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Danny Boyle

O reacender do culto.

É verdade que Kate Winslet fez um brilharete na noite dos Globos de Ouro, tendo juntado os prémios para melhor actriz num filme dramático (em “Revolutionary Road”) e melhor actriz secundária (em “The Reader”). Contudo, Danny Boyle terá sido quem de lá saiu com o sorriso mais rasgado. O seu mais recente filme, “Slumdog Millionaire” (que em Portugal tem o péssimo título de “Quem quer ser bilionário?”), recebeu quatro prémios importantíssimos: melhor banda sonora original, melhor argumento, melhor realizador e melhor filme dramático.

O realizador de “Trainspotting” tinha motivos mais do que suficientes para estar radiante. Toda a gente sabe que os Globos de Ouro são, quase sempre, um excelente indício do que vai acontecer nos Óscares. Se naquele momento não se sabia ainda muito acerca dos prémios da Academia, não demorou muito tempo até que Boyle recebesse mais uma excelente notícia: “Slumdog Millionaire” foi nomeado em dez categorias, entre as quais as de melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado e melhor fotografia.

É assim que se vê nas bocas do mundo Daniel Boyle. Nascido em 1956 em Radcliffe, Inglaterra, o cineasta começou a sua carreira no teatro, passou pela televisão – onde realizou episódios de algumas séries – e só depois, em 1993, começou a trabalhar no mundo do cinema, com o seu primeiro filme “Shallow Grave”. O filme estreou comercialmente em 1995, com o escocês Ewan McGregor no seu primeiro papel importante no cinema. Logo no ano seguinte, Boyle volta a chamar McGregor para protagonizar a adaptação ao cinema de um romance de Irvine Welsh: “Trainspotting”.

Filme de culto dos anos 90 e da cinematografia britânica, “Trainspotting” catapultou para o sucesso Danny Boyle. A história controversa de um grupo de amigos, em Edimburgo, cuja principal ocupação é consumir drogas, aliada a uma forte linguagem visual e a inovadores meio de divulgação, fizeram deste filme um fenómeno de popularidade que se mantém ainda hoje.

Se se pode estabelecer facilmente um paralelismo entre “Shallow Grave” e “Trainspotting” – ambos têm personagens distantes, com as quais é difícil criar empatia, grupos de amigos pouco comuns e dinheiro que acaba por despoletar conflitos –, que poderia indiciar um “estilo Boyle”, a verdade é que o realizador inglês acabou por revelar, ao longo da sua carreira, mais versatilidade do que um estilo de autor (o que não é, de todo, um defeito; tão somente uma característica). De facto, nos filmes seguintes podemos encontrar aventuras, terror ou ficção científica.

Todavia, apesar de filmes como “Sunshine” ou “28 Days Later” terem sido bem recebidos, nunca Danny Boyle voltou a experimentar o sucesso que tivera com “Trainspotting”. Pelo menos até surgir “Slumdog Millionaire”.

Visualmente muito forte, o filme foi rodado em Mumbai, na Índia, e conta a história de um rapaz de um bairro de lata, órfão, sem educação, que chega ao fim do concurso de televisão “Quem quer ser milionário?”. O mais importante, contudo, não é a sua passagem pelo concurso, mas sim a dura história da sua vida e a omnipresente busca pela rapariga que, desde criança, ama.

A câmara de Boyle capta imagens belíssimas daquela que é a segunda cidade mais populosa do mundo, quer quando mostra o seu lado mais colorido e belo, quer quando mostra o lado mais escuro da pobreza nos bairros de lata. Aliás, é precisamente este lado menos agradável o mais interessante do filme. E a vida do protagonista, Jamal Malik (interpretado por Dev Patel), dura e, muitas vezes, violenta, já levou a que se comparasse “Slumdog Millionaire” a “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles.

A comparação tem pontos que a sustentam, mas, no seu todo, os filmes acabam por ser muito diferentes. O de Meirelles, apesar de alguns momentos de boa disposição, quer mostrar a violência das favelas, enquanto que o de Boyle quer contar uma história de amor. E, na verdade, apesar da realidade difícil que também mostra, “Slumdog Millionaire” é aquilo a que se chama um feel good movie. Isto é, um daqueles filmes que nos deixam felizes, dos quais nos lembramos com um sorriso. Isso dificilmente acontece com “Cidade de Deus”.

Mas será, realmente, “Slumdog Millionaire” um filme tão bom como parece acreditar tanta gente? E será que vai ser o grande vencedor dos Óscares, como foi nos Globos de Ouro? À primeira pergunta, a resposta é provavelmente não. À segunda, a resposta é provavelmente sim. É verdade que o cinema não tem de ser realista, mas quando um filme não se assume como fantástico, ter um argumento tão fantasioso e tão pouco verosímil é um factor contra o filme de Boyle. A realização compensa-o, mas o cinema não funciona por compensações, mas sim por um todo harmonioso.

Então, porque será provável que “Slumdog Millionaire” triunfe nos Óscares? Porque é um ano de concorrência pouco agressiva. É verdade que há filmes interessantes como “Milk”, “The Wrestler” ou “The Curious Case of Benjamin Button” – e que algum destes poderá sair da cerimónia com mais estatuetas – mas quando comparados com os dois filmes destaque do ano passado – “There will be blood” e “No country for old men” –, tanto quanto é possível fazer comparações só porque sim, o último filme de Danny Boyle torna-se um filme banal.

“Slumdog Millionaire” vai continuar a ganhar prémios, vai fazer imensos lucros no cinema e em DVD, mas muito dificilmente ficará na memória colectiva como ficou “Trainspotting”. Falamos daqui a dez anos.



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