Ciclo Tiago Guedes 2003-2013 – 10 anos de Materiais Diversos

Ciclo Tiago Guedes

10 anos de Materiais Diversos

No dia 12 de Novembro o Espaço Alkantara acolheu a reposição do primeiro espectáculo da carreira coreográfica de Tiago Guedes, intitulado Um Solo. A RDB esteve lá e conversou com o Tiago no âmbito do Ciclo 2003 – 2013 | 10 anos de Materiais Diversos que arrancou com este espectáculo e que foi concebido para comemorar e homenagear o percurso dos últimos dez anos do coreógrafo que é também o director artístico da Associação Materiais Diversos.

Este Ciclo acontece exactamente dez anos após a estreia do emblemático solo Materiais Diversos que na bagageira traz já recordações da passagem por 13 países de 3 continentes diferentes, tendo sido exibido mais de 200 vezes. Até ao dia 14 de Dezembro é em Portugal que se concentram as atenções através deste Ciclo que propõe a reposição de 3 das principais peças do coreógrafo bem como traz até ao público português a oportunidade de ver a estreia de um novo espectáculo: Hoje. Um Ciclo que vai percorrer diversos espaços culturais de referência a nível nacional e que têm sido importantes parceiros no decorrer destes últimos 10 anos.

“Se calhar começo por explicar o porquê deste Ciclo, nesta altura.”, iniciou o Tiago. “Na verdade eu não fazia uma peça desde 2008 porque estava a precisar de me afastar um pouco do meu trabalho, distanciar-me para perceber para onde é que eu podia ir e o que é que podia acontecer à volta dele. Desde 2008 que o meu foco artístico tem sido desenvolver a Associação Cultural Materiais Diversos, a qual dirijo, nomeadamente o Festival Materiais Diversos. Tenho procurado tornar a estrutura muito mais aberta a outros artistas que têm aproveitado a dinâmica que fomos criando ao longo desde 2003 e este ano decidi voltar a fazer uma peça nova que estreia nos dias 6 e 7 de Dezembro na Culturgest.”

Ciclo Tiago Guedes 2003-2013 - 10 anos de Materiais Diversos

O Tiago falou-nos também da reposição do solo Materiais Diversos que, nos dias 29 e 30 Novembro, vai ser dançado por outra pessoa pela primeira vez. Nestes dias será o bailarino David Marques que irá dar vida a este solo, que assinala igualmente 10 anos de existência, no palco do Teatro Nacional D. Maria II. No dia 1 de Dezembro, terceiro dia da reposição do solo, será já o próprio Tiago a pisar o palco do Teatro Nacional.

Em relação ao espectáculo novo, o Tiago confessou: “Na realidade estou a fazer uma peça como se estivesse a fazer a minha primeira peça, no sentido em que é a peça mais coreográfica de todas. É uma peça completamente agarrada à dança e à fisicalidade”. Tiago explicou que, quando começou a fazer as suas peças, havia como que uma recusa em relação à dança, no sentido em que estava muito agarrado à questão de formação – a um certo tipo de formação – e desenvolvera um olhar muito crítico em relação à mesma. Assim, os primeiros trabalhos desenvolvidos pelo coreógrafo aconteceram de alguma forma para dar resposta a outras coisas que lhe interessavam, nomeadamente sobre a relação da dança com outras artes como o teatro e as artes plásticas. “Esta peça agora é completamente agarrada à dança, é quase como se tivesse tido de passar por todas essas experiências para agora fazer esta peça.”

Por ocasião deste Ciclo é também lançada nas livrarias portuguesas a monografia Instantanés 01 – Tiago Guedes, uma publicação inteiramente dedicada ao trabalho do coreógrafo pelo Centre Pompidou-Metz com textos do jornalista e crítico de arte Tiago Bartolomeu Costa, que também esteve presente no Espaço Alkantara no dia 12. Este livro é o primeiro de uma colecção intitulada Instantanés que depois seguiu com mais dois volumes sobre outros dois coreógrafos: Hubert Colas e Fanny de Chaillé. “O livro surgiu por ocasião de uma mini retrospectiva do trabalho do Tiago organizada pelo Centre Pompidou que procurou pensar a carreira artística do coreógrafo de uma forma mais ampla e tentando explorar as questões que atravessavam a obra do Tiago, como é o facto de o trabalho de o Tiago ter surgido num contexto em que a dança se posicionava como uma espécie de campo de batalha com as outras artes. Um Ciclo que foi pensado em articulação com o Centro de Arte Contemporânea de Lorraine e também com a Faculdade. “, explicou o autor. O livro foi criado com o objectivo de criar linhas de leitura para um conjunto de obras das quais algumas acabam por já não estar em circulação como o Trio (2005), a Ópera (2007) e também aquela que era até hoje a última peça, a Coisas Maravilhosas (2008).

Tiago Bartolomeu desvendou ainda um bocadinho da essência desta obra literária: “O livro tenta dar pistas, mais do que para o entendimento ou para a compreensão da obra do Tiago, mas para a sua inscrição. Em primeiro lugar o Tiago é ainda muito novo para se fazer uma retrospectiva e, em segundo lugar, não tem uma obra assim tão vasta que faça com que seja assim tão difícil aceder-lhe e interpretá-la. Mas foi pela efemeridade e pelo lado volátil da própria criação coreográfica que se achou que as pistas que eram dadas no livro, e que algumas delas são recuperadas para este Ciclo, poderiam de algum modo distinguir o trabalho do Tiago. Muito fruto de uma revolução que começou a acontecer em Portugal a partir do ano 2000, motivada pelo surgimento de novos apoios públicos e de novas plataformas para a apresentação da dança, como era o caso das Danças na Cidade, o trabalho da dança deixou de ser um movimento que existia só por si para passar a ser um movimento que se questionava profundamente e questionava-se a tal ponto que por exemplo nas duas primeiras peças do Tiago os finais são: a Um Solo termina com um retracto, e a Materiais Diversos com a inscrição do nome do intérprete na parede.”

Ciclo Tiago Guedes 2003-2013 - 10 anos de Materiais Diversos

O autor focou o facto de que também o trabalho desenvolvido pelo coreógrafo tem vindo a evoluir bastante e, se inicialmente era pensado apenas por ele, actualmente já é pensado de uma forma totalmente diferente e por mais pessoas em simultâneo. O tempo que passou desde a peça Coisas Maravilhosas até agora foi um tempo muito rico que permitiu unirem-se artistas em residências artísticas, fazerem-se teatros e construir-se um Festival. Tudo isto tem contribuído para que a Associação Materiais Diversos seja hoje mais ampla e esteja aberta a outros artistas, o que culmina nesta nova peça que, segundo o autor do livro: “É uma peça que vem agora construir-se muito a partir daquilo que são as memórias muito físicas dos próprios bailarinos. Ainda faltam algumas semanas até à estreia da peça e este livro, que foi feito em 2010 e que em França foi lançado no início de 2011, já apontava para tudo isto. Agora, provavelmente, também ele precisa ser pensado porque esta peça tem permitido reler algumas das questões que estavam menos definidas noutras peças e que agora surgem questionando o próprio coreógrafo – como é que eu repito, como é que volto a fazer, como é que eu acrescento, e como é que eu penso o meu próprio movimento.”

Apresentado o Ciclo, os jornalistas presentes no encontro tiveram oportunidade de colocar algumas questões:  (as perguntas que se seguem são da autoria de vários intervenientes)

– Segundo as informações a que tivemos acesso, os conceitos de caos e incerteza, ligados a esta temática mais social dos tempos que correm, são conceitos explorados na sua obra. Nesse sentido como é que surgiu a ideia de fundir a dança com a sociologia e com a arquitectura? Toda essa simbiose, como é que surgiu?

Tiago Guedes: Hoje em dia as pessoas estão engajadas socialmente de uma forma muito mais activa e os artistas têm algo a dizer com as suas obras, que de alguma forma espelham o que está a acontecer e o que nós estamos a viver. O que eu senti foi que, estando envolvido socialmente no que se está a passar no país e nas questões das manifestações, seria muito interessante eu tentar perceber como é que eu podia transformar todo esse material, nomeadamente o material que tem potência coreográfica. Ou seja: quando as pessoas todas se juntam o que é que acontece, como é que os corpos se transformam, que fisicalidade é que estes corpos ganham? O meu trabalho foi tentar perceber o que é que eu posso dizer e o que é que eu posso acrescentar com um acto coreográfico. Foi a partir daí que achámos interessante – eu e a equipa artística que está a trabalhar em conjunto comigo, já que esta peça é minha mas é feita em co-criação com 7 intérpretes que também são criadores – trabalhar acerca disso. Acho que hoje em dia há muitas maneiras de nos exprimirmos acerca do que é que está a acontecer e o bom que é podermos, através das nossas disciplinas artísticas, ter uma palavra a dizer!

– Para o Tiago constituiu um desafio que nunca tinha abraçado. Isto foi algo que foi amadurecendo ao longo destes 5 anos?

Tiago Guedes: Sim, esta pausa grande que eu fiz foi uma espécie de pacto comigo próprio: eu só iria fazer uma peça outra vez quando sentisse a pulsão de o fazer. Quando comecei a pensar que seria interessante voltar a fazer uma peça, achei que seria muito mais interessante se esta fosse agarrada àquilo que eu sou hoje e ao que é que as pessoas que estão à minha volta também o são.

– A peça já está acabada?

Tiago Guedes: Faltam três semanas! (risos)

– Pode falar-nos um pouco sobre o processo criativo, dessa troca de ideias que foi acontecendo e explicar quais foram os pontos mais importantes na construção da peça?

Tiago Guedes: Nós começámos a trabalhar muito com uma análise visual das manifestações físicas na rua, tanto imagens fotográficas como imagens filmadas. Tentámos perceber – quase como se estivéssemos a ver de cima – como é que as pessoas se organizam a nível espacial – como é que elas vêm de vários sítios e se encontram numa rua por exemplo, e também como é que elas estando paradas num sítio, numa manifestação, como é que os seus corpos se transformam. Os corpos per si, e a relação com os outros. A relação do grupo, dentro do grupo, e a relação com o outro, que muitas vezes pode ser a polícia ou um edifício por exemplo. A partir daí começámos a trabalhar essa fisicalidade abstractizando ao máximo. Ou seja, esta peça não pretende ser, de todo, uma peça documental.  É uma espécie de abstractização a partir destas análises, destas confluências sociais, reescrevendo-as coreograficamente. Ou seja, elas são uma espécie de input, são o início para o nosso trabalho. A peça poderá ser vista como uma coreografia puramente abstracta com um tipo de intenção e fisicalidade que reporta a um certo estado mais social.

Também a nível cenográfico estamos a trabalhar com uma matéria que é completamente móvel. Na realidade são 80 colchões em cena e portanto estamos também a trabalhar com esta ideia do espaço que é inconstante. Isto é, quando pisamos não sabemos muito bem onde é que pomos os pés, o que é também um bocadinho o sentimento que existe hoje: Nós não sabemos muito bem onde pisar, e que tipo de terreno é que vamos pisar. Essa ideia também foi transformada para a cenografia e tem também implicações ao nível da relação dos intérpretes e da forma como o movimento está a ser criado.

– E em termos de recursos, sabemos que tem música ao vivo. Tem outros?

Tiago Guedes: Sim, tem música ao vivo, do Lorenzo Senni, que é um músico italiano de electrónica. Ele trabalha como se tivesse trabalhado nos anos 80, mas nos dias de hoje. Não tem texto, não tem vídeo, mas tem música ao vivo, tem os 7 bailarinos e uma cenografia que é muito simples mas muito complexa ao mesmo tempo, com 80 colchões em cima do palco.

O Tiago concluiu este encontro dando-nos a conhecer a programação do Ciclo e houve igualmente espaço para um agradecimento àqueles que têm sido os parceiros importantes durante estes últimos 10 anos, e que são também os locais por onde o Ciclo vai marcar presença: Espaço Alkantara (Lisboa), Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa), Teatro Nacional São João (Porto), Teatro Virgínia (Torres Novas) e Culturgest (Lisboa).

Ciclo Tiago Guedes 2003-2013 - 10 anos de Materiais Diversos

Um programa vasto que percorre Portugal quase de Norte a Sul, e que nos dá a conhecer esta forma tão singular de abordar a dança na qual as experiências corporais se prestam menos a restrições formais, acabando por ter a capacidade de nos libertar do papel estanque de espectador. Até 14 de Dezembro o Ciclo compõe-se por 3 reposições e uma estreia e, em algumas sessões, o público é ainda brindado com a possibilidade de conversar com o coreógrafo Tiago Guedes após as exibições. O Calendário do Ciclo em baixo:

Um Solo

12 Novembro, ter | 19h30*
Espaço Alkantara, Lisboa

7 Dezembro, sáb | 18h30 e 19h30
Culturgest, Lisboa
30min | M/3 | entrada livre
*Conversa com o coreógrafo e beberete após o espectáculo

Materiais Diversos

29 e 30 Novembro, sex e sáb | 21h15 (dançado por David Marques)
1 Dezembro, dom | 16h15 (dançado por Tiago Guedes)*
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
50min | M/3 | 12€ (descontos aplicáveis)
*Conversa com o coreógrafo após o espectáculo

Matrioska

14 Dezembro, sáb | 14h30 e 16h30
Culturgest, Lisboa
40min | M/6 | 3,5€ (famílias) / 2,5€ (grupos organizados)

Hoje

30 Novembro, sáb | 21h30 (ANTE-ESTREIA)
Teatro Virgínia, Torres Novas
7,5€ (descontos aplicáveis)
6 e 7 Dezembro, sex e sáb | 21h30 (ESTREIA)*

Culturgest, Lisboa
12€ (descontos aplicáveis)
13 e 14 Dezembro, sex e sáb | 21h30

Teatro Nacional São João, Porto
75min | M/12 | 7,5€ a 16€ (descontos aplicáveis)
*Dia 7 de Dezembro, há conversa com os artistas após o espectáculo

A monografia Instantanés 01 – Tiago Guedes estará disponível para venda (PVP12€) nos locais de apresentação e em diversas livrarias em Lisboa e no Porto, como também passível de consulta em Bibliotecas académicas e especializadas.

 

Fotografias de Catarina Sanches 



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