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Doclisboa 2012

“É preciso acreditar”

Começou a décima edição do Doclisboa, um espaço onde se tem mais “acesso ao real” e no qual o público faz, de certa forma, um pacto com o cinema documental, “que é um pacto de liberdade”, segundo Cíntia Gil.

A RDB torna a convidar o público ao lugar de partilha do festival, com as vozes de Cíntia Gil e Susana de Sousa Dias da direcção, as quais, mais a Ana Jordão e a Cinta Pelejà se assumem como um colectivo de trabalho.

Cíntia Gil (C.G.) – A Apordoc continua a resistir e a pequena equipa dedica-se muito para que o “festival seja um lugar de acção, porque a resistência é activa e o cinema resiste activamente”.

Susana de Sousa Dias (S.S.D.) – O documentário tornou-se um meio de dar conta desta crise de uma forma muito presente e activa. Historicamente o documentário irrompe com grande força em períodos de crise e isso não é por acaso, antes é devido à força de dar a ver a realidade quando está a acontecer. E dá múltiplos pontos de vista de formas de agregar a realidade, repensá-la e reelaborá-la, que vão promover toda uma nova postura. Nesse sentido, há muito para ver, discutir e aprender.

Conquistas nesta edição

C.G. –  Em primeiro lugar, que o festival exista porque estando na situação em que estamos na Apordoc, e no país, o facto de existir um festival desta dimensão é já, por si só, um sucesso; sobretudo com o corte, de cerca de 20%, que teve nos seus meios.

Não só restruturámos o festival em termos financeiros e de produção, como também em termos de desenho da estrutura da programação do festival. O Doclisboa tem de ser aberto e rigoroso ao mesmo tempo. A qualidade e o rigor têm de existir sempre. A nível de produção é preciso uma criatividade imensa, sobretudo muita persistência e, além de tudo o mais, é preciso acreditar.

S.S.D. – “São lançadas três secções – Verdes Anos, Passagens e Cinema de Urgência – que foram concebidas de raíz para fazer parte integrante do corpo do festival”. Cíntia Gil salienta o trabalho contínuo da organização do festival – “Neste momento não há nada no Doclisboa que se faça sem ser a pensar no futuro”.

C.G. –  “Em segundo lugar, que tenhamos integrado o cinema português duma maneira tão abrangente que atravessa o festival”. À semelhança da edição anterior do festival, há um acréscimo de filmes portugueses nas várias secções.

S.S.D. – É um acto simbólico abrirmos com um filme português. (A Última Vez que vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata).

Verdes Anos  

C.G. – O número de candidaturas de filmes portugueses ao Doclisboa tende a aumentar e -por sua vez- o doclisboa tem vindo a exibir mais jovens realizadores e mais filmes autoproduzidos.

A secção Verdes Anos foi criada porque nós vínhamos a sentir que apareciam imensos filmes portugueses de jovens realizadores em formação que revelavam ideias fortes e propostas de cinema pertinentes mas que ainda precisam de maturação e de feedback, portanto decidimos criar o espaço para esses filmes fora da bolha do contexto escolar.

Passagens e Colóquio Internacional

C.G. – A secção Passagens trata de cruzamentos entre o documentário e a arte contemporânea. “É uma espécie de lugar ressonante de todo o festival, tem um olhar curatorial e é desenhada a partir do plano do festival como também de uma série de questões delimitadas ano-a-ano que importam trabalhar”. Neste seu ano de abertura, propõem-se questões existentes no trabalho da Chantal Akerman.

S.S.D. – O colóquio adveio da necessidade criada também pela nova secção Passagens e de lançarmos a questão dos cruzamentos do documentário com a arte contemporânea. Esta saída do cinema para espaços tradicionalmente ligados à arte e o facto de no campo da arte haver desenvolvimento das práticas documentais, faz com que nasçam questões sobre o que é o documentário e os seus instrumentos de produção e realização, questões essenciais que se ligam à prática e ao próprio pensamento do documentário. Nós queremos trazer uma reflexão mais estruturada para dentro do festival.

Cinema de Urgência

C.G. – Uma das forças desta secção é a de contribuir para que as pessoas se apercebam da força que, por exemplo, as suas imagens ou a sua presença nas manifestações têm. As pessoas tendem a esquecer a força política que cada cidadão pode ter, sobretudo em momentos difíceis como este. E nós gostamos de ajudar a lembrar esse facto básilar.

S.S.D. – O cinema de urgência é aquele cinema mais imediato, é a transmissão de uma experiência de uma forma muito directa. E é muito interessante ver e questionar isso no Doclisboa este ano.

Diálogos no Doclisboa

S.S.D. – É importante um festival de documentário dar a ver e a fazer repensar as várias possibilidades do documentário, a questão do cinema documental, que tem toda uma série de vertentes. O Doclisboa vem sendo mais aberto, levantando cada vez mais questões.

De certo, cada filme vai irradiar e criar cruzamentos com filmes de outras secções. Tentámos criar uma transversalidade no festival que foi expressamente pensada. Na competição internacional, em estreia mundial, temos um filme que poderia ser mostrado no cinema de urgência que é o Vers Madrid de Sylvain George. Temos o The Radiant do The Otolith Group, que foi uma encomenda da Documenta e que portanto se liga às Passagens.

Um aspecto essencial para a direcção do doclisboa é este ser “não só um espaço de fruição mas também de discussão viva, de pensamento e reflexão e que consiga lançar algumas bases de construção e acção futura”. Tudo isto determinou a composição de “várias mesas redondas sobre os temas prementes em discussão e outros temas identificados nas várias secções.” Ademais, “há uma série de questões, para lá dos debates após os filmes, que vamos levantando ao longo do festival e que o vão galgando”, acrescenta Cíntia Gil.

United We Stand, Divided We Fall

C.G. – Hoje em dia faz muito sentido voltar a colocar a questão do trabalho colectivo que está muito ausente das nossas representações quotidianas da organização do trabalho. Esta mesa redonda está ligada à retrospectiva de cinema colectivo em que se vai discutir não um ponto de vista historiográfico mas sobretudo o colectivo, uma ideia que não tem necessariamente a ver com pré-conceitos ligados a ideologias políticas a que está associada, e do trabalho em colectivo.

RTP e o serviço público de televisão

C.G. – Aqui ir-se-á questionar “o que vai acontecer com a RTP, pensar nos novos projectos e novas ideias que apareceram para a RTP. Por outro lado iremos debater a necessidade de um serviço público de televisão, de que modo é que ele pode continuar a existir com a reconfiguração iminente da RTP e com o fecho eventual da RTP2. Perceber até que ponto é que o facto de o serviço público de televisão estar em perigo, coloca em risco um dos pilares da prática da democracia”.

Laboratórios de cinema independentes

C.G. – Uma mesa redonda será sobre os laboratórios de cinema independente e os projectos que partem da extinção da Tóbis. E se será verdade, a frase feita que estamos perante o fim da película. Porque, na realidade, não podemos deixar de constatar que muitos realizadores e artistas visuais continuam a trabalhar com a película.

O cinema e a crise na Europa do Sul

C.G. – Em outra mesa redonda vamos ter várias instituições culturais que estão a viver momentos inimagináveis, da Roménia, Espanha, Itália, Grécia e Portugal. Vamos tentar perceber quais são as relações entre a situação cultural, a situação das estruturas culturais destes países, a crise financeira global e ainda a crise política e de valores.

Teremos também debates associados a algumas sessões. Um debate especificamente sobre o cinema português quando mostrarmos o filme Ó Marquês anda Cá Abaixo Outra Vez!, que João Viana fez com imensos realizadores portugueses, os quais são os protagonistas. Este filme é uma espécie de parábola sobre a situação actual do cinema português”.

S.S.D. – Note-se que “queremos mesmo trazer público para pensar e discutir activamente o que está a suceder” pois este filme vai ser exibido na sala Manoel de Oliveira que tem espaço para 800 pessoas.

Homenagem a Fernando Lopes

C.G. – É um cineasta fundamental para perceber o documentário português. Os três filmes exibidos são filmes menos conhecidos, mas nos quais podemos encontrar, por um lado, a reflexão do Fernando sobre a própria história do cinema português e sobre o cinema, por outro lado sobre o seu próprio cinema, o seu olhar.

Retrospectiva integral da Chantal Akerman

S.S.D. – Uma outra conquista. É uma obra vasta complexa difícil de reunir. Podemos acolher as suas instalações por termos aberto a secção passagens portanto é uma ocasião única no nosso contexto e mesmo no contexto internacional.

C.G. – Sim, eu creio que nunca houve uma retrospectiva integral com as instalações, desde o primeiro filme dela até à ante-estreia do seu último filme. Só não vão ser mostrados um ou dois filmes cujas cópias de perderam para sempre.

S.S.D. – O próprio corpo da sua obra toca problemáticas de temas que fazem todo o sentido este ano, inclusive a questão do cruzamento de géneros e aborda a ficção, o documentário, instalação, não os demarcando.

C.G. – No caso da Chantal Akerman é mesmo importante seguir e perceber o contexto global da obra para se compreender infinitamente melhor cada filme Há uma série de questões que aparecem: autobiografia, auto-retrato, territorialidade ligada à História, ligada à memória, e o lugar do feminino na história… Questões que se abrem não só a nível temático, narrativo, como do mesmo modo, a nível de composição formal, tanto nos filmes, como nas instalações.

O que é um facto raro e interessante é que os espectadores vão poder ver em sala filmes que também podem ver em instalação, o que são experiências radicalmente diferentes”. É o caso de La Chambre, que poderá ser visto em sala e depois nas Passagens, num “formato que ela inventou há menos de um ano, que transforma totalmente a experiência do filme.

É uma obra que sendo discreta é ao mesmo tempo profundamente criativa e abre vias, e em tempo de tecto baixo o que nós precisamos é de abrir vias”.

 



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