Exploradores Portugueses e Reis Africanos

“Exploradores Portugueses e Reis Africanos” | Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde

Homens mudados

O interior de África foi, durante largos anos, território inóspito que condenava o homem branco à doença ou ao desentendimento hostil com a população autóctone. Daí que a presença portuguesa, a nível de costumes, religião e língua, fosse mais sentida no litoral Atlântico e Índico. Avanços na medicina e um acréscimo de confiança, ganho graças à miscigenação, deram azo a uma vaga de exploradores determinados a alargar as empresas comerciais a alguns dos grandes impérios interiores do continente africano: bem-vindos à gestação do colonialismo europeu em pleno século XIX.

Exploradores Portugueses e Reis Africanos (A Esfera dos Livros) está dividido em duas partes, sendo que a primeira é pautada pelo ensaio, abordando sobretudo a problemática do tráfico humano e do choque cultural, enquanto a segunda se ocupa de uma análise crítica (tanto quanto possível como constaremos mais adiante) às principais fontes que historizam as atribuladas viagens portuguesas pelo sertão africano.

Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde, académicos especializados em Etnologia e Antropologia, respectivamente, dão-nos uma obra para curiosos e não para especialistas como, aliás, adiantam de imediato. “Exploradores Portugueses e Reis Africanos” procura ser abrangente na abordagem factual, através de um espectro globalizante das ciências sociais e humanas. Reveste-se, no entanto, de um carácter introdutório e relativamente breve, tendo em conta a riqueza de informação que os documentos da época possuem, desde cartas a diários pessoais, passando por literatura de viagem destinada a um vasto público.

Em vésperas da Conferência de Berlim, onde África seria como que fatiada pelos europeus, homens como Serpa Pinto ou Silva Porto descrevem um mundo recôndito de déspotas, líderes divinos que exerciam o seu poder através de actos violentos desmedidos, misticismo e concubinato, chocando com os supostos valores pios e inabaláveis dos portugueses. Começava-se a considerar desumano o comércio de escravos, pese muita contestação de alguns europeus e autóctones, e o passo seguinte seria salvar o povo africano da barbárie. Civilizando África, o continente tornar-se-ia habitável para o forasteiro branco. A salvação encontrada para o negro seria amestrá-lo, moldando aquilo que lhe era, até então, seu e inato.



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