um dever de intervenção cívica. Parte importante do meu trabalho tem vindo a ser desenvolvida na interpretação de temas que envolvem questões de identidade humana, social e política. São exemplos disso os projectos de exposição e edição “Voz do Silêncio” (2006), que realizei sobre as prisões políticas da ditadura fascista, e o projecto “INTRO” (2009), sobre o Estabelecimento Prisional de Coimbra.

No que diz respeito à Instalação Fotográfica “Mercadoria Humana”, trata-se, conforme referi, de um convite que me foi dirigido pela Saúde em Português para a concepção de uma exposição inédita de fotografia que pudesse interpretar o tema central da campanha. Em resposta a este desafio, criei um projecto de autor constituído por um portefólio original de oito imagens, propondo a sua apresentação em formato de Instalação de Arte Pública. Realizei, numa primeira fase, um trabalho de investigação, ao qual se seguiu a construção de um imaginário fotográfico, de cunho performativo. A instalação “Mercadoria Humana” pretende ser um alerta para o sofrimento das vítimas e para a possibilidade de denúncia dos seus opressores.

Os espaços expositivos não são os convencionais, abdicaste da galeria, isso é uma proposta, por assim dizer, política, no seio institucional da arte, ou foi uma opção neutra que apenas prolonga o significado desta exposição, como um trabalho site-specific?

A questão da escolha dos espaços expositivos representa uma das intenções nucleares para a possibilidade de leitura deste projecto. Penso que podemos afirmar que esta escolha tem esse duplo sentido: uma intenção política e a criação de lugares de significado que possam fazer desta exposição um trabalho de site-specific no contexto da arte pública.

Se, por um lado, somos um país economicamente muito frágil, com vários impedimentos financeiros à criação artística, por outro continuamos condenados ao juízo de valor de um grupo de agentes culturais que no seu exercício de influências e critérios de valoração contribuem para um meio encerrado sobre si próprio, centralizado, pouco dado à experimentação e a uma leitura global do país. Tenho alguma dificuldade em compreender o que é eleito como essencial e rotulado como “periférico”.

Quanto à opção de apresentar este projecto em espaços expositivos não convencionais explica-se pela própria intenção de criar uma maior proximidade com o público, reforçando a ideia da cidade como espaço de reflexão, de participação cívica, convocando a população para um exercício de análise crítica e interacção comunitária. Conseguimos desenhar um périplo simultâneo de exposição em vários espaços públicos: Centros de Saúde; Espaços Institucionais de Informação Municipal; Espaços de Ensino Público, Espaços da Universidade de Coimbra e do Ensino Secundário; Espaços de Conhecimento, Cultura e Lazer; Áreas de Comércio e Hotelaria; Empresas de Transporte de Passageiros e Mercadorias; Postos de Turismo. A imersão da instalação no contexto urbano de Coimbra envolveu o apoio e colaboração de cerca de vinte entidades, instituições e empresas da cidade, sendo o projecto visível em vários suportes expositivos vocacionados para o exterior: painéis fotográficos, mupis 175x120cm, cartazes de várias dimensões, flyers e folhetos informativos, e anúncios de imprensa.

Importa, sobretudo, referir que a instalação tem o seu núcleo principal no Mercado Municipal D. Pedro V. Trata-se do espaço onde foram criadas a maioria das obras e onde se pretende que estas estejam em diálogo permanente com o público no seu contexto de instalação. Assim, a instalação integral dos oito painéis fotográficos no Mercado pretende estimular um exercício de diálogo e comunicação, conciliando as interpretações do público in situ com o contexto global da campanha e com as minhas preocupações enquanto autor do projecto.

Há uma crueza e uma frieza nas imagens que dilaceram o corpo humano em mercadoria, e que resultam numa extrema violência. Por outro lado, as mercadorias são o objecto do nosso desejo, são aquilo que o desejo persegue nesta sociedade de consumo. Queres explicar esta opção de uma certa tensão que as imagens provocam?

Não podes traduzir o esmagamento psicológico, a violência exercida sobre as vítimas de tráfico humano, a imensurável crueldade deste crime, sem criares tensão. Essa tensão é inerente ao tema e ao processo criativo de construção das fotografias. Considero, no entanto, que a realidade é sempre mais violenta do que qualquer imaginário ou ficção que consigas criar. Na concepção dos painéis fotográficos que compõem a instalação houve a intenção de incluir em todos eles o logótipo da campanha, os contactos e linhas telefónicas de acção, estes dados fazem parte da obra final, traduzem uma vez mais a intenção do projecto.

Ao apresentarem-se oito painéis fotográficos com esta composição, em formato Mupi, ou cartaz, estamos a apropriar-nos da linguagem utilizada nos meios publicitários da sociedade de consumo para combater o criminoso desejo dos que praticam esse “consumo”. Ao transportarmos os painéis para a rua estamos também a lembrar que todos temos responsabilidade sobre a denúncia deste crime. Gosto desta ideia de incorporação, de que as pessoas possam sentir-se implicadas nestas obras, da ideia de que somos todos parte de tudo e de que na realidade ninguém está verdadeiramente “limpo”.

Como é que as pessoas estão a reagir a este teu trabalho?

Volto aqui à questão do espaço público e dos espaços convencionais. Quando se apresenta um trabalho numa instituição, museu ou galeria aparece um público mais previsível, que se movimenta por prazer, vontade de conhecimento ou por interesse na obra de determinados artistas. Quando se escolhe o espaço público, encontramos o mesmo público dos espaços ditos convencionais e o público constituído pelos cidadãos comuns. Interessa-me, então, o cidadão comum. Interessa-me, neste contexto, o julgamento público.

As reacções têm sido diversas, e penso que este trabalho está a cumprir os seus objectivos. A partir do momento em que se apresenta um trabalho ele deixa de ser do autor, por isso, quem devia responder a esta questão é o público que o vê. Deixo aqui, em todo o caso, duas reacções que tive oportunidade de presenciar na qualidade de “espectador do meu próprio trabalho”. Quando procurávamos o apoio de instituições e empresas na cedência de espaços para colocar as obras, tivemos uma resposta por escrito de uma empresa da cidade que mencionava: “Não podemos ter fotografias que podem afastar os nossos clientes.” Outra reacção foi observada numa das várias unidades alimentares dos SASUC – Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (entidade apoiante do projecto), quando um dos utentes manifestou junto do responsável da cantina que aquele não era o espaço mais apropriado para colocar fotografias com aquele conteúdo, pois incomodavam a sua refeição. Respondi ao responsável desta unidade: – “Se a comida lhe soube mal é sinal que compreendeu este projecto”.



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