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Festival jazz.pt 2009

Quarto aniversário da publicação.

A revista jazz.pt completa mais um ciclo de existência e já lá vão quatro… Consolidada no plano jornalístico como indicador da saúde jazzística nacional (que felizmente passou ao lado da gripe A).

Para a celebração realizou-se um duplo festival, com dois pólos distintos: um no Hot Clube de Portugal em Lisboa e outro em três espaços da cidade de Évora. Condensado em dois fins-de-semana: um verdadeiro resumo da fauna-jazz do nosso país, com direito a actuações internacionais de renome. Uma nota curiosa, meritória de um aplauso à organização, é de que os projectos seleccionados para actuação, possuem todos eles um trabalho discográfico na calha (recentemente editado ou a editar em breve) fazendo com que as escolhas primem também pela divulgação da música-jazz (editada) em Portugal.

Dos 15 projectos agendados entre 3 e 12 de Setembro seleccionei 5 para este artigo – apenas das actuações lisboetas, havendo apenas tempo (pois esse está em crise!) para um terço do cartaz, mas sem que isso seja critério para a avaliação dos restantes que não foram escolhidos.

Quarteto Pinton/Kullhammar/Zetterberg/Nordeson – “Chant”
Alberto Pinton [saxofone barítono] Jonas Kullhammar [saxofone tenor] Torbjörn Zetterberg [contrabaixo] Kjell Nordeson [bateria]

O concerto de abertura do festival tinha na mira um trio internacional com alguma projecção em Portugal (fruto do trabalho do JACC…) com um trabalho discográfico gravado no ano transacto em Coimbra, um jazz com traçado nórdico apesar do vigor do barítono Pinton ter o seu “quê” de mediterrânico (italiano). Na prestação que escutámos no jardim do Hot Clube, pecou-se em alguns aspectos: sonorização pouco estável do palco e um Kjell Nordeson pouco dinâmico na perturbação do discurso colectivo. Por outro lado, Pinton e Kullhammar foram uma das mais interessantes duplas em palco, ocupando-se de uma postura num território-comum entre o free e o bop, que nos proporcionodos mais interessantes solos do festival.

Trio Joachim Kühn / Miroslav Vitous / Daniel Humair
Joachim Kühn [piano] Miroslav Vitous [contrabaixo] Daniel Humair [bateria]

Numa parceria com o evento “Lisboa ao Parque”, a acção mudou-se momentaneamente para o Parque Mayer, escalando de público, de dimensões cénicas e também na notoriedade dos músicos – que dispensam apresentação. A música não surpreendeu por ai além, sólidos momentos de jazz-europeu-contemporâneo (à la ECM) mas que pecaram por uma interacção muito centrada em Joachim Kühn, este com uma postura excessivamente presente. Sem dúvida que houve excelentes momentos colectivos e individuais, não se tratassem estes músicos da mais elevada estirpe da cena europeia do jazz dos 60-90. Nota final para um Daniel Humair que já com sinais da avançada idade ainda conseguiu mostrar interessantes abordagens no seu instrumento – a bateria – com um soberbo momento de captação de ressonância do prato através de um microfone dinâmico.


Rodrigo Amado Motion Trio

Rodrigo Amado [saxofones tenor e barítono] Miguel Mira [violoncelo] Gabriel Ferrandini [bateria, percussão]

Provavelmente uma das melhores actuações a que assisti no Hot Clube, o Motion Trio de Rodrigo Amado incendiou a sala interior que já se encontrava à pinha. A única palavra que escrevi no bloco após o concerto foi “libertador”, deixando a teorização para depois. Recapitulando a actuação, vem-me à cabeça a força “gritante” de um Albert Ayler e o discurso na linha dos mestres de saxofone bop/free – Coltrane e Ornette… A instrumentação, muito típica da cena jazz – com um energético Ferrandini na bateria e um surpreendente (e também sob uma dose de adrenalina musical) Mira no violoncelo (dedilhado à contrabaixo), com interessantes momentos em dueto.

De Rodrigo Amado não é preciso escrever muito, um dos porta-estandartes do saxofone em improvisação-livre no nosso país, sempre com um coração muito jazz, conseguiu aqui lançar o anzol para a escuta do novo disco (com o Motion Trio, na sua própria label), do qual se espera que esteja pelo menos à altura deste grande concerto.

Jorge Moniz Quarteto
Jorge Moniz [bateria] Mário Delgado [guitarra eléctrica] Júlio Resende [piano] João Custódio [contrabaixo]

Jorge Moniz tinha metade do quarteto no anterior concerto (o do pianista, Júlio Resende), mas mesmo assim, nem Resende nem João Custódio desaceleraram o ritmo. O quarto elemento, é uma das figuras mais importantes na guitarra-jazz em Portugal, Mário Delgado (mentor dos TGB e de tantos outros projectos). A música que se escutou espantou, nem que fosse pelos referenciais desajustados ao jazz que muitas vezes se fizeram ouvir (drum n’ bass..?) num contexto natural de improvisação, com temas da autoria de Moniz. Uma prestação sólida de todos os elementos que deixa também um interessante disco para apanhar nas prateleiras assim que a edição estiver lançada.

LUME
Marco Barroso [direcção, composição, piano] Manuel Luís Cochofel [flauta] Paulo Gaspar [clarinete] Jorge Reis [saxofone soprano] João Pedro Silva [saxofone alto] José Menezes [saxofone tenor] Elmano Coelho [saxofone barítono] Jorge Almeida, João Moreira, Pedro Monteiro [trompete] Luís Cunha, Eduardo Lála, Pedro Canhoto [trombone] Miguel Amado [contrabaixo, baixo eléctrico] André Sousa Machado [bateria]

Finalizando a breve selecção do Festival jazz.pt no pólo da capital, temos a big band LUME (acrónimo para Lisbon Underground Music Ensemble). A actuação no festival jazz.pt foi o primeiro contacto que tive com a LUME ao vivo, e do qual sai bastante surpreendido. A orquestra possui uma abordagem extra-jazz que lhe é muito interessante, que sinto como sendo o seu maior trunfo – sendo talvez também o elemento mais meritório de desenvolvimentos futuros. A música da LUME espalha-se por um espectro tão largo que no Hot Clube foi possível ouvir desde a música electro-acústica ao funk, naturalmente em paralelismo sempre com o jazz – formação da maior parte dos músicos.

Faltará ouvir a LUME desmultiplicar-se em mais territórios e compreender como é que isso se pode encaixar no tipo de jazz que propõe, um projecto a merecer a atenção nacional e com boa prestação no Festival da jazz.pt.

Referências:

Nada melhor do que comprar ou assinar a jazz.pt, referência única para a escrita-jazz assinada em Português.

Breve Discografia:

Motion Trio (Amado/Mira/Ferrandini), European Echoes
Chant (Pinton/Kullhammar/Zetterberg/Nordeson), Clean Feed


Fotografia: Quarteto de Júlio Resende – @ Hervé Hette, gentilmente cedida pela organização



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