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De dentro para fora

Festival Músicas do Mundo 2011.

Todos os anos é, invariavelmente, a mesma coisa… Assim que mais uma edição do FMM chega ao fim, começa-se de imediato a contar os dias para a próxima, se bem que por essa altura parece estar muito distante. Felizmente o tempo passa a voar…

Se analisar um pouco a questão a frio, parece estranho considerar o Festival Músicas do Mundo como um dos meus favoritos. Primeiro porque grande parte dos nomes que todos os anos dão forma ao cartaz são ilustres desconhecidos para mim, e em segundo lugar porque não sou um consumidor habitual de world music. Vou tentar recorrer a este termo o menos possível nas linhas que se seguem. Julgo que é um termo demasiado redutor e muitas vezes injusto, a que os media recorrem para catalogar algo que provém de um local ou cultura específicos mas que, devido às suas características, não se integra nos demais estilos musicais.

O que torna então o FMM um festival tão apetecível? Tudo, diria eu. O sentimento de descoberta. O sentimento de surpresa que nos pode arrebatar após um concerto memorável entre as muralhas do Castelo ou na Avenida Vasco da Gama, mesmo junto à baía de Sines. Até mesmo alguma desilusão (acreditem que é uma desilusão diferente), porque também faz parte, e num festival como o Músicas do Mundo é inevitável que não dê um ar da sua graça (este ano a honra coube a Sly & Robbie). Pelas pessoas de todo o mundo que podemos conhecer durante o festival. E por tudo isto se passar numa pequena cidade, situada num cabo, em pleno litoral alentejano.

Considero-me um sortudo. Não só vivo este festival todos os anos, como o vivo por dentro e entre amigos. A minha “missão” tem tanto de simples, como de complexa. Cada banda ou artista que acompanho são únicos. Uns mais fáceis, outros mais difíceis, mas no final fica sempre a amizade e as lembranças de momentos bem passados e histórias para contar.

As linhas que se seguem contam algumas dessas histórias e momentos que tiveram lugar na edição de 2011.

O primeiro dia é marcado acima de tudo por reencontros. O pessoal do merchandising. O pessoal do gabinete de imprensa. O pessoal da produção, com quem acabo por trabalhar de forma mais próxima. No fundo somos uma grande família que se junta uma vez por ano. Um conjunto de pessoas cheias de vontade em dar corpo àquilo que o FMM representa, “Música com espírito de aventura”.

Adiante.

O nome era estranho. Mamer. A primeira dúvida passou mesmo por saber se era o nome da banda ou o nome do artista e compositor. Era do artista. De seguida existe sempre a preocupação em procurar saber que línguas falam, quantas pessoas são ao todo, se têm manager a acompanhá-los. Um manager pode ser o nosso melhor amigo ou acabar por se tornar uma pedra no sapato. Melhor amigo pela maneira como ajuda no processo de comunicação e interacção com a banda. Pedra no sapato se se tornar um obstáculo para chegar à banda. Felizmente as pedras no sapato não são habituais. Com Mamer não houve esse problema. Mu, o manager, estava ali para ajudar.

O primeiro contacto é sempre um momento importante e por muito que se tente imaginar e pensar no que vamos dizer, muitas vezes acabamos por ser surpreendidos. Nesse dia decidi sair de casa com uma t-shirt com a capa do “Unknown Pleasures” dos Joy Division, longe de pensar que não poderia ter feito uma melhor escolha. Se por estas bandas do planeta, arranjar um t-shirt dos Joy Division não será das tarefas mais árduas, na China já não acontece o mesmo. E assim foi… graças a uma simples t-shirt dos Joy Division a barreira da comunicação e de algum gelo, que se verifica inicialmente, foi quebrada. Deve-se, no entanto, frisar que dos cinco elementos apenas dois falavam Inglês, porém a partir do momento em que se começou a construir uma relação de confiança, qualquer eventual problema de comunicação passou a ser uma falsa questão.

Ao longo dos quatro dias que partilhámos, houve tempo para as conversas mais variadas. Confesso que nunca pensei falar com um chinês sobre o Jaime Pacheco e ficar a saber que até na China continua a ter aquele feitio muito sui generis, ou não tivesse sido expulso recentemente por palavras dirigidas ao árbitro. Estes dias permitiram realmente constatar que o futebol é um fenómeno à escala global. Messi, Cristiano Ronaldo, Figo, Rui Costa ou Batistuta. Todos eles e mais alguns serviram para ser tema de conversa.

O interesse pela nossa história foi uma constante e realmente sincero. Não é habitual cruzar-me com uma banda que escutasse realmente com atenção o que se dizia sobre uma rua ou local de Sines ou arredores com tanta atenção. Bem, na verdade falava para o Mu, que depois tratava de traduzir para o resto. Nestas coisas de acompanhar as bandas durante o FMM, acaba-se sempre por ganhar alguma sensibilidade sobre a forma como devemos lidar com as idas a restaurantes. A minha primeira preocupação passa por saber se existe algo em particular que não gostem ou não possam comer. No caso de Mamer e a sua banda era a carne de porco. Sabendo isto, as refeições tornaram-se um espaço de convívio, de troca de histórias e ideias. A simplicidade e a genuinidade das pessoas vêem-se nos gestos e nas palavras. Com Mu, isso foi visível quando, no final do primeiro dia, após o jantar, num restaurante à beira-mar, perguntou se teriam de pagar algo pelas refeições. Não porque não pudessem ou não quisessem, mas porque não estavam habituados a tamanhas mordomias. Foram vários os momentos divertidos e com boa disposição às refeições, porém havia um que ocorria em todas e se destacava dos restantes.

O momento de pedir as bebidas tem tudo para ser um momento como qualquer outro. O empregado chega, pergunta o que cada um quer, anota o pedido e trata de trazer as respectivas bebidas. Simples. Ou não. Experimentem pedir algo como água quente. Sim. Só água quente. Depois sentem-se e apreciem a expressão do empregado. Passo a explicar. Mamer bebia sempre água quente às refeições. Quando almoçámos juntos pela primeira vez até eu fiquei admirado com o pedido invulgar e tratei de explicar ao Mu que não tínhamos esse hábito em Portugal. Daí em diante, sempre que se pedia água quente para o Mamer a banda tratava de se rir e de abanar a cabeça em jeito de confirmação para um empregado invariavelmente surpreendido pelo pedido.

Os preparativos que envolvem o concerto de qualquer banda podem também eles envolver as mais variadas histórias, muitas delas daquelas que não lembram a ninguém, tal a sua particularidade. Com Mamer também não foi excepção. É normal uma banda fazer algum pedido especial para o palco, seja porque não trouxeram um instrumento, porque ficou perdido num qualquer aeroporto ou simplesmente para satisfazer um capricho. Com Mamer verificou-se o primeiro caso. Neste ponto uma rápida contextualização da música que Mamer levou ao palco do Castelo de Sines poder-se-á revelar oportuno. O som de Mamer revelou-se altamente industrial, razão pela qual se eu referir que os metais possuem um papel determinante, não deverá deixar ninguém, minimamente conhecedor da sonoridade do género, espantado. Devido a esta característica, o baterista dispunha, para além da óbvia bateria, uma série de objectos de metal que usava para fazer som, com o auxílio de duas chaves-de-fendas. Um desses objectos deveria ser uma ventoinha, com determinadas características (nunca cheguei a saber ao certo que ventoinha pretendiam). Esta informação tinha sido atempadamente comunicada à produção. Porém, as coisas nem sempre correm bem e não foi possível arranjar o objecto pretendido, mas se pensam que a história ficou por aí desenganem-se. Por vezes as soluções para os problemas estão mesmo diante dos nos olhos e, se for caso disso, constroem-se. E assim foi. Sabem o que é uma baia? Uma daquelas barreiras de segurança de metal? Uma dessas resolveu o problema e ainda assim também foi construída uma grade em metal, de acordo com as especificações passadas. Resultado? Uma secção de metais altamente personalizada, conferindo ao já vistoso estaminé do baterista um ar ainda mais peculiar. E mais uma história para contar, claro!

Há coisas que nós, vivendo num país como Portugal, por menos normais ou estranhas que possam ser ou parecer, acabamos por “aprender” a lidar com elas. O mesmo não é verdade para elementos provenientes de uma realidade cultural e política tão diferente da nossa como é a chinesa. Também é verdade que não pensamos muito neste tipo de coisas até que uma situação do género surja diante de nós. Todo este palavreado surge aqui para introduzir o episódio (os dias que passei na companhia de Mamer davam para fazer uma mini-série repleta de episódios estranhos) em que Mu chega ao pé de mim e decide perguntar, um pouco a medo – via-se na cara dele – se era normal ser abordado no meio de um largo repleto de pessoas, por um indivíduo que lhe perguntou se queria comprar droga (era haxixe segundo Mu). Apanhado de surpresa com a questão, lá tentei dar-lhe uma explicação. Comecei por lhe dizer que não era normal mas que acontecia, não só em Sines mas em muitos outros locais do nosso país. Depois tentei explicar-lhe o nosso enquadramento legal para este tipo de situações e como nos últimos dez anos ou mais se tem tentado combater/lidar com este tipo de situação. Mu não ficou lá muito convencido, devo dizer. Na China as coisas não funcionam bem assim. São as tais diferenças que comecei por referir no início deste parágrafo…

A convivência com os artistas que, ano após ano, passam por Sines, é acompanhada pela capacidade ímpar de originar as situações mais improváveis e curiosas que é possível imaginar. Antes de entrar na ponta final deste texto, que já vai algo longo, aqui fica mais um exemplo disso mesmo. A banda de suporte de Mamer, os IZ, são do Cazaquistão mas com fortes ligações à China. Consta que no Cazaquistão são bastante famosos. Podem achar estranho eu saber tal coisa mas existe uma explicação que tem tanto de lógica como de improvável. Durante um jantar, novamente à beira-mar, o dono do restaurante chega junto de mim, com um pedido que até acontece com alguma regularidade. Pedir que a banda autografe a página deles que existe no guia do festival. É uma recordação. Neste caso o que se passou foi um pouco mais do que isso. A destinatária do guia devidamente autografado seria uma das cozinheiras do restaurante que, por sinal, era uma imigrante cazaque e grande fã dos IZ. Assim, depois de jantar, foi possível assistir a uma jovem cazaque, com a farda de cozinheira, a morrer de vergonha mas não menos feliz a trocar algumas palavras com os seus conterrâneos e a tirar algumas fotografias para mais tarde recordar. Um puro momento FMM.

Quando comecei a escrever esta prosa, a minha ideia era fazer o resumo dos momentos que passei com as bandas que tive oportunidade de privar durante o FMM 2011. Logo me apercebi que ia ser complicado. É que o resultado seria um testamento e tal, não só se tornaria cansativo de ler para vocês, como seria complicado de escrever para mim visto que, infelizmente, a disponibilidade nem sempre é aquela que gostaria de ter. Espero no entanto que as palavras que aqui escrevi vos tenham dado uma ideia do tipo de convívio que um festival como o FMM propícia para quem está por dentro a assegurar que tudo corre bem.

Venha a edição de 2012!



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