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TRAZER O MUNDO À ALDEIA, FAZER DESTA UM FAROL

Durante 16 dias o Festival Materiais Diversos propõe-se inscrever Alcanena, Minde e Torres Novas no mapa dos festivais internacionais das artes performativas. Tiago Guedes, coreógrafo e director do Festival, conversou com a RDB sobre o trabalho desenvolvido pela sua equipa.

A edição deste ano do Festival Materiais Diversos tem uma novidade muito atractiva para aqueles que gostam de juntar à fruição de espectáculos e acontecimentos culturais próprias de um festival, a possibilidade de passearem e descobrirem a região: como se realiza em Setembro o público do Festival pode contar com um conjunto muito diverso de actividades lúdicas, de lazer  e de descoberta do Parque Natural  da Serra de Aire e Candeeiros feitas ao ar livre. A iniciativa foi do próprio Festival, e partiu da ideia partilhada por Tiago Guedes de que “ a cultura, o turismo, a economia, social, está tudo ligado, e quanto mais as coisas caminharem lado a lado mais potencia tudo.”

O trabalho de mediação cultural: perceber as artes performativas contemporâneas

O Festival continua com a aposta que já o tinha singularizado na sua primeira edição em 2009: além do cruzamento de espectáculos de dança, teatro e música, a realização de actividades de mediação e as actividades do serviço educativo.  E é aqui, quando começamos a perceber o que é este trabalho de mediação cultural, e a forma como ele ocupa a equipa de Tiago Guedes durante todo o ano, que nos apercebemos que ele é uma marca muito própria e distintiva deste acontecimento. Tanto mais importante quanto estamos a falar de um festival que movimenta criadores e espectáculos que não são facilmente reconhecidos pelo grande público. Diz Tiago Guedes:

“- Essa é uma das particularidades do festival. Desde o inicio que o que nós incutimos na população,  nas nossas sessões de mediação a ideia da descoberta. Como é que as pessoas que tem os a priori do que é a dança, do que é o teatro, do que é a música, e neste caso muitas delas até o praticam, há muitos grupos de teatro amador, há muitos grupos de música, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, como é que podem descobrir outras maneiras de fazer?  O que o festival faz é trazer à porta de casa das pessoas espectáculos que fazem ver outra forma de ver e fazer a dança, o teatro, a música. É por isso que temos sempre conversas depois dos espectáculos,  o público encontra os criadores, este ano temos até piqueniques com os artistas. Ou seja, nós fazemos tudo para desmistificar, dessacraliza. Isso foi uma das chaves do sucesso  do ano passado, incutir nas pessoas a ideia de que vermos outras formas de fazer é um privilégio que podemos ter  numa época em que tudo é tão mastigado,  é tudo dado, sem questionarmos grande coisa “

Merece por isso a pena um olhar mais demorado sobre o modo como realizam este trabalho de mediação. Como salientou Tiago Guedes, há muitas maneiras de o fazer e ele e a sua equipa tentam adaptar-se do melhor modo ao facto de não estarem totalmente radicados ali. Vêm várias vezes ao longo do ano mas só três meses antes chegam, de armas e bagagens.

“- O nosso trabalho de mediação aqui é irmos às freguesias todas, trabalhamos muito em parceria, por exemplo, o concelho de Alcanena é um concelho muito pequeno, tem dez freguesias, nós organizamos sessões de esclarecimento nas várias juntas de freguesia, apresentamos os nossos projectos, conhecemos os projectos deles também. Fazemos uma espécie de mapear do concelho, falamos com as associações, vamos a todo o lado, aos bombeiros voluntários, aos grupos de caçadores,  às escolas, às bibliotecas. Isto no antes. No durante temos todo um conjunto de iniciativas que são o que aquilo que chamamos o fora de palco, que ajudam a ler os espectáculos, que ajudam a entrar no festival. Daí termos o Atelier do Espectador onde as pessoas ouvem falar do espectáculo com o Tiago Bartolomeu Costa, temos também depois do espectáculo conversas com os espectadores, onde o público pode fazer as perguntas que quer, isso correu muito bem o ano passado, porque as pessoas se apercebiam que as suas dúvidas eram também as dúvidas de outras pessoas, e isto é muito importante, porque estamos a falar de artes performativas contemporâneas, são áreas das quais as pessoas não estão muito próximas, mas que eu acredito que são áreas que podem ser desmistificadas, assim de faça este trabalho à volta das pessoas.”

Uma programação com um grande peso do trabalho com a comunidade

A programação acaba por reflectir esta ideia de fazer parte, de estar com, atitude que acabam por transmitir também aos criadores que convidam, não para apresentar as suas obras, mas para trabalharem com grupos locais, para serem um olhar exterior que traz outras dinâmicas, outros modos de pensar o espectáculo. Como o trabalho Hotel União, que a Companhia Cão Solteiro desenvolveu com antigos elementos de um grupo de teatro amador de Minde, ou o que, no espectáculo “O Trabalho”, a partir de textos de Harold Pinter, Martim Pedroso (encenação), Cláudia Gaiolas (interpretação) e Miguel Pereira (corpo) realizaram com dois actores locais, ou ainda o que Vítor Hugo Pontes fez com um grupo local no espectáculo “Manual de Instruções”. Destaque ainda para o Coro de Queixas, queixas variadas, a nível politico, pessoal, recolhidas numa caixa negra que andou a circular durante um ano. Passaram-na ao compositor Sérgio de Azevedo que se encarregou de trabalhar o material para um coro de 80 pessoas ( que congrega os coro Infanto-juvenil, de Câmara e Polifónico do CAORG -Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro).

Para além dos seis espectáculos apresentados por grupos locais, e onde se incluí ainda um trabalho a partir de Luís Pacheco, do novo Teatro Oficina de Alcanena,  que resultam deste intenso trabalho de aproximação à comunidade, a programação apresenta várias propostas internacionais: Antónia Baer, coreógrafa, directora e performer alemã apresenta um espectáculo dedicado ao riso (objecto também de um atelier a realizar no Goethe Institut em Lisboa), David Wampach, bailarino cruza-se com o baterista Isaac Achega e, em estreia nacional, com passagem depois pelo CCB e Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, o trabalho do coreógrafo canadiano Benoît Lachambre.

A produção nacional também tem lugar de destaque, sendo vários os criadores nacionais presentes: Martim Pedroso (que trabalhou com o artista plástico João Pedro Vale e o dramaturgo Nelson Guerreiro), Cláudia Efe, Vítor Hugo Pontes, Filipa Francisco, António Pedro, Joana Von Mayer Trindade,  Tânia Carvalho, Sofia Dias & Vítor Roriz e Tiago Rodrigues. O grande destaque vai para a possibilidade dos espectadores poderem rever três solos de Vera Mantero (Uma misteriosa coisa, disse o e.e. cummings*, a Dança do Existir e Olympia) que fazem já parte da história da  dança portuguesa contemporânea.

Um farol nas artes performativas nacionais

Um dos eixos que singularizam também este festival é a apresentação de novos criadores como Elizabete Francisca Santos, Teresa Silva e  Mariana Tengner de Barros, a uma rede de programadores franceses. Tal acontece mercê de um protocolo com o Ministério da Cultura francês, que traz uma delegação da ONDA, organismo para a difusão artística, que anda pelo mundo a descobrir artistas e espectáculos para depois os programar. Tiago Guedes não esconde o orgulho por o festival ter esta capacidade de trabalhar o local e o global:”- Geralmente estes cruzamentos fazem-se nas grandes cidades. É uma nova centralidade para estes cruzamentos culturais.”

Ainda voltando às actividades paralelas aos espectáculos, onde se incluem os já referidos piqueniques na relva com os criadores, ateliers do espectador, conversas com o público, há ainda a destacar as mesas rectangulares, com temas como a utilização de espaços culturais, o turismo e a cultura e as relações entre criadores e programadores. Sobre esta última Tiago Guedes, que é artista e programador, disse-nos:

“- Nós somos um festival que acompanha muito os artistas, os ensaios, os trabalhos, que os insere, e muitas vezes os artistas e criadores queixam-se de que os programadores programam muito por catálogo, que não têm muita relação com eles, que se descartam da preocupação de viajarem pelo país e pelo mundo para verem espectáculos para trazerem  e defender nos seus espaços,  eu percebo as contingências em que isso acontece, cada caso é um caso, mas achamos que as relações entre eles têm de ser outras, esta relação tem de ser construída de outra maneira, mais par a par e por isso promovemos esta discussão.”

O vaivém entre o artista e o programador

Depois de termos abarcado um pouco as várias dimensões do festival, a programação, as actividades paralelas, era inevitável tentarmos perceber como é que Tiago Guedes, que estava a trabalhar como coreógrafo residente em França há poucos anos, acaba por vir dirigir um Festival de Artes Performativas em Alcanena.  É aí que descobrimos que nasceu em Minde, um concelho que tem cerca de três mil habitantes e que para ele é um lugar privilegiado por causa da sua vida associativa “ todas as pessoas fazem parte de associações, todas as pessoas têm actividades artísticas amadoras, há um potencial enorme”.

Aos dezoito anos Tiago parte para Lisboa, para a Escola Superior de Dança em Lisboa, de onde seguiu depois para França. Entretanto houve uma feliz coincidência: na leva de inaugurações de teatros municipais, o município de Alcanena tinha estreado um novo Cine Teatro e descobriu que Tiago Guedes era um artista do concelho. Convidaram-no a apresentar os seus espectáculos, as coisas correram bem e depois foi desafiado a pensar estratégias culturais para o concelho. Tinha assim surgido o festival Materiais Diversos:

“- Eu fiz um bocadinho o percurso inverso. Formei-me, fui trabalhar para França, o meu percurso estava totalmente desenhado para continuar lá, eu estava como coreógrafo residente no teatro ao pé de Lille, Armentières, tinha sido convidado para ser coreógrafo noutro teatro, em Rennes, mas apeteceu-me desenvolver espectáculos cá. Acho que as pessoas da minha geração têm essa responsabilidade, de ajudar e ser agentes do desenvolvimento cultural do nosso país. É muito complicado mas há muita coisa a fazer.”

A programação como um trabalho artístico

A experiência que tinha tido em França já o tinha aproximado da programação, do pensar na programação como se fosse um projecto artístico e transportou isso para esta experiência, que surgiu num momento em que também pretendia distanciar-se do seu trabalho de coreógrafo: “- Eu vejo a evolução do meu percurso assim, como uma passagem de um projecto para outro e o festival dos Materiais Diversos é o meu projecto artístico neste momento. Gosto desta ideia de ir intercalando entre o meu trabalho, onde eu sou o centro, e o do Festival, onde eu sou uma alavanca, o centro são os artistas, o público.”

O nome de Materiais Diversos veio de um espectáculo seu e da estrutura de produção que entretanto tinha criado e que se adaptava na perfeição a um festival de várias disciplinas e com espectáculos muito diferentes mesmo dentro das várias áreas. Tiago Guedes assume o seu ecletismo e o seu interesse pela quebra das convenções, pelos cruzamentos pluridisciplinares.  Para o ano quer também convidar um artista plástico, para intervir. E quer um festival que seja um acontecimento cultural e social:

“-Numa cidade este festival seria completamente elitista devido à sua programação, mas numa terra de três mil habitantes como Minde torna-se num festival totalmente popular, uma festa. Vêm as famílias, os avós, os netos,  as pessoas ficam para as conversas, vêm ao nosso ponto de encontro, um antiga gráfica que recuperámos, onde temos o bar, a discoteca, um sitio onde as pessoas se encontram,  e vem comer connosco, falar, encontram os artistas, e fazem efectivamente festa. Esta ideia de que o festival pode ser um acontecimento social  agrada-me imenso.”

Já estávamos a conversar há mais de meia hora, dei-me conta de que não lhe tinha ouvido sequer um queixume, um lamento, sobre as dificuldades da actividade cultural e artística. Perguntei, meio a brincar, se tinha descoberto ali um micro-clima cultural:

“- Eu sou intrinsecamente optimista mesmo nos momentos mais adversos. Quando pretendi lançar o festival o ano passado, ouvi de tudo. Estávamos numa altura de crise, de retracção, este festival era muito complexo, mas eu acho que é nestas alturas que há espaço para as coisas crescerem e surgirem novos projectos. As contingências políticas afectam-nos, nós para além de sermos um projecto apoiado pela CM Alcanena, muito bem apoiado, temos também apoio do MC, por isso sofremos com tudo o que possa vir a ser corte na actividade, mas nós montámos os nossos projectos mesmo sabendo que estes são criados em areias movediças, por isso nos preocupamos tanto em criar redes de segurança, temos muitos parceiros, estamos muito envolvidos com a comunidade, trabalhamos o ano todo, temos uma equipa que está muito consciente disso tudo”.



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