festival peças um minuto

Um minuto é quanto tempo?

De 2 a 12 de Maio o Festival de Peças em 1 Minuto instala-se no Chapitô, vindo de São Paulo, Brasil. Peças em 1 Minuto?! Nós também não acreditámos. De 2 a 5 de Maio pudemos ver 39 micro-peças brasileiras, de 9 a 12 de Maio é a dramaturgia portuguesa que sobe à cena.

Fotografia de Marisol Gonzalez.

É uma experiência inédita a de juntar tantas peças num só espectáculo o que por si só questiona o tempo como elemento teatral. A nossa relação com o espectáculo está muito ligada ao tempo que ele dura. Ainda muito recentemente Mónica Calle subiu ao palco da Culturgest para apresentar Meus Sentimentos que durava entre cinco horas e meia a sete horas. Também muito recentemente o Teatro Circo de Braga apresentou uma versão da Oresteia que se via em vários dias e tinha uma duração total de seis horas. Nas antípodas destas experiências de distensão do tempo teatral estão experiências como os Absurdos Contemporâneos da Qatrel, dirigidos por Teresa Sobral (pequenos contos teatrais de Abel Neves, Carlos Gomes, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, Miguel Castro Caldas, Ondjaki, AnCarlGo, Carlota Gonçalves, Virgílio Almeida e João Saboga) ou as práticas de teatro mínimo ou teatro curto que em Espanha estão implantadas (há uma revista de Sevilha, Alhucema dedicada a este género de teatro) e que entre nós chegaram mais recentemente com a experiência do Teatro Rápido (peças de quinze a vinte minutos em sessões contínuas).

Teatro entre o haicai e o twitter

O que nós não conhecíamos eram as peças em 1 minuto. Hugo Possolo explicou-nos como tudo começou em 2008, com uma brincadeira entre ele e Marcelo Rubens Paiva, escritor brasileiro (autor de Feliz Ano Velho) :

“Nós estávamos no nosso espaço em S. Paulo a conversar sobre o twitter, sobre o haicai e a forma como ele consegue com três linhas apenas sintetizar alguma coisa e ter uma grande profundidade. E aí eu falei, vou mandar um email para grandes nomes da literatura dramática para ver se nos conseguem escrever uma peça em um minuto.”

Mandou setenta emails. Sessenta disseram que escreveriam, dez disseram que não tinham condições e cinquenta e cinco escreveram. Aquilo que começara por uma brincadeira tornara-se uma realidade que se impusera por si mesma. Juntou o grupo, oito pessoas que constituem o núcleo artístico (e onde Hugo Possolo e Raul Barreto assumem a coordenação dos Parlapatões) e como o elenco é essencialmente masculino, alargaram-no a várias actrizes. Fizeram assim uma versão com textos de autores consagrados. Estiveram três meses em cartaz, o que no historial do grupo acontece muitas vezes:

As nossas peças ficam dois, três anos em cena. Nós somos um grupo que preservamos os espectáculos. Temos espectáculos que tem 22 anos. Dos 48 espectáculos, 15 mantêm-se em repertório.”

A experiência era tão inovadora que os surpreendeu a todos.

Os próprios autores se surpreendiam. Diziam-nos. “-Nossa! Esse pequeno minuto diz o que eu penso do mundo!” E todos concordavam que, de um jeito ou de outro, eles quiseram sintetizar o teatro que eles faziam. Tem uma marca de individualidade que dá um panorama da dramaturgia brasileira de hoje.

Amor, poder, morte e sexo

Cada flash de sessenta segundos é sinalizado por uma legenda muito rápida com o nome dos autores e o título da peça e seguem-se numa toada muito veloz que constrói um ritmo muito enérgico e quase alucinante para o espectáculo. Os temas dos textos brasileiros abordam o amor, a morte, o poder e o sexo. Há muitos textos que utilizam uma linguagem brejeira. Hugo assume isso:

É verdade. Os autores nos deram os textos e nós os respeitamos. O autor nos deu aquilo e nós, gostemos ou não, executaremos. Não condenamos os nossos autores. Isso nos dá diversidade de pensamento. O mundo anda muito intolerante.

Os portugueses estão mais centrados no amor e na morte

E embora os temas sejam os mesmos, ele encontrou uma variação nos textos portugueses:

Há neles uma predominância do amor e morte. Porque eu acho que diante de uma crise isso ressalta mais. Eu fiquei muito sensibilizado com isso.”

Estas trinta e nove peças criam também um novo texto e a isso não é alheio o seu trabalho de coordenação geral do espectáculo (ele não dirigiu nenhuma encenação de nenhum dos textos brasileiros):

O que eu fiz foi organizar isso em função de objectivos comuns: tanto para que o público não se canse, para que os temas que são comuns não se afastem, digamos dois temas, eu faço uma cena de venda de órgãos, na cena seguinte eu tenho uma cena que fala da existência humana, daquilo que ela significa, eu não aproximei essas duas há toa, eu queria que uma viesse antes da outra. Para além dos problemas técnicos.”

Diz-nos também que há pelo menos cinco peças que gostaria de fazer num novo formato, mais distendido, numa peça de uma hora. As peças têm um minuto mas isso é um valor de referência. Há peças com um minuto e trinta, outras com trinta segundos. Há talvez a peça mais pequena do mundo. Tem apenas três palavras. No palco vazio entra um militar e marcha até à boca de cena, no lado esquerdo.  Depois entra um outro, do lado oposto e no ponto mais recuado do palco. Diz apenas “-Sentido!”. O outro militar responde:”- Qual sentido?” . O outro vacila na resposta. Não conseguindo responder, abandona a cena. Acabou a peça (e supõe-se também, a guerra).

festival peças um minuto

Textos portugueses no Festival

Em 2010 retomaram o Festival com um novo formato. Fizeram um concurso nacional para escolher novos textos e revelar novos autores. Escolheram 35 peças. A Lisboa trazem uma selecção das duas edições. Para a vinda a Portugal, que se insere nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal, cujo Comissário-Geral é o actor António Grassi, presidente da Funarte abriram também a proposta à produção teatral portuguesa. Convidaram dramaturgos como Abel Neves, Fernando Moreira, Pedro Eiras, entre outros, cujos textos de juntam a de outros 47 autores. Para tudo isso contaram com o apoio de José Menezes da Leya e do crítico, dramaturgo e investigador José Louraço Figueira.

Foram grandes parceiros. Nós não conhecíamos ninguém. Eles nos apresentaram gente que nos trouxeram a realidade portuguesa. Isso aumentou também a nossa responsabilidade, primeiro porque não conhecemos a importância que tem cada um no seu país, depois porque podemos não compreender as nuances que têm os textos. E aí nós percebemos que a nossa proximidade é muito maior do que são as nossas distâncias. O Atlântico é pequeno diante das nossas possibilidades.”

Por causa disso embora trouxessem o espectáculo já feito, deixaram a apresentação dos textos portugueses para a segunda semana.

“Queríamos que os actores estivessem aqui, respirando, ouvindo, conhecendo as pessoas, o modo de estarem, falarem. Porque isso vai enriquecendo. E mesmo que a gente erre, é melhor, porque a gente está a colocar em choque duas culturas, o que é melhor do que uma coisa conformada.”

A edição dos textos portugueses conta ainda com um padrinho e uma madrinha, Nilton e Filomena Cautela, que escolherão a peça de destaque para dar visibilidade ao autor.

Festival de Peças de UM MINUTO

Textos Brasileiros

IML – Avelino Alves | Jazz-minuto – Chico de Assis| Merda – Cláudia Vasconcelos | Antes de… – Erné Vaz Fregni |Essa Coisa de Dinheiro – Fernando Bonassi |O Atestado – Franz Keppler| Pau Brasil – Gero Camilo e Paula Cohen |Exercício Exército – Gustavo Machado |Discurso das Secreções Amorosas – Ivam Cabral Soneto – José Antônio de Souza| Pão de Minuto – Luís Alberto de Abreu |As Últimas Palavras – Mário Viana |Separação de Bens – Noemi Marinho| Todo Mau Contém o Bem ou Vice Versa! – Reinaldo Maia| Umbigo – Ricardo Moreno |Intervalo – Roney Fachinni| Minuto Final – Sérgio Sálvia Coelho |NHENHENHÉM – Solange Dias |O Menino – Sérgio Roveri |Euro Túnel – Antônio Rocco |Palavras – Bruno Amaro |Entre Dentes – Bruno Faccia |Todos os Homens (e Mulheres) do Presidente – Djalma de Lima|Quem dá um, dá dois! – Edu Brisa |Mona Lisa ri da minha cara o tempo todo – Felipe Brandão Carvalho| Clássica cena do sabonete que cai no chão durante o banho – Fernanda Cunha| Metrô – Muito tranquilo! – Hélio Pottes |Dia da Graça – Jota Sousa |Vende-se? – Jucca Rodrigues |Termo de compromisso – Liana Ferraz| Chocolate quente com amêndoas – Luciana Tieme| O morto sumiu – Marcelo Rubens Paiva| Soraya – Miriam Palma |Antes do beijo – Mirtes Figueirôa Sobreira| Um minuto antes do fim – Ronaldo Ventura| Tabaco – Tâmara Azevedo|Lolita On The Rocks – Waldemir Marques |Tosco Zoo – Antonio Destro |A Entrevista – Ana Carolina Longano |Telefonema – Laís Tapajós |Sonhando com a Aranha – João Fábio Cabral

 

Textos Portugueses

Autoclismo – Alex Bezerra |Há Alguem Mais Bela do Que Eu!? – André Rodrigues|O Acordo – Andreia Ribeiro |A Violação – António Pacheco |O Que as Horas Não Esperavam dos Dias –Carina |A Reza – Diogo João Cardona |(Monólogos)- Filipa Matos Rosa | Minha Morte – Isabel Pinto |Vingança – Ivan |Paquera Cultural – João Pedro Martins Ir e Voltar – Joaquim E. Oliveira |Zé e o Vendedor de Sapatos – Johnny Almeida |Lingua Universal – Jorge Palinhos |Melodrama Multicultural – Jorge Santiago |Um Bom Homem – José Baptista Coelho |Des(encontro) José Manuel Barros – Espelho Que Sou – Lénita |Beijo de Línguas- Marcela Reis |Vidas Privadas – Márcio Baptista |Dívida de Gratidão – Miguel Marado |Talho – Miguel Ponte |A Tradução – Nuno Gervásio – |Crise Fatal – Pedro Barbosa da Silva |Palavras – Pocahontas |Goiabada e Calderada – Relequim |A Vida Segunda da Barata – Ricardo Cabaça |Morrendo de Medo – Rosely Zenker |Um Cego Mais Cego Que o Cego – Rui Nuno Pereira |Jasmim – Sonia do Ó Teixeira |Vago – William Costa Lima

 

Autores convidados

A Espera – Abel Neves | Bacon é Bacon – Fernando Moreira |Contracorpo ou corpocontra – Patricia Reis |O Quarto – Pedro Eiras |Sebastião e Zahra – Ricardo Alves |O Anúncio de Casamento – Tiago Rebelo

 

Encenadores dos textos brasileiros: André Garolli, Claudinei Brandão, Pedro Granato,Gustavo Machado, Henrique Stroeter, Kleber Montanheiro, Marcelo Rubens Paiva, Marcos Loureiro e Roney Facchini.

Encenadores dos textos portugueses: Claudinei Brandão, Henrique Stroeter e Hugo Possolo

Elenco: Ângela Figueiredo, Hugo Possolo, Raul Barretto (que também seleccionaram os textos), Alexandre Bamba, Fabek Capreri,Fernanda Cunha,Hélio Pottes, Jaqueline Obrigon,Maíra Chasserauox e Paula Cohen.



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