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Festival Lisboa, Capital, República, Popular

O terceiro dia em análise.

O último dia do Festival Lisboa, Capital, República, Popular reuniu gerações mais velhas. Outra coisa não seria de esperar num cartaz em que estão Vitorino e a Brigada Víctor Jara.

Os Quais, que são Tomás Cunha Ferreira (artista plástico) e Jacinto Lucas Pires (escritor), subiram timidamente ao palco com uma formação que desta vez contou com uma teclista. A abrir, com «Bife no Chiado», e a propósito do 25 de Abril, Jacinto recitou um poema de Sophia de Mello Breyner sobre a revolução. As letras d’Os Quais estão cheias de referências pop, também elas dignas de grandes revoluções – James Brown, Beatles, Rolling Stones, etc. Perto do fim, Tomás adiciona um bombo à equação e Jacinto explica: “Com o devido respeito, vamos entrar no terreno da Brigada Vítor Jara, e fazer algo mais tradicional”. Desta vez sem o já caracteristico Omnichord, Os Quais foram iguais a si próprios.

A Brigada Víctor Jara foi responsável pelo grande concerto da noite. Foi intenso, contagiante e bonito. Gerou manifestos de dança em frente ao palco – coisa rara nos outros dias – e foi prova magna da vitalidade deste projecto, tantos anos depois da sua primeira formação. Manuel Rocha, sempre muito assertivo, lançou farpas ao governo de ontem (antes de 1974), mas também ao de hoje. Referiu que tempos houveram em que “o que era foleiro era folclórico” e que arranjou-se uma nova denominação para aquilo que a Brigada fazia: “Música regional”. “Foi o que se arranjou”, concluiu. Faz sentido pensar no assunto numa altura em que uma nova geração de músicos não parece ter vergonha de assumir essa vertente folclórica – Bfachada e Samuel Úria referem-no nos respectivos myspace. Para o fim ficou reservada uma homenagem a José Afonso e um “rap algarvio”, no qual Luís Garção Nunes toma a dianteira. São eternos. Vão durar para sempre.

Abram alas a Vitorino, cantor de intervenção e “rapaz” boémio. Num evento com estas características foi o nome que fez mais sentido ver em palco. Talvez por essa razão tenha sido também dono da actuação mais longa. Entre fados e cantigas de intervenção, o alentejano emprestou bom humor e revelou-se nunca satisfeito com o resultado final das suas interpretações. Os poemas, em grande parte assinados por António Lobo Antunes, são histórias que vêm da terra, do chão, da história deste Portugal – “um povo manhoso, chulo, de marinheiros, mas também muito poético”. Com três quartos de hora de concerto lembra-se: “Já estou a tocar há muito tempo. Vou tocar para acabar e depois chamo a Brigada e os Quais ao palco para tocarem comigo. Não fazemos aquela coisa de sair e entrar”.  Foi isso mesmo que aconteceu e foi uma grande festa. Mais um momento histórico e duas gerações em palco. Concluiu com um desabafo sentido: “Havemos de cantar sempre em português, mesmo que venham essas nuvens da Islândia”. Ámen.



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