rdb_danielaponto_header

É daniela. Ponto Final.

Quem conta um conto, acrescenta um ponto. E, às vezes, quem se mete no Design de Moda, também

A imagem irreverente, de traços Tom Boy, não deixa adivinhar a personalidade calma e apaziguadora de Daniela Duarte. Com um cunho pessoal de uma imagética algo retro, esta Sanjoanense não tem passado despercebida aos olhos daqueles que estão atentos ao talento que vem surgindo no design de moda nacional.

A Rua de Baixo resolveu partilhar uma limonada e dois dedos de conversa para ficar a saber um pouco mais sobre esta nova criadora.

Elucida-nos: quem é a Daniela Duarte?

A Daniela Duarte é uma Sanjoanense, com 25 aninhos acabadinhos de fazer e que nasceu no mundo dos trapos, adora o mundo dos trapos e que não era capaz de fazer mais anda senão andar no meio dos trapos.

E de onde vem todo esse amor pelos trapos?

A minha avó é costureira. Eu lembro-me perfeitamente de assistir às provas das senhoras e de folhear as revistas da Moda (risos) e basicamente é isso. Sempre estive no meio dos trapos. O meu pai, tal como o meu avô, também teve uma fábrica de calçado e acabei por estar sempre nesta área, no meio disto. Fiquei com o bichinho da Moda, vá (risos).


Dado o teu background, como é que chegaste à daniela.?

Após terminar a Licenciatura em Design de Moda, em Castelo Branco, estive a estagiar numa empresa em Fafe e, por brincadeira, tinha comentado com um amigo meu, brasileiro e estagiário, que tinha visto o filme sobre a Chanel, saído na altura. Há uma expressão em que ela diz “Isto é Chanel. Ponto final.”. E o Pedro disse-me “Já viu, Dani, que máximo? Você é Daniela Duarte. Ponto Final.”. Gostei do nome. Como “Daniela Duarte.” é muito comprido, não soava tão bem, comecei a pensar e a escrever. Primeiro o “Daniela”. Depois o pontinho. E assim ficou. Daniela, ponto final. Sou eu, ali, em cada peça. Não há histórias. Sou eu mesma.

E se a daniela. fosse uma pessoa, como é que a caracterizavas? Quais são os seus traços principais?

É uma tipa um bocado confusa da cabeça mas é muito descontraída. Vive muito tudo o que a rodeia. Tudo o que a rodeia é motivo para fazer alguma coisa. Daí a mistura de estampados. Eu sou fã das coisas das velhinhas, das feiras de antiguidades. Adoro isso! E não tenho problema nenhum em entrar numa casa de tecidos que tenha estampados que já ninguém quer, mesmo arrumados ao fundo, num canto. É onde encontro as coisas mais giras para mim. Deliro com aquilo e sou incapaz de vir embora sem trazer nem que seja um bocadinho! Tenho que trazer!

Quem e o que é que te inspira?

Eu crio personagens na minha cabeça. Eu vou na rua e estou noutro mundo. Olho, mas não vejo ninguém. Já me correu mal algumas vezes porque as pessoas ficaram um bocadinho chateadas (risos)… Mas não é por mal! É mais forte do que eu. Tudo na rua, para mim, é um motivo. Há um pormenor que me chama a atenção e eu desligo completamente. E esses pormenores, essas coisinhas que vou absorvendo, fazem com que eu crie uma personagem na minha cabeça. E essa personagem é um reflexo de mim mesma. Tem um nome que não é Daniela mas tem um pouco que ver com o meu estado. Cresci um bocadinho mais, agora. Tive necessidade de ser um bocado diferente (até mudei o corte de cabelo). Esta maria guri, esta personagem da última colecção de Verão, é uma miúda mais irreverente que não tem problema nenhum em mostrar estampados, em usar cores fluorescentes. Está na onda dela e ninguém tem nada que ver com isso! É um pouco assim. Uma personagem que criei mas que sou eu, ali, em fases (risos).

 

E como tem sido a aceitação do teu público?

Ao contrário do que eu estava à espera (risos), está a correr muito bem. Registei a marca no final de Setembro de 2010 e a verdade é que tudo começou pela vontade de mudar o meu guarda-roupa. Estava farta de ver toda a gente igual. Fui encontrando uns estampados diferentes e, à medida que fui comprando, também havia pessoas que me davam mais um bocadinho, porque queriam era despachar o stock. Então, tendo o hábito de fotografar tudo aquilo que faço, não para vender mas para mostrar o meu trabalho (aliás, quando inicialmente criei o facebook foi apenas para mostrar portfólio), à medida que fui publicando uma blusa, um vestido, uma saia, comecei a ter encomendas. A primeira peça que pus no facebook, acabei por vender duas: uma foi para o Porto e outra para Londres. Percebi que, se calhar, fazia sentido apostar e levar isto mais a sério. Que, se calhar, havia mais danielas para vestir. E depois tive o incentivo não só da família como da Ana Alves (da Bling Bling), que insistiu muito, que acreditou muito no meu projecto e que achava que tinha tudo para ser um sucesso. Tinha era que perder o medo. E já perdi um bocadinho (risos). São peças de edição limitada. Aliás, a maior parte das peças são peças únicas, porque são estampados com pequenas quantidades de tecido. Só agora é que perdi o medo para pôr a colecção de Verão à venda, numa loja, porque até aqui era tudo por encomenda (através do facebook e do email). Ao fim de 15 dias tive que repor peças porque já estavam esgotadas! É muito bom! É óptimo!

Sentiste alguma resistência ou estranheza por fazeres algo tão diferente?

Eu acho que cada vez mais à procura pelas coisas diferentes. Tenho senhoras de sessenta anos a usar os meus lenços assim como tenho jovens de vinte. As pessoas vivem muito a imagem, aquilo que passamos para os outros. Agora há muito a onda do vintage e, quer eu queira quer não, pelo menos pelo tipo de estampados que uso, faz lembrar um pouco essa onda. Mas não é vintage. Ainda que os tecidos existam há não sei quanto tempo, estou a fazer algo agora. As pessoas querem coisas diferentes. Tanto que acho que há cada vez mais jovens a procurar formação sobre a modelagem e a técnica para poderem fazer as coisas em casa. Porque cansa, esta fast fashion. Há a questão do dinheiro, do valor das coisas, do valor material. Mas depois há todo um lado emocional. Se calhar fica um pouco mais caro fazer ou mandar fazer uma peça, mas sabes que mais ninguém terá algo igual.

Em que projectos é que tens estado envolvida ultimamente?

A história dos lenços começou porque eu tinha que oferecer uma prenda a uma amiga minha e ela também é assim toda fã das coisas das velhinhas (risos). Então pensei num lenço. Fiz um lenço e depois fiz mais um para mim. Aquilo até ficou engraçado e a Alexandra Moura perguntou-me “Porque não continuas?” e propôs-me vender os lenços na sua loja própria, em Lisboa. Ao início fiquei apreensiva porque ela ainda nem os tinha visto (risos), mas acabei por começar a fazer mais lenços e a publicar. Depois veio a Ana, da Bling Bling, pedir para colocar os lenços à venda na loja porque teriam saída.

Entretanto foram surgindo convites para ter as peças à venda nas lojas.

 

Já alguém te fez algum pedido menos convencional?

Tenho muitos rapazes que me perguntam “E quando é a vez de vestires os danieis?”. Só que é daniela. (risos). É complicado para mim trabalhar homem porque, mesmo durante a licenciatura, sempre tive uma linha de trabalho, como Daniela Duarte, muito masculina. Ainda que o público fosse feminino, toda a gente sempre me dizia que a colecção tinha traços masculinos. Então, trabalhar o corpo masculino é para mim muito complicado porque olho para aquilo e estou a ver uma colecção feminina. Eu tentei, em 2010, no Jovens Criadores, uma proposta de cinco formatos. Foram três femininos e dois masculinos e a coisa até correu mais ou menos. Mas não é, definitivamente, a minha onda. Sou mulher, gosto de trabalhar mulheres.

Onde podemos encontrar daniela.?

A colecção de vestuário, para já, está na Bling Bling (Porto), assim como os lenços, que também podem ser encontrados na Anthrop (Coimbra), na loja da Alexandra Moura (Lisboa) e na Gato Maltês (Faro). E claro, no facebook ou no blog, onde as pessoas podem entrar em contacto comigo. Os lenços são todos diferentes, sem repetições de cores ou estampados.

Para onde é que a marca te leva agora?

A marca está registada a nível nacional mas tenho tido muita procura e curiosidade a nível internacional. No Porto, nas peças que estão à venda, são mais os olhos e as mãos estrangeiras que mexem do que propriamente dos portugueses. Acho que os portugueses, para já, têm medo de perguntar o preço (e não é assim tão caro). E depois, só dão valor ao que é nosso se vier de fora. É Português. Mas se tem um nome estrangeiro ou qualquer coisa que aponte para aí, já vale a pena pagar. Ter a patente a nível internacional implica um investimento maior e, para já, não tenho condições para isso. Mas não sei. Não consigo parar para pensar em amanhã, não consigo planear as coisas porque têm acontecido mesmo rápido! Já a presença nesta última feira nos Açores aconteceu de ontem para hoje e tive que ir a correr ao Porto buscar lenços porque já não tinha lenços para enviar! Não tenho tido tempo para dar resposta, o que é bom. Vamos ver. Mas acho que vai correr tudo bem.

Podes revelar-nos um pouco do que está para vir?

Quero ver se começo a entrar no calendário. As coisas já estão preparadas mas, como trabalho sozinha, ainda, tudo leva muito mais tempo. Mas esta colecção de Inverno vai-se chamar “milly woods” (é a Emília dos Bosques, vá!) que é uma cachopa que se cansa deste individualismo da cidade e de as pessoas serem tão frias. De vez em quando fecha-se no mundo dela e vai para um ambiente muito mais bucólico, mais interior. Que é o que eu faço (risos)! Desligo e estou no meu bosque (risos)!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This