Clarice had a little lamb

Internet, cinema e mémés.

O advento da Internet e, mais tarde, dos blogues, veio permitir que inúmeros cidadãos anónimos pudessem compartilhar as suas opiniões sobre os mais variados temas com um sem número de pessoas. Como são apenas isso – opiniões – valem o que valem; cabe a cada um absorvê-las da maneira que melhor entender.

Depois de uma primeira vaga, Portugal assistiu a uma segunda, há um par de anos atrás, de sites e e-zines (electronic magazines, publicações disponíveis num alojamento na internet) dedicadas aos mais variados temas. Foi nessa altura que surgiu uma e-zine de seu nome Clarice Had A Little Lamb, situada no endereço www.claricehadalittlelamb.net e dedicada exclusivamente ao cinema. Actualmente, pode-se orgulhar de ser a única dentro do seu género, mas não é por isso que se descuida na sua qualidade.

No entanto, a Clarice Had A Little Lamb (CHALL) não é o que à primeira vista pode parecer: mais do que uma e-zine de cinema, é uma e-zine sobre cinema. Significa isto que não se limita à crítica e à análise das variadas obras de sétima arte que povoam o mercado internacional; vão mais além, dissecando o prazer de ver e sentir o cinema e o próprio cinema em si, como qualquer cinéfilo que se preze.

Talvez esta atitude seja reflexo de uma maior sensibilidade feminina, uma vez que a CHALL apresenta essa particularidade: a de ser (até há bem pouco tempo) uma publicação exclusivamente feita por mulheres. Mas não se pense que isto indique um público-alvo essencialmente feminino. Na verdade, dirige-se claramente para todos os cinéfilos e os amantes de cinema, de ambos os sexos e de todas as idades.

A Rua de Baixo esteve com as responsáveis pela CHALL, para uma divertida conversa acerca da Internet, do cinema e de mémés.

RDB: Afinal de contas quem é a Clarice?

Joana Linda – Essa é uma dúvida que também nos assombra de tempos a tempos. Numa já mítica conversa entre mim e a Gabriela aqui na redacção, a única coisa que parece ter ficado clara é que a Clarice é um ser que se posiciona algures entre a ovelha e o agente do FBI. Ou, como ela diz, “possivelmente é um alter-ego que invade quem passa pelo projecto através de um processo de méméficação”.

RDB: Como surgiu o cinema nas vossas vidas? E como apareceu essa ideia de criar uma e-zine dedicada exclusivamente à 7ª arte?

JL: A Clarice apareceu como tudo tem o hábito de aparecer na minha vida, de repente e sem explicação aparente. Acordei um dia e pensei: “E se eu fizesse um site sobre cinema?”. A ideia acompanhou-me durante o resto do dia e como há noite ainda não me parecia completamente descabida, disse: “E porque não?”.

O cinema sempre foi algo que me fascinou. Sou daquelas pessoas que ainda continua a sentir um arrepio na espinha quando se senta na sala de cinema. Quando era miúda o meu sonho era ser actriz, depois cresci, experimentei essa coisa de representar e achei que era pouco, o que eu queria mesmo era realizar filmes! Depois voltei a crescer e a achar que isso de fazer filmes não era assim tão simples.

Gabriela Ferreira: Cresci com o cinema de centro comercial e com o clube de vídeo do bairro onde alugava desde filmes. Só na altura do secundário é que percebi que o cinema era mais do que algo para passar o tempo e foi aí que me comecei a interessar por ele de outra forma. A Clarice foi uma ideia da Joana que aceitei de imediato porque enquanto leitora era algo que eu iria ler e enquanto “fazedora de textos” me daria prazer.

Helena Correia: O cinema surgiu na minha vida aos 4 anos quando fui com a minha mãe pela primeira vez a uma sala de cinema, ver a “Branca de Neve”. É das melhores recordações que tenho. Hoje, ver filmes é um prazer. Também faço parte do grupo de pessoas a quem nunca passou pela cabeça trocar uma ida ao cinema por ficar a ver filmes no computador e ir sozinha ao cinema à tarde continua a ser uma terapia perfeita.

RDB: A CHALL contava, até há bem pouco tempo atrás, com um grupo de trabalho exclusivamente feminino. Foi uma opção propositada ou apenas fruto das casualidades?

JL: Foi fruto da casualidade e da disponibilidade das pessoas que foram contactadas. Quando resolvi pôr em prática a ideia de um site de cinema um pouco diferente de todos os outros, sabia que o sucesso do projecto ia depender das pessoas que escolhesse para escrever os textos.

Agora a história de como tudo começou… Em 2003 organizei uma exposição de fotografia no castelo de S. Jorge e a Gabriela foi-me entrevistar. Foi assim que nos conhecemos. Um ano depois, a Gabriela teve de escolher um assunto para a sua cadeira de documentário na universidade e escolheu-me a mim. Esse grupo de trabalho era constituído por mais três meninas, a Ângela, a Patrícia e a Margarida. Como nos demos todas muito bem resolvi convidá-las para fazerem parte do projecto Clarice. A Margarida não tinha tempo, mas as outras disseram logo que sim. A Ângela e a Patrícia tiveram mais tarde de abandonar a redacção, mas a Gabriela permaneceu de pedra e cal e tornou-se o meu braço direito no maravilhoso mundo dos mémés. A Diana, que já tinha escrito algumas coisas para nós, e a Helena, vieram ocupar os lugares que ficaram vazios. O Diogo Bento respondeu ao nosso pedido público de colaboradores para a redacção e tem-nos ajudado por enquanto, por falta de tempo, apenas nas questões técnicas.

GF: Faz-me até uma certa confusão que alguém olhe para a Clarice como um projecto feminino só pelo facto de ser feito maioritariamente por mulheres. É verdade que na Internet portuguesa, a maioria dos projectos que se dedicam ao cinema são feitos por homens e que a Clarice nesse ponto marca uma certa diferença, mas para mim não é mais do que isso. Aliás, cada uma de nós tem perspectivas diferentes sobre muitas coisas e em algumas eu até admito que tenho pensamentos machistas (risos). De resto, acho que apresentamos visões do cinema que não são nem femininas, nem masculinas. Até porque pelo feedback que temos, a Clarice é mais lida por homens.

RDB: A escrita cinematográfica em Portugal está limitada à pouca imprensa especializada que existe. Como é que a CHALL se vê neste panorama?

JN: A Clarice surgiu também da minha vontade de preencher um espaço que parecia vazio. Um espaço onde as pessoas podem dizer que gostam muito do Godard, mas que também gostam muito daquele filme para comer pipocas que passou na TVI. O ser humano é complexo mas a crítica cinematográfica tem o terrível hábito de o simplificar, ou seja, se sou um intelectual só posso gostar de filmes intelectuais, ou o inverso. Há um grande preconceito cultural em quase tudo neste país, um grande pudor de dizer que se gosta disto ou daquilo quando disseram no jornal A ou B que não prestava. Nisso somos ainda muito atrasados, queremos a todo custo distanciarmo-nos da cultura de massas como se isso fizesse de nós pessoas melhores. Não faz, faz apenas de nós pessoas com horizontes mais fechados. Há beleza em tudo, é preciso é saber identificá-la. Eu queria um projecto que fosse diferente de tudo isso, onde a Bridget Jones, o Jules e o Jim e o Leatherface fossem com o Harry Potter ao circo.

GF: Entre ver a Clarice como um projecto profissional ou um projecto amador – no sentido de ser feito por amor ao cinema – prefiro a segunda opção. Este tipo de projectos acaba muitas vezes por se extinguir por falta de apoios, porque quem os faz quer ir mais longe e quando estagna desiste, mas com nove meses de existência ainda acredito que podemos lutar contra os condicionalismos profissionais e os lobbys. Espero que assim seja por muito tempo, que a Clarice cresça fiel aos seus princípios e que os leitores a acompanhem.

RDB: O aparecimento dos blogues veio permitir que um maior número de pessoas desse a conhecer os seus mais diversos pensamentos e ideias, acerca dos mais variados assuntos. O cinema é um dos temas mais recorrentes na blogosfera, que já tem uma larga fatia de “cine-blogues”. É um caminho válido e alternativo, ou apenas um suporte artificial?

JL: Os blogues têm tanto de vantagens como de desvantagens. Por um lado, tornaram mais amplo o conceito de liberdade de expressão e de imprensa, mas por outro banalizaram um pouco a escrita. É o espelho da célebre expressão “everybody’s a critic”. Sem nenhum tipo de filtro ou de selecção, qualquer pessoa se pode auto-nomear crítico ou comentador e são muitos os que o fazem. As opiniões multiplicam-se como ervas daninhas, muitas vezes provenientes de pessoas que não têm qualquer conhecimento daquilo que estão a falar. O facto de ser fácil expressar uma opinião banaliza um pouco a de quem se dedica verdadeiramente a um assunto e a formular um discurso com pés e cabeça. No entanto, isso não é coisa que me preocupe e na verdade até acho saudável. Os blogues são bons mas não chegam, acho que agora se começa a sentir a falta de algo mais coeso, mais organizado, algo que vá além do post espontâneo e livre de preocupações. Parece-me que os sites estão a voltar em força porque estão a apresentar uma alternativa, o compromisso.

GF: É sempre válido quando tens um espaço onde és realmente livre de expressares a tua opinião e onde tens a possibilidade de chegar a um número considerável de pessoas. Das leituras que faço, grande parte das vezes, identifico-me muito mais com as opiniões de pessoas de blogues do que com as dos críticos de cinema dos meios oficiais. Há opiniões sobre filmes que vou imediatamente procurar em certos blogues, porque admiro o que essas pessoas pensam e escrevem, só depois leio as críticas dos jornais e revistas.

HC: Acho que hoje em dia tudo passa pela web, até a mercearia do Sr. Manel já tem um blogue. Se queremos que o nosso trabalho seja visto, é natural que a opção seja colocá-lo na web.

RDB: Uma das características da e-zine é a promoção de passatempos e actividades curiosas e interessantes. Quais são os projectos para o futuro, até onde vai crescer a CHALL?

JL: A Gabriela diz que ainda vamos conquistar o mundo e criar o dia mundial da Clarice em que todos saem à rua vestidos de ovelha! Falando um bocadinho mais a sério, queremos essencialmente criar um público próprio, um público que nos leia e que ao mesmo tempo entre nas nossas loucuras, como as festas que já temos programadas mas que são ainda segredo. Queríamos que a Clarice não fosse só sinónimo de jornalismo cultural mas sim de uma forma de ver o mundo e de te posicionares dentro da produção e divulgação de conteúdos culturais. Pessoalmente, embora saiba que é um sonho que todas partilhamos, gostava muito de um dia ter um pequeno cinema da Clarice onde passaríamos os nossos filmes, um espaço público onde tudo seria permitido, onde poderias esquecer a realidade e o mundo lá fora e, sei lá, andares mascarado de Shrek o dia inteiro.

RDB: O próprio cinema em Portugal é algo espartilhado. António Pedro Vasconcelos disse uma vez que “o cinema português é tão conhecido lá fora quanto o cinema esquimó”. Também partilham desta opinião? O que deveria ser feito para alterar este cenário?

JL: Sim, é verdade. Falta a Portugal uma identidade cultural, mas não é só junto do público estrangeiro, esse fenómeno acontece também internamente. Nós não acreditamos no nosso próprio produto, por isso muito dificilmente o poderemos exportar com sucesso. Uma coisa não se pode afirmar apenas porque é de uma nacionalidade diferente, tem que se afirmar porque é tão bom quanto o que se faz no país X ou Y. A qualidade tem que se sobrepor à nacionalidade e a qualidade passa por fazer cada vez mais e melhor. Portugal parece um pouco o país dos cegos onde quem tem um olho é rei. O país é tão pequeno que o difícil não é ser famoso, é não o ser. Um mínimo de qualidade e já chegas aos jornais, à televisão. Isso não chega para teres sucesso internacional. Há coisas muito boas a serem feitas em Portugal em todas as áreas artísticas, mas também é verdade que uma andorinha não faz a Primavera e que um passaporte, seja ele de que país for, não é por si só uma razão para que alguém ouça aquilo que tens a dizer.

HC: Tive um professor que estava sempre a dizer que “o Cinema em Portugal não é uma indústria, é um artesanato” e é verdade. Além disso, quando filmes bastante elogiados estreiam apenas em salas de cinema no Porto, Lisboa e pouco mais, como é suposto o cinema português chegar lá fora se nem aos que estão cá chega?

RDB: Esta é uma pergunta muito ansiada: para quando a passagem para a edição em papel?

Para breve, para muito breve… Não quero revelar ainda muitos pormenores mas não estamos a pensar na edição em papel enquanto revista mas sim como livro, como objecto de coleccionador.

RDB: Como cinéfilas acérrimas confessas, tenho de fazer esta pergunta antes de terminar: se fossem para uma ilha deserta, que filme levariam convosco?

GF: Só um?! Não quero ir! Não, por favor! Possivelmente “O Exorcista” que só vi uma vez e ainda hoje morro de medo da imagem da rapariga. Atava-me a um coqueiro e obrigava-me finalmente a rever o filme. (risos)

Diana Martins Moreira: Aquele do Tom Hanks em que ele faz de Robinson Crusoé porque podia ser útil.

HC: Só um? Fazia batota e levava a box do Lord of the Rings. Com 3 filmes e todos aqueles extras nem dava pelo tempo passar.

JL: Se eu fosse para uma ilha deserta seria provavelmente para fugir de todos os filmes, não levaria nenhum.



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