Cesária Évora

Morabéza di Cabo Verde.

Foi uma Lisboa tímida, mas com uma secreta vontade de balancear o corpo, que recebeu Cesária Évora na passada noite de 2 de Julho, nos Jardins da Torre de Belém. Um concerto que foi ouvido, primeiro de olhos fechados, depois a bater o pé e finalmente em explosão total de alegria naquela que foi, por uma noite, a maior sala de baile de mornas, coladeras e funanas de Lisboa.

São tantos os chavões que acompanham o nome Cesária Évora – diva dos pés descalços, senhora das mornas e a voz de Cabo Verde, para dizer apenas alguns – que muitas vezes somos levados a acreditar que estamos perante um mito inalcançável, um ser celestial e distante.

Nada mais errado. Esqueçam o acessório e concentrem-se no essencial, no que se pode sentir. A voz de Cesária não é rouca e grossa… é doce, forte e límpida. O seu olhar não é triste e alheio… é terno e sereno. A sua postura não é estática e imóvel… é sincera e tranquila. Cesária Évora é terrena, canta-nos os seus 65 anos de vida; canta-nos a “morabéza” de Cabo Verde, a gentileza de um país quente e alegre; canta-nos a poesia e cultura cabo-verdianas; a felicidade dos que amam; a tristeza dos que se perdem; a “sodade”… a nostalgia dos que estão longe. E foi um enorme privilégio que tivesse cantado para todos um pouco do que vai dentro do seu imenso coração.

Foi numa atitude de perfeita emoção que o público aguardou que Cesária Évora subisse ao palco para se juntar aos oito excelentes músicos que a acompanham. Um palco que se enche com a presença de Cesária, mas também com a mestria das percussões, viola, cavaquinho, guitarra, violino, clarinete, saxofone e piano de cauda. Cesária recebe de imediato os respeitosos aplausos do público, que se sucedem a cada morna cantada. O novo trabalho “Rogamar” fica no ouvido e trauteia-se imediatamente: “África Minha, África Nossa. Berço do Mundo, Continente Fecundo”. Músicas de sempre como «Sangue de Beirona» e a muito aguardada «Sodade» são dançadas pelo público, acompanhadas com palmas e sorriso aberto no rosto.

Admiravelmente Cesária Évora continua tranquila. Dirige-se pela primeira vez ao público, quando apresenta os músicos, e sobre si diz simplesmente: “Mi Cesária Évora”! Senta-se um pouco, bebe água, fuma um cigarro, olha os músicos e balança-se, quase timidamente, ao som da música quente tocada pelos seus músicos. Este aparente alheamento de Cesária Évora deve-se inteiramente à distância física imposta entre o palco e a assistência, obrigada a manter-se sentada durante quase todo o espectáculo.

Com o fim do concerto vem o pedido de mais algumas músicas. O público levanta-se, chega-se junto ao palco e, ao som de «Besa me», Cesária Évora tem o espectáculo que merecia desde o início e sorri. O público dança a meia dúzia de passos de Cesária, aplaude espontaneamente, acena, agradece e pede mais uma música… Cesária concede, mas só mais uma, indica com o dedo.

Por fim olha o público e diz: “Obrigada e até amanhã!” Gostávamos muito, sinceramente. Como um ciclo que se fecha abandona serenamente o palco debaixo de uma imensa chuva de aplausos. E como um ciclo que se abre perguntamos: Obrigada Cesária, podemos começar o espectáculo a partir daqui?



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