rdb_artigo_ofilhobastardo

O Filho Bastardo

É um cliché falar-se de enfant terrible em moda, mas impossível de evitar. Surgiu mais um e a Rua de Baixo quer mostrar o seu trabalho.

É um newcomer, mas já arrasou na última edição da ModaLisboa com a colecção apresentada no projecto workstation. Duas salas só para si: uma com as peças penduradas no tecto, frigoríficos com cervejas em que os rótulos foram maliciosamente substituídos por informação relativa à colecção, alguns computadores com acesso ao seu blogue e uma segunda sala onde bandas indie-rock tocaram vestidas por si, O Filho Bastardo, aka Vítor Bastos, 23 anos, nascido no Brasil.

Chegou aos 18 a Portugal, mas “não tinha nenhuma certeza” – numa aposta ganha para já –; viveu em várias cidades, primeiro em Santarém com a família, depois mudou-se para o Algarve onde trabalhou como recepcionista num hotel até ir para o Porto e descobrir a Escola de Moda, o Citex. Depois passou pelo atelier de Lidija Kolovrat e recentemente foi emprestado ao duo conceptual alemão BLESS para um estágio em Berlim. “Vim para Berlim ver como funciona uma empresa por dentro, uma empresa que tem um processo criativo um tanto ou quanto diferente.” Ia ficar mais três meses mas afinal ficará mais quatro.

De volta à colecção que apresentou na ModaLisboa. É aquela que considera o ponto mais alto da sua carreira; tratava-se de uma aproximação irónica ao interior americano: as peças eram denim e revisitações das 501 misturadas com transparências, aspecto usado. ”O conceito da colecção era o White Trash”. Discutindo um pouco a origem desta expressão tão violenta, Vítor acrescenta que é o “nome que se dava aos trabalhadores brancos das plantações nas colónias americanas em que não haviam escravos.” Eu perguntei se eram os rednecks, os saloios radicais homofóbicos e ele disse que sim. Tudo numa abordagem irónica, naturalmente, o que nos remete para o trabalho do americano Jeremy Scott. Brinca, “Talvez eu seja o novo Jeremy Scott”. Talvez seja mesmo.

Ganhou o concurso AcrobActic – antigo Porto de Moda, edição 2008, sendo eleito o melhor com um tema ainda mais polémico: Awakenings – uma mini-colecção que consistiu num conjunto de três coordenados inspirados nas milícias populares iraquianas de origem sunita. Todos tinham a cara tapada com peças inspiradas em burkas. É isto que podemos esperar do Filho Bastardo, nome pelo qual responde e que tem origem por ruptura com a marca que inicialmente o apoiou financeiramente que era A Filha de Deus. Uma coisa leva a outra, a vontade de chocar e de não passar despercebido é assumida e assim nasce o seu conceito. E de facto diz que sim, que se sente de certa forma um filho bastardo no mundo da moda.

É claramente anti-star e anti-fashion. Por isso também gosta de Martin Margiela, o mais enigmático designer da galáxia da Moda. Mas no fundo confessa que não liga tanto ao trabalho dos outros e que tem uma relaçao amor-ódio com as roupas e com o os meandros da moda. Na música falamos de Elis Regina, trágica, de David Bowie, o resistente. Mas por quem o designer está mesmo apaixonado é pelos portugueses. Perguntei-lhe o que era melhor na cidade do Porto e em Portugal, “as pessoas, tenho muito a agradecer à cidade.”

O blogue começou o ano passado, mas é sumarento como tudo: inclui vídeos, fotos e todo o tipo de material que nos traz a identidade do Filho Bastardo. Merece visita urgente para quem quer antecipar aquele que será um nome a reter para os próximos anos.

Como sempre nestes casos, a vontade de conhecer o trabalho in loco e de comprar em primeira mão uma peça de um criador novo que causa sensação é grande, mas a realidade comercial impede-nos de avançar. Para já, apenas algumas peças estão disponíveis através do blogue, já houve a experiência numa loja temporária e está a ser negociado um corner numa loja do Porto, mas por enquanto não há mais detalhes. Embora seja um objectivo máximo viver do seu próprio trabalho, ainda está a tempo de fazer experiências e de actuar como um verdadeiro marginal.

Na agenda fica a apresentação da colecção Verão 2010, na qual começa a trabalhar assim que voltar de Berlim.“A minha maior preocupação neste momento é tentar fugir à questão do estilo, não é o meu objectivo. É claro que com o passar do tempo ele vai aparecer de qualquer forma… Mas agora estou num processo de exploração de conceitos, técnicas, formas de apresentacão… Desde que a moldura seja mantida, com o logo e o design de comunicação preto e branco minimal, posso abordar diferentes temas e formas com toda a liberdade.”



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This