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Cooking Battle “Rosmaninho aos Molhos” no Alfândega

3 chefs, 6 pratos e muita animação

Situado no número 98 da rua que lhe empresta o nome, bem no coração da capital, o Alfândega é um espaço que respira harmonia, bem-estar e tranquilidade. Foi precisamente essa atmosfera que se sentiu na Cooking Battle “Rosmaninho aos Molhos”, onde Bruno Rosmaninho, ex-chef do Alfândega, se juntou aos amigos e companheiros de profissão, Jaime Mascarenhas e António Malta (chefs residentes), para criarem um menu secreto composto por seis pratos sujeito a avaliação por todos os convidados. Um detalhe importante: ninguém sabia o que constava na ementa dessa noite, nem quem era o chef responsável por cada prato.

A expectativa era grande, dada a lotação esgotada da sala e a satisfação visível de todo o staff do Alfândega. Ana Malta, gerente do restaurante, contou-nos em entrevista como surgiu o conceito das Cooking Battles: «As coisas complicaram-se imenso nos últimos anos porque os nossos clientes são classe média, que foi quem levou o grande corte, e isto foi uma maneira de transmitir às pessoas que não íamos desistir. Vamos fazer coisas que sejam muito divertidas e muito boas para as obrigar a sair de casa. O Alfândega é um sítio para estar bem, para estar tranquilo. Aqui apetece estar e é isso que queremos transmitir». Esta edição, sob o tema “Rosmaninho aos Molhos”, surgiu não só para fazer frente à crise que ainda afecta o sector da restauração, mas também para reunir amigos num ambiente descontraído e recordar as noites memoráveis que ali já aconteceram.

Para dar início ao jantar, foi servido um cocktail de boas-vindas muito fresco e aromático: gin, sumo de lima e, claro, rosmaninho. O vinho que nos acompanhou durante a noite foi um tinto alentejano D. Joana de 2014, suave e ideal para a degustação.

A primeira entrada a ser desvendada foi a­ focaccia com gravlax de salmão e mousse de queijo creme com ovas de salmão e microgreens de cebolinho, da autoria do chef António Malta. O aspecto seduz e o sabor não engana. A frescura do salmão destaca-se entre a cremosidade do queijo creme e a textura das ovas. Muito, muito bom.

Seguiu-se a segunda entrada, desta vez assinada por Bruno Rosmaninho: empadinha de pato com cogumelos salteados e rosmaninho. Sabor intenso, autêntico e caseiro. Um prato com referências outonais que reconforta e apetece nos dias mais frios.

Foi o chef homenageado da noite que concebeu o terceiro prato: espetada de atum, courgette e ananás em pau de rosmaninho com puré de batata-doce e cebola confitada. O aroma convence de imediato. Os sabores são equilibrados, evidenciando um perfil leve e delicado em contraposição com a cebola que confere a acidez necessária ao prato. Absolutamente delicioso.

O chef Jaime Mascarenhas estreou-se na “competição” com a carne desfiada com rosmaninho, chouriço picado e ovo sobre waffle com puré de ervilhas e microgreens de ervilha e salva. Este prato é uma bonita homenagem às tradicionais ervilhas com ovos escalfados, elevando esta iguaria nacional a um patamar distinto. A descontrução, a apresentação e o autêntico sabor português destacam-se neste jantar aromático.

Por fim, as sobremesas. Baklava (pastel de massa filo, frutos secos e mel) com nata ácida de lima e rosmaninho foi a proposta de Jaime Mascarenhas. O carácter doce do pastel contrasta na perfeição com a acidez da lima e o aroma da canela polvilhada. A combinação de texturas é, sem dúvida, o ponto forte deste quinto prato.

Para encerrar, António Malta ofereceu uma deliciosa criação: gelado de chá verde com pralinê (sementes caramelizadas) de sésamo, chia e rosmaninho. Um dos nossos preferidos do menu pelo toque de frescura e pela junção de ingredientes mais improváveis. Perfeito para equilibrar o palato e encerrar o jantar em grande.

Alguns minutos depois da recolha dos “boletins de voto”, Ana Malta revelou os resultados. António Malta ganhou o primeiro lugar, com a­ focaccia. Em segundo ficaram a espetada de atum e o gelado de chá verde. Contudo, os jurados da RDB asseguram que esta eleição foi apenas uma brincadeira para animar o jantar e que qualquer um dos pratos poderia ser o justo vencedor.

Ainda houve espaço para mais um momento único nesta batalha amistosa. Bruno Rosmaninho, que para além de chef é músico, trocou as facas pela guitarra e tocou algumas músicas que deixaram a sala completamente rendida ao seu talento que, pelos vistos, ultrapassa a cozinha. Este episódio memorável apenas comprovou a cumplicidade entre toda a equipa e os clientes que, segundo Ana Malta, já são amigos do Alfândega.

Foi dessa proximidade e do gosto pelos encontros prolongados à mesa que surgiu a ideia de abrir um restaurante. «O António é meu sobrinho, é chef e foi quem me desafiou, fizemos uma sociedade e isto arrancou. A nossa família gosta muito de comer, somos alentejanos, passamos horas à mesa, é uma coisa muito importante para nós», confidencia Ana. Segundo a gerente, o Alfândega distingue-se de outros na cidade pela atmosfera característica do espaço: «Aquelas coisas que irritam nos restaurantes (abrir e fechar àquelas horas fixas), o frenesim para as mesas rodarem… Aqui isso não existe. Temos tentado lutar, às vezes é um bocadinho complicado, porque facturar é muito importante, mas tentamos não cair nisso. A ideia não é as pessoas estarem como em casa, mas sentirem-se como nossas convidadas, sentirem-se bem». Ana acrescenta ainda que «há qualquer coisa aqui que faz com que as pessoas se sintam num sítio muito especial, muito à vontade, parece que já cá vêm há muito tempo, mesmo que seja a primeira vez».

A cozinha simplificada, clean, leve, com influências mediterrânicas mas assente nas origens torna o Alfândega um local agradável que convida à partilha de comida em longos jantares de amigos. Os jantares de grupo são uma das grandes apostas do espaço, não só pelos vários menus que apresenta, como também pela possibilidade de ficar a conviver fora de horas. «Temos a tendência de não ser só um restaurante, a nós próprios não nos chega só isso. Como o António é DJ, fazemos festas quando temos um grupo com número de pessoas suficiente ou quando nos apetece e sentimos que vai ser uma noite divertida. Não existe programação, somos anti-programação, mas normalmente estas festas acontecem mais aos fins-de-semana, sendo possível fazer também durante a semana», revela Ana Malta.

Com portas abertas há 8 anos, o Alfândega provou saber como virar as costas à crise e proporcionar noites que se destacam pela criatividade dos responsáveis. Para já, não há data prevista para uma nova edição das Cooking Battles, mas no próximo mês será lançada a nova carta que fará a ligação à actual com os pratos de partilha, acrescentando mais seis novos pratos, bem como uma secção de saladas e crepes doces e salgados.

Nesta viagem gastronómica, ficámos retidos (ou rendidos) no Alfândega mas só temos coisas boas a declarar: encontrámos um espaço acolhedor, com uma identidade muito própria, onde se come muito bem. É, sem dúvida alguma, para voltar a este restaurante encantador da cidade de Lisboa.

Horário de funcionamento:

Jantares de segunda a sábado a partir das 19h

R. da Alfândega, 98

1100-187 Lisboa

 

Fotografia de Ricardo Freire Mateus 



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