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Green Ray 2012

Os verdes raios do nosso Lux.

O canadiano Daniel Snaith, ou o mais-que-afamado Caribou, foi o responsável pela primeira curadoria de 2012 nas apetecidas, e mais-que-afamadas, noites Green Ray, no Lux, na passada sexta-feira, dia 20 de Janeiro.

As noites Green Ray são hoje, dois anos após a sua estreia, noites comprovadamente desejadas, pelo seu carisma e qualidade. A discoteca Lux e a Heineken accionam nestas datas cartazes únicos, quais mini-festivais, recebidos com merecedora pompa e afluência “esgotada”. Até ver, é mesmo assim que tem vindo a ser.

Depois de ter recebido nomes como Erol Alkan, Horse Meat Disco ou James Murphy, Dan Snaith foi o escolhido para ser o curador da passada noite de 20 de Janeiro, “pela sua relevância na música contemporânea mas também pela sua experiência como curador do famoso ATP – All Tomorrow’s Parties” (Lux).

“Ele” é matemático, é músico, é electrónica… “Ele” é instrumentos vários. Desenvolveu o projecto Manitoba, entre 2003 e 2005, e depois converteu-se em Caribou. Os álbuns “Andorra” (2007) e “Swim” (2010) são autênticas odisseias que demoram a enjoar (quiçá nem nunca cheguem a isso). Tudo em Daniel Snaith é melódico, é pop, é house, é psicadélico, é charme, é viagem, é dança…

E teve (para não fugir ao que tem tido) muito tento nas suas escolhas para a noite lisboeta. Para além do que já ele é valioso, fez-se bem acompanhado e preparou um cartaz sumptuoso, com os concertos dos The Pyramids (os veteranos afro psicadélicos ainda gingam, e vieram pisar solo nacional pela primeira vez) e Four Tet, do britânico Kieran Bebden (que assim regressou a Portugal, quase dez anos passados). Abençoadas nomeações.

Tudo isto não seria o mesmo, claro está, sem o próprio Caribou a assinar as suas escolhas de frente e a complementá-las, himself, com enorme estilo, sem precisar recorrer ao seu mais recente (provavelmente por alguns mais desejado) mainstream.

As doze já badalavam no despertador biológico, lançando na pista térrea as primeiras ânsias e expectativas sobre a música que arrancava oficialmente a noite – The Pyramids. Escadas abaixo, foi ver formar-se um pequeno povo, natalidade crescente, de curiosos, inquietos e crédulos também. Uns sabiam ao que vinham, outros queriam saber porque tinham vindo tão cedo.

Sobretudo, foi (tentar) regredir para (tentar) entender. Foi mexer nas memórias e arquivos de som, captar a abrangência dos que já foram e são (por direito) músicos influentes de algum mundo sonoro actual. Se não, (tentar) atingir os pontos que fizeram (e fazem) The Pyramids ser uma das bandas favoritas do curador, desde sempre.

Admitindo à partida o pouco entusiasmo e movimento que se sentia, em palco e no público, por falta de desporto (os senhores já não “treinavam” há uns 30 anos), ou pura idade (não perdoa, não melhora), também é verdade que há uma certa falta de modernismo e amor ao brilho veterano que acaba por produzir uma espécie de fascínio e encanto genuínos (diria: forçados) por quase tudo o que a old school mostra. Goste-se ou obrigue-se a gostar.

As “pirâmides” têm de bizarro o mesmo que de sincero. Falta-lhes o automatismo sintetizado a que nos habituamos e esperamos ouvir em noites destas, ganham em intemporalidade e na percepção saudosista dos sentidos mais direccionados à Música pré-industrial – a dos instrumentos, do jazz, das fatiotas reluzentes e acabadas, dos sopros, das fusões, do psicadelismo, do afrobeat, do improviso e do mundo.

A noite continua e, “lá em cima”, os dj sets estariam a cargo de Sam Shepherd (Floating Points), aposta firme nas entrelinhas do dubstep, que desta consumada preteriu, em bom prol de malhas viradas a uma electrónica mais idealista, mais disco, mais house, deixando-se eclodir nos auspiciosos preliminares de SwitchSt(d)ance, vencedor/residente do Lux (por alguma boa música cerebral o é).

Concedendo ao sobe-desce da noite o título de “busca imparável” (mais e melhor, se nos quiserem dar), foi no backtoback (Caribou/Four Tet), e no solo de Kieran Bebden (Four Tet), que o trilho da dança encontrou o seu clímax.

Four Tet é daqueles projectos que se (com)provam facilmente, a deambular pela Internet ou com atenção aos ambientes áudio mais selectivos. Sem presunções. Além disso, não é só estridente e único nos álbuns onde o tem vindo a evidenciar, desde 1999, com “Dialogue”. É-o também, e muito, ao vivo.

Anda a espalhar electrónica e post rock como poucos, evita tudo quanto já se conheça, e dedica o seu som ao hip hop, ao techno, ao jazz, à flutuação e às instrumentações armadas. Perdemos a conta a remixes, colaborações e improvisações – escolhe, cria e lança, tudo a dedo.

No Lux (não) foi diferente e, apoiado pelo sistema Led, que nesta noite também foi estrela aquém da cabine, Kieran Bebden fez o público levitar (ninguém se mexia para os lados) evidenciando o que tem de bom e já conhecemos, e atestando o que traz na mala dos discos-surpresa. Trouxe muito, mostrou tudo.

Se fosse fácil (não seria difícil) gostaríamos de agradecer pessoalmente ao Daniel Snaith, mesmo por cima do ombro (e ao Lux, à Heineken e a quem proporciona) – as escolhas, as actuações, o back2back (com Four Tet), e a música que nos dá… E nós gostamos.

Outros mestres virão, seguramente, para assumir o papel de curadores/programadores do Lux nestas noites. A estes será igualmente cedida carta-branca para convocar novos cartazes de bom devaneio, e ocupar os dois pisos do Lux com o que de melhor se ouvir no momento. Uma espécie de one night stand, concebida com exclusividade e imperdível por natureza.

Mas certo é, também, que repetir proezas como a de Daniel Snaith na passada sexta-feira não é tarefa fácil. Não obstante, que para a frente é que é o fim do mundo e nós cá esperamos – proezas, tarefas e fins de mundo. Com muita fatalidade.



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