“O assassino do aqueduto” | Anabela Natário

“O assassino do aqueduto” | Anabela Natário

Aqui-d’el-Rei!

Diogo Alves é uma das maiores figuras do crime em Portugal. Conhecido como O Pancada ou o Assassino do Aqueduto das Águas Livres, este galego, nascido por terras de Santa Gertrudes, espalhou o pânico pela Lisboa da primeira metade do século XIX, servindo de fonte de inspiração à jornalista e escritora Anabela Natário para escrever “O assassino do Aqueduto” (A Esfera dos Livros, 2014), obra baseada em factos verídicos que dá a conhecer um romance policial de inspiração histórica altamente recomendável.

Depois de publicar “A cueca de bibelô” em 2007 e no ano seguinte assumir a responsabilidade de lançar uma coleção de seis volumes com 177 biografias de mulheres denominada “Portuguesas com história”, Anabela Natário regressa em 2014 com um livro que vai fazer as delícias dos amantes de policiais mas, também, de quem gosta de sentir a história de Portugal.

Com uma alma especial e uma linguagem que vai conquistando o leitor a cada página, “O assassino do aqueduto” tem como cenário a Lisboa revolta que viveu momentos de grande agitação social e política durante as primeiras décadas dos 1800 e que tinha, no calor do fado de faca na liga de Maria Severa, um dos seus grandes escapes.

Mas a figura central de “O assassino de aqueduto” é Diogo Alves, líder de uma quadrilha composta por dissidentes como Beiço Rachado, Palhares, Caminha e Celeiro, que tinha por hábito esperar incautos na passagem do Aqueduto das Águas Livres e roubar carteiras e vidas. O medo espalha-se pela cidade, ainda que sem rosto, e ninguém está seguro. Os corpos “suicidas” acumulam-se aqueduto abaixo, o assassino escapa impune.

Ambicioso e astuto, Diogo tem na taberneira Parreirinha uma estratégica aliada dos crimes e do coração, assumindo-se também mulher de armas que tem faro para escolher a vítima certa. Para além do comum cidadão, Alves e restante bando tem no assalto a casas de fidalgos o novo ganha-pão. Depois de um esforçado, sanguinário mas bem-sucedido roubo à casa do endinheirado doutor Pedro de Andrade, os maus da fita da fita deparam-se com uma série de problemas, tendo no seu encalce o juiz Carlos Bacelar.

Com um excelente enquadramento histórico e uma assinalável capacidade de ir revelando os acontecimentos de forma natural e assertiva, com o recurso a uma sábia apresentação dos personagens – por vezes valendo-se de curtos flashbacks -, Anabela Natário constrói um policial com pés e cabeça que se assemelha a um puzzle de crimes e assaltos, que revelam muito da sapiência para a arte da trapaça e do assassinato frio de Diogo Alves, o último homem a ser condenado à morte, pela forca, em Portugal.

Com honras de figurar no teatro anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a cabeça decepada de Diogo Alves é mais que uma metáfora “viva” daquele que espalhou o terror pela capital há mais de 150 anos. É o troféu de uma caça ao homem que deu a vitória à justiça numa tarde de fevereiro de 1841, sendo também o ponto de chegada, ou partida, deste muito interessante e recomendado livro.



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