“Húmus” | Raúl Brandão

“Húmus” | Raúl Brandão

A noite chega, inevitavelmente, inexorável

Tenham corrido vagarosas ou impacientes como o tempo as semanas esbatidas na fronte, nas arcadas indistintas e encobertas, e seja a distanciação subjectiva uma consequência directa, renúncia de indefinições por contemplar deste passeio indolente de dia solarengo ou o contra-relógio do ócio augustino – que se descreva o tempo como se o sentir -, é impossível uma separação categórica e delineada da massa cinzenta que é ocupada pelo pálio ímpio de cinzas e amarguras de “Húmus”; existe, ainda assim, o comprometimento a uma tentação – tentativa, no seu âmago – de descrever e, de algum modo, evocar a altivez faminta do espírito com fim – certamente pecaminoso – a opinar sobre palavras entornadas à bestiola nas quase 200 páginas de vómito de hábito e conveniência.

Porque, de facto, aos olhos mais cegos, ao simplismo sofista dos que ignoram o contexto, é o assunto da obra a conivência ardilosa das almas que se constroem dentro de ermos dos quais não saem e, de sair, não têm tenções – e tensões acumulam nas vísceras corrompidas pelo hábito da convivência.

Que se emancipe a especulação, seria “Húmus” um antro de julgamentos, uma condenação subtil ao comunismo recôndita no asceticismo do Gabiru e do seu alter-ego – enfim, o verdadeiro sujeito – que, de tão imerso na reclusão individual, tão contrastante com a unidade social, fora dos «poucos centímetros cúbicos que se lhe restavam», nem se lhe soube o nome?

Que se desengane quem assim pensa. Neste espaço claustrofóbico para onde se é coagido a se corromper gritam-se os gritos elípticos que a conformidade mantém castos e inocentes, “libertam-se os mortos” que se fingem trôpegos nos subterfúgios da mente humana: nunca os gritos são sóbrios, não são cantados em odes de ponderação, sempre são demonstrações pontuais de forças dantescas de desespero, numa estrutura que, se se revela cíclica na veemência e frequência dos gritos, branda é numa inspecção mais atenta, recursando às descrições revigoradas do clamor pessoal e dos mandamentos nietzschianos que discursam pelos «Papéis do Gabiru».

Não é, portanto, inapropriado o rótulo de obra-prima existencial. Num «anti-romance» – i.e, num romance que procura o niilismo principalmente na denominação e descrição da estrutura, impondo-se entre a carta, o diário e o género da génese – que retira citações a Sartre antes de este sequer as escrever e que foi questão basilar no desenvolvimento da obra de V. Ferreira ou J. Saramago, a frescura das ideias não diz respeito ao final da 1ª Guerra Mundial, data de realização da obra, mas a um qualquer período modernista e existencial de excomungação sôfrego e resignada de Fernando Pessoa. Acima de tudo é cáustico, é ardor de alma, é um aperto de indisposição que obriga a leituras intermitentes, páginas poucas passando pelos dedos.

E é angustiante, pungente. A tensão que se mantém nas exclamações progressistas de Raúl Brandão é tortuosa no seguimento da obra, no confronto com o ouro e o Sonho e a Vida, com o desejo da imortalidade; esses pedaços de sensação que ecoam na literatura de dor e coacção oferecem as primaveras que vêm antes do tempo, os invernos que já lá vão, enfim, o cromatismo veraneante trespassando uma bandeira branca no ventre da noite.

A noite chega, inevitavelmente, inexorável. Um consílio final, que quatro paredes separam dos mortos cavalgando atrozmente pelos vivos, e que se reverta a ordem, tanto se dá para Brandão como para a congregação, delibera o fascismo visionário (de 1918, pois claro) das medidas correctas, das morais destruídas e da influência da Igreja no controlo das multidões vítreas de clamor e loucura que batalham lá fora: a sensação de ciclo político estabelece-se, a crítica social e estadista desmorona, bravia, um universo pútrido de corrupção. E mostra-se actual, sempre actual, nas vicissitudes da sua metafísica ácida; e corrói por dentro pela mordacidade com que impõe o reconhecimento individual dessa ignóbil faceta, oculta no nosso âmago, contemporânea na sua intemporalidade.



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