“Flores” de Afonso Cruz

“Flores” de Afonso Cruz

Cada pessoa é um universo

Quem gosta de literatura, de livros, reconhece em Afonso Cruz um dos nomes mais entusiasmantes do ato de escrever narrativas desconcertantes, intensas, diferentes, emotivas.

Seja por via do género romance, seja pelos visionários tomos da Enciclopédia Da Estória Universal, Cruz consegue sempre surpreender e o mais recente “Flores” (Companhia das Letras, 2015) segue esse mesmo raciocínio qualitativo e (i)lógico.

No cerne deste livro estão dois homens, dois «universos», duas pessoas que sofrem, cada um à sua maneira, com o quotidiano avolumar dos dias, meses, anos. A vida, longe de perfeita, tem momentos que podem parecer felizes ainda que fugazes e são essas recordações, mais ou menos longínquas, que estes dois seres tentam sofregamente resgatar.

De um lado está um homem maduro cujo passar dos dias é assaltado pelas notícias que surgem nos jornais, nessas folhas cuja mensagem em forma de papel é sinónimo de intrínseca tragédia. Este sucessivo massacre noticioso, juntamente com os problemas que a longevidade, e a solidão, trazem atrelados geram a perda das lembranças, sejam elas o primeiro beijo, as partidas e brincadeiras de criança ou a emancipação de ver e ter uma mulher sem roupa, pronta para (o) amar.

Do outro está um homem pragmático, jornalista, que vive bem com os telejornais, com os dramas televisivos ou impressos em papel, com os cinismos da vida, mas revela atroz intolerância quando vê um chapéu em cima de uma cama. No entanto, lembra bem o calor de um beijo, do amor (perdido) por Clarisse, sua mulher, embora se dê por vencido pelo desgaste da relação.

O destino destes dois homens vai acabar por cruzar-se por forma a contrariar e preencher o vazio que faz parte das suas vidas. E é o vizinho pragmático que decide ajudar o outro, o mais velho, a recuperar a memória perdida por culpa de um maldito aneurisma.

A história cresce e como o florir de uma bela Dália, Violeta ou Margarida, torna-se num comovente rio que nos leva a navegar por marés de solidão, amor, saudade, traição, culpa e/ou desejo, elementos determinantes para definir a «altitude» das relações.

De um bairro lisboeta até ao coração de um Portugal de outros tempos, da província beata, Afonso Cruz traça em “Flores” uma tangente à própria vida, seja ela envolta de situações esquizofrénicas que levam pessoas a falar e inventar personagens diante do espelho, fadistas que relembrar tempos e traições de uma ditadura que não esquecem, amigos e conhecidos que deambulam em boas e más recordações que servem de peças para um atrevido puzzle biográfico, crianças que escolhem como parceiro o silêncio depois do divórcio dos pais, gente que dança, que não sabe dançar, boxe, jazz, blues e uma misteriosa chave cuja fechadura pode ou não desvendar um redemoinho cuja força é um misto de presente e passado.

Como se escreve, e bem, em “Flores”: «os deuses divertem-se com o nosso sofrimento», pois enquanto homens, gente falível, com defeitos e virtudes, não passamos de «pessoas que se transformam em vidro» tal é a fragilidade patente nos atos individuais ou coletivos.

E para juntar, dar consistência, a todos estes fragmentos, está a arte de Afonso Cruz em transformar um livro numa peça essencial, num companheiro presente, num amigo que não queremos deixar longe. Tal como outros romances do autor, “Flores” é como um abraço sentido em alguém que, finalmente, se deixa conhecer, se revela, um (des)conhecido que ganha o pódio da nossa amizade, que finalmente nos permite «entrar bem mais dentro da espessura».



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