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Catarina Carreiras

A jovem designer portuguesa imprime nos seus projectos uma simplicidade, harmonia e um quê de imaterial, subtil e etéreo que a tem distinguido nacional e internacionalmente. Com a RDB, falou sobre inspiração, genialidade e design.

Há pouco tempo, descobri o caderno de notas que Catarina Carreiras criou para a Fabrica num artigo da VOGUE Paris, entitulado “40 Acessoires de Working Girl”, entre dispendiosas peças Prada, Fendi, Gucci, Louis Vuitton, Cartier e Dior.

A designer gráfica portuguesa, nascida em 1985, imprime nos seus projectos uma simplicidade, harmonia e um quê de imaterial, subtil e etéreo, que a tem distinguido, nacional e internacionalmente.

Foi com essa mesma simplicidade e inspiração que Catarina esteve à conversa com a Rua de Baixo.

Catarina Carreiras licenciou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Durante o curso, conseguiu encontrar tempo para estudar design gráfico na Nottingham Trent University, no Reino Unido, colaborar com um atelier de design português – os FE’ designers – e ainda para trabalhar com organizações não-governamentais.

Após o curso, a designer portuguesa passou um ano em Itália, no departamento de design da Fabrica, o respeitado centro de investigação em comunicações da Benetton, sob a direcção de Sam Baron, um esteta que a influencia até hoje.

Apesar de ter aproveitado o input criativo e a dolce vita italiana, não demorou muito até ser convidada a participar como senior designer.

Em 2008, Catarina ganhou o prémio Jovens Criadores na categoria de design gráfico com o projeto “Re.Set, Go!” e, no ano passado, com o “Long Live Print!”.

Actualmente rendeu-se a Nova Iorque, onde colabora com o atelier Karlssonwilker.

O que te inspira?

Inspiram-me sítios, paisagens, pessoas, obras. Inspiram-me coisas pequeninas que mal se vêem, colecções ou grupos de tantas outras mesmas coisas, escalas, o monumental, o gigante, o exagerado. Inspiram-me contrastes, opostos, tudo o que me garanta que o mundo é feito de partes diferentes, mas que todas partem da mesma raiz. Inspiram-me motivações, percursos pessoais, pesquisas extensas. Sou uma curiosa e uma estudiosa, e faço do meu dia um acto de pesquisa. Gosto de fazer relatórios para mim mesma regularmente, principalmente desde que viajo tanto. Uma vez ao dia, à semana, ao mês. Não há grandes regras. Mas insisto, mesmo que sejam apenas exercícios mentais. O que passa, habitualmente, por enviar emails a mim própria, num monólogo engraçado, com muito eco. Ultimamente, ando a fazer um esforço para partilhá-los, publicá-los, atirá-los para fora da minha cabeça. Mas talvez um dia, em breve, comece a fazer dos pensamentos, diálogos. Ou pelo menos vou tentar traduzi-los para um espaço público. Interessa-me tudo o que se “designe”, “desenhe”, fora e dentro daquilo a que habitualmente chamamos “design”. E, inspiração sem fim, encontrarei sempre em livros: objectos, papéis, palavras, imagens, histórias. Nunca irei desistir dos livros.

Na tua opinião, o talento é intrínseco ou aprendido?

No outro dia ouvi uma conferência de uma escritora americana que anda aí nas bocas do mundo. Falava sobre o conceito de “genialidade”, e, resumindo muito rapidamente, dizia que o conceito de génio é, por natureza, completamente estranho à condição humana. Dizia que o homem não tem forças ou capacidades para enfrentar a ausência de “genialidade”, e daí tantos problemas com a aceitação do fracasso, da falta de jeito, da inabilidade. Dizia ela que nos tempos antigos as boas ideias pertenciam apenas aos deuses, sendo que no mundo havia pessoas mais ou menos sensíveis a estas ideias flutuantes, pessoas essas que usavam estas ideias, estes momentos de inspiração divina, sem saber ao certo de onde vieram, fazendo-se apenas veículo da vontade de um poder maior. Eu sei que tudo isto soa bastante bizarro, mas também me deixa dormir um bocadinho mais descansada. Acredito que o talento tem muito de intrínseco, muito de intuitivo, mas também é uma luta, também se constrói do nada, se estimula e se ensina. Todo o ser humano é dotado de um ou mais talentos… E caso escolha o errado e corra tudo muito mal, sempre pode pôr a culpa nos ditos deuses!

Nasceste em 1985, mas, ao observarmos o teu website, ficamos com a sensação que a tua carreira é bastante longa, devido à quantidade de projectos em que já te envolveste. Na área do design, é extraordinária a rapidez com que novos produtos, todos eles garantindo boas razões para existir, são desenvolvidos e produzidos. Durante quanto tempo trabalhas num projecto? Passas muitas noites sem dormir?

Durante aquilo a que se pode chamar “um curto percurso profissional”, é verdade que nunca tive muito tempo para andar a mastigar projectos e ideias. Geralmente, trabalho rápido e trabalho bem sob pressão, e acho que por tão miúda, ainda vivo naquela ânsia de andar sempre a atirar coisas cá para fora. Essa ânsia fez-me obviamente passar algumas noites sem dormir, mas não assim tantas. Tento praticar um horário razoável, ter fins-de-semana, jantares descontraídos e férias sem computadores: o bê-á-bá da sanidade mental. Sou uma praticante da preguiça quando posso ser. Mas às vezes é difícil. E a ânsia engole-me. Tive também a sorte de ter começado a trabalhar num sítio como a Fabrica depois da faculdade, com um director criativo como o Sam Baron. Deram-me muito espaço, muitos projectos interessantes, muita responsabilidade. Tem sido um percurso feito de vitórias e derrotas, mas fico muito contente por ver que as vitórias batem todos os outros momentos menos bons, e geram interesse sobre aquilo que eu sou e que gosto de fazer. O mesmo interesse que tenho por tantos outros criativos que aí andam, e muitos deles também em princípio de carreira. Os momentos de menos glória guardo para mim, tiro as minhas lições, e mantenho-os longe do meu website.

Agora, quanto à rapidez com que as coisas se produzem hoje em dia, devo dizer que é uma coisa que me assusta muito, mas também me conforta um bocadinho. Nada do que faço dura muito tempo, por enquanto, e se um dia um projecto corre mal, ninguém vai morrer diagnosticado com “mau design”. E isso dá-me uma liberdade incrível para falhar e experimentar – daí tanto trabalho. Mas começo a ter vontade de acalmar um bocadinho e ter mais tempo para reflectir, estudar, questionar, e até para ter ainda mais espaço para errar. Espero que esse tempo chegue. Em breve.

Qual foi o teu projecto mais importante e porquê?

Essa pergunta é difícil porque muitas vezes os projectos mais importantes nem são os maiores, mas sim aqueles onde fazemos mais asneiras – já que no fim, quer resultem, quer nem tanto, sabe bem sentir que aprendemos qualquer coisa que nos saiu do pêlo, poder respirar fundo, e sentir que já passou.
Considero todos os projectos que fiz importantes, mas claro que cada vez mais me entusiasmam projectos expositivos: criar espaços, peças, situações tridimensionais com o que sei fazer a duas dimensões. Mas sou um bocadinho ambiciosa, muitas vezes até demais, e considero habitualmente que o projecto mais importante há-de ser sempre um que há-de vir, o próximo. E tento ir preparando-me para ele. Em pulgas.

Já trabalhaste em vários países, em diferentes ateliers. Para ti quais são as principais diferenças, positivas e negativas, entre, por exemplo, Lisboa e Nova Iorque, Reino Unido e Itália?

Existem diferenças óbvias, e apesar de nunca ter trabalhado profissionalmente em terreno português, esse é sempre o meu ponto de referência. Não ligo muito às coisas más que cada contexto cultural traz consigo, tento retirar as melhores lições de cada lugar.

Primeiro que tudo, trago sempre Portugal em mim. Conheço-lhe os defeitos e as qualidades, mas tenho muito respeito por este país que é mais meu que todos os outros e tento sempre ter noção de que sou embaixadora de uma cultura tão bonita. E tento que isso se manifeste no meu trabalho e maneira de estar. Já do Reino Unido trago uma lição de estilo, a considerar e a evitar: existe a massificação de uma ideia de design, que torna tudo muito bonito e apetecível, mas muitas vezes aborrecido e óbvio. De Itália vem uma lição de história: de respeito profundo nos costumes, tradições, arquitecturas, lazer, do intrínseco e do institucional “fare niente”: a lição de uma preguiça saudável, e de um saudosismo que às vezes teima em deixar-nos para trás. De Nova Iorque uma lição bastante importante sobre prioridades e prazeres. É uma cidade onde estar sozinho é um desporto. E nunca se torna aborrecido. Mas o trabalho árduo, sistemático, maníaco, tem-me feito muita confusão. A cidade é habitada por gente determinada, mas sem grandes aspirações a uma qualidade de vida razoável e de cultivação pessoal – tendo em conta o sítio privilegiado onde estão. É incrível como se pode encontrar tanta coisa interessante concentrada num único sítio no mundo. E tantas línguas, culturas, sabores, personalidades. É a autêntica lição sobre o “melting pot” que este mundo se está a tornar. Mas ensinou-se que estar sozinha no mundo não é de todo a minha maneira de estar. Tudo isto é, escusado será dizer, completamente pessoal e intransmissível.

Saíste de Portugal porque quiseste ou porque te viste “obrigada” a fazê-lo para progredir?

Quando acabei o curso nunca pensei ficar. O objectivo foi sempre sair, pelo menos durante algum tempo. Primeiro um ano, e depois começou-se a arrastar. Não me senti obrigada, mas senti-me um bocadinho asfixiada. Ainda fui a algumas entrevistas em Lisboa, mas vi o caso muito mal parado e já tinha a cabeça feita para seguir um determinado percurso. Sou muito racional quando toca ao meu percurso profissional, e cedo percebi que ainda não havia espaço em Portugal para explorar as coisas que eu queria explorar, com a liberdade e escala que me entusiasmava. Infelizmente. Não tenho especial prazer em ser emigrante, considero consequência de um plano de vida. Mas também acredito que estes anos fora do meu país me têm dado energias e sinergias para trazer de volta algo muito especial, inovador, que traga perspectivas diferentes ao contexto do design em Portugal.

Sentes que a herança portuguesa influencia o teu trabalho?

Posso dizer que sim, mas mais na parte prática do que em termos de contextos, raízes e estilos. Sei que tenho uma influência óbvia a nível académico: trago sempre comigo a maneira como as coisas me foram ensinadas em Lisboa. Mas acho que não sou muito portuguesa em termos de estilo. Se é que existe um estilo português. De qualquer maneira, a melhor resposta a esta pergunta será sempre sobre os portugueses que vou encontrando nestas minhas viagens. Viver fora de Portugal fez-me perceber que nós temos uma capacidade de trabalho sem igual, e vou encontrando percursos profissionais exemplares e muito interessantes, muitas vezes ainda mais interessantes do os outros de outros tantos países, ditos grandes. É um testemunho de humildade e de talento puro. Do qual eu acredito Portugal estar cheio. Tento sempre levar ao extremo essa herança portuguesa, a ambição e a saudade esperançosa de quem um dia se fez ao mar.

Em Portugal, o design não é considerado pelo público em geral como sendo especialmente importante. Em países como a Holanda ou Dinamarca é muito diferente. Porque pensas que isto acontece e qual é o caminho para reverter a situação?

Os circuitos de design em Portugal ainda são muito restritos e acessíveis a minorias. O design ainda não existe a um nível de serviço social, ainda é visto como um produto intelectualizado: não está absorvido por tudo e todos, como vemos nas sociedades dinamarquesa, sueca, inglesa, americana, e até francesa. Em Portugal uma entidade com um projecto interessante pensa quase sempre em entregá-lo a uma grande agência. Não há ainda o interesse pelos pequenos estúdios, pelo trabalho de autor, por uma voz singular e destoante. Falo aqui de design a dois níveis diferentes: no que toca ao design num contexto social cabe-nos também a nós, designers, convencermos o país de que é preciso avançar, evoluir, criar e redesenhar mais e melhor. E acho que esse percurso é mais fácil e está para vir. No que toca a um contexto mais profissionalizante, ainda não percebi bem qual é a melhor solução. Para ser sincera acho que o português precisa de ver para acreditar, e penso que um dia alguém, tendo obra feita com pessoas e em contextos interessantes, obra essa que ultrapassa os dogmas do design em Portugal, há-de ensinar uma grande lição. E aí os interesses hão-de de mudar. Acredito que a situação se irá reverter, pelo menos a um nível primário, infelizmente pelo exemplo e pela imitação daquilo que vemos acontecer à nossa volta. Já é um passo em frente, mas gostava que partíssemos logo para a inovação, liberdade e experimentação. Mas para isso também sei que é preciso haver um contexto económico que não existe em Portugal por enquanto.

Nos últimos anos houve uma notável aproximação entre a arte e o design. Isso é observável em certos trabalhos teus. Os teus objectos são funcionais e passíveis de produção em série mas mesmo assim podem pertencer a galerias?

Claro, e esse é um dos aspectos que me dá mais gozo explorar. Gosto das fronteiras ténues, gosto quando não se consegue explicar bem uma coisa com etiquetas. Quando sabemos apenas que gostamos e que é interessante. E acho que o meu caminho irá seguir muito por aí. E, como disse, tive a sorte de aprender muito com o Sam, que é acima de tudo um esteta. Um defensor da beleza e do pormenor, beleza e pormenor esses que podem estar num objecto de uso comum, mas que o fazem pertencer também ao imaginário de uma galeria. Tudo pode ser recontextualizado, e eu gosto de ir contando histórias. Para mim o design existe e existirá sempre num contexto – não me interessa o puro prazer gráfico. Interessam-me reacções, opiniões, ver as caras de quem vê o que faço. Em directo. Claro que isto traz um nível de risco muito maior, e põe-me sempre numa posição mais vulnerável. Mas é um risco que me dá gozo correr.

Onde e como te imaginas daqui a vinte anos?

A minha vida tem dado muitas voltas e hoje em dia até tenho medo de responder com muitas certezas a este tipo de perguntas. Mas, no mais radical dos meus sonhos, imagino-me num atelier feito de amigos, no meu cantinho à beira-mar, que tenha trabalho para todos os lugares do mundo, pequenos e grandes. Comigo sempre a viajar, a conhecer, a encontrar, a experimentar. Espero manter o gosto que me dá trabalhar, mas também me imagino sem dúvida no papel de uma super-mulher de família. Vamos a ver.

Helvética: expande ou reduz?

Reduz. Mas se calhar amanhã mudo de ideias. Não gosto muito de dogmas, principalmente nesta área, que deve ser o mais livre possível e deixar-se de manias. E há quem use helvética como dogma. Não nego o seu valor e beleza, mas acho uma escolha óbvia e feita de facilitismos. Acredito que ela existe para ajudar o mundo a entender-se melhor, sabendo que por aí não há que enganar. Mas existem outras mil opções. E eu gosto disso, e gosto de arriscar. E quando não gosto, acho que prefiro a mãe da Helvética, a nobre sra. Akzidenz.

Hard copy ou soft copy?

Hard copy. Pelo respeito, história e prosperidade. Um livro há-de ser sempre maior que um website: pelo seu peso, pela sua dimensão real, pelo tacto, pelo cheiro.

Cor ou ausência de cor?

Ausência de cor. Sou grande adepta do preto-e-branco, porque é onde se encontram as coisas mais extraordinárias, sem distracções. Mas gosto de fazer pequenos exercícios de cor aqui e ali. Obrigo-me a exercitar a cor.

Pastel de Nata ou Cupcake?

Hum… pergunta muito, muito, difícil. Tudo o que implique açúcar é, para mim, sempre difícil. Talvez no dia em que inventarem um cupcake de nata conseguirei decidir-me. Mas, como hoje em dia posso-me dividir entre cá e lá: um cupcake em West Village e um pastel de nata em Belém. Até poder.

Qual é o teu conselho para os jovens designers portugueses em início de carreira?

Devem arriscar, e não se deixarem levar por facilitismos. Que pensem no global e no local. Que saibam que o mundo não se resume aos nossos cantos. Há muita esperança por aí, muitos projectos interessantes ao virar da esquina, e mesmo ainda dentro de Portugal. Devem encontrar aquilo que os apaixona e lutar para que esteja sempre presente na vida deles, mesmo que tenha que ser a um nível amador. Acredito muito na minha geração, acho que é muito positiva e muito pouco aldeã. Ah… E o melhor conselho que tenho para dar é acreditar piamente que o trabalho árduo traz muitas recompensas. Mas quem sou eu para dar conselhos ainda?



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