Indie Lisboa

O cinema independente invade a capital.

Depois de duas grandes edições, o Indie está de regresso. A edição 2006 do Festival de Cinema Independente de Lisboa  promete ser a maior de sempre: cerca de 3000 filmes inscritos, 300 na programação final, 6 salas de cinema (Londres, King e Fórum Lisboa), 14 estreias mundiais, 7 internacionais e 2 europeias, 55 filmes portugueses e 500 mil euros de orçamento. De 20 a 30 de Abril, o cinema de qualidade vai invadir a capital. A não perder.

Embora mantenha a filosofia das duas edições anteriores, apostando na qualidade e originalidade das películas, a edição deste ano do IndieLisboa é a primeira “a sério”, já que contou com um ano de planeamento (ao contrário da anterior que teve que ser “montada” em apenas seis meses). A programação é, mais uma vez, bastante eclética e estará repartida por diversas secções (à semelhança das edições anteriores). Neste aspecto as principais novidades deste ano são a nova secção laboratório e uma programação especialmente dedicada à música – IndieMusic.

Nos próximos parágrafos podem ficar a conhecer alguns dos destaques da vasta programação do festival, bem como uma entrevista exclusiva aos directores do Indie Lisboa.

A COMPETIÇÃO OFICIAL

Uma das secções indispensáveis em qualquer festival é a competitiva. A Competição Oficial de Longas e Curtas-Metragens do IndieLisboa 2006 é composta por filmes nunca antes apresentados publicamente em Portugal e terminados em 2005 ou 2006. Na secção das Longas-Metragens serão apresentados 12 filmes (primeiras e segundas obras), que pretendem reflectir a renovação que países fora do circuito de produção habitual estão a trazer à linguagem cinematográfica.

Os filme seleccionados visam também abranger as diversas áreas da produção cinematográfica cruzando a ficção com o documentário. De todos os filmes que vão estar em competição, podemos destacar a presença de “The Death of Mr. Lazarescu” (Roménia) de Cristi Puiu, já premiado em Cannes no ano passado, “Sehnsucht” (Alemanha), de Valeska Grisebach, que estreou no Festival de Berlim deste ano e “Um Pouco Mais Pequeno que o Indiana”, de Daniel Blaufuks, o único filme português nesta competição e que conta com a música dos Dead Combo.

Todos os filmes são acompanhados por um júri que será constituído pela programadora australiana Michelle Carey, pela realizadora argentina Albertina Carri, pelo programador americano John Cooper (Festival Sundance), pelo produtor japonês Masa Sawada e pelo músico português J. P. Simões (Belle Chase Hotel e Quinteto Tati). No que diz respeito às curtas, vão estar presentes 37 obras a concurso (entre as quais oito portuguesas), que serão avaliadas por um outro júri internacional, composto pelo realizador Marco Martins (Alice), a produtora Sonia Voss e o documentarista Ken Wardrop

OUTRAS SECÇÕES – Herói Independente, Observatório..
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Para além dos filmes em competição, vão passar muitas películas de qualidade pelo Indie Lisboa. Depois de ter “homenageado” o novo cinema argentino na edição anterior, o festival decidiu exibir a retrospectiva integral de quatro realizadores na secção “Herói Independente”. Assim, serão exibidas as obras do português Edgar Pêra, do austríaco Michael Glawogger,d o japonês Nobuhiro Suwa e do americano Jay Rosenblatt (leiam a entrevista para perceberem melhor esta escolha).

No “Observatório”, tal como nas edições anteriores, são exibidas Longas e Curtas-Metragens, que, não podendo integrar a competição official, são obras essenciais no panorama do cinema independente contemporâneo. Da vasta programação desta secção destacamos as ante-estreias dos mais recentes trabalhos de Abel Ferrara (“Mary”), Larry Clark (“Wassup Rockers”) e de John Hillcoat (“The Proposition”), um dos grandes acontecimentos cinematográficos deste ano, com argumento e música a serem assinados pelo cantor e compositor Nick Cave.

As películas mais “arriscadas” e “experimentais” têm também o seu cantinho no Indie. No “Laboratório” o nosso maior destaque recaí sobre “Drawing Restraint 9”, a película que marca o regresso de Matthew Barney à realização e que conta com a participação da sua esposa, a islandesa Björk.

Ainda haverá tempo e espaço para outras “sessões especiais”. Será apresentada uma retrospectiva dos 90 anos da curta-metragem sueca e uma selecção de filmes do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística. Haverá a habitual área dedicada aos mais novos – Indiejúnior, bem como uma secção “Director’s Cut”, onde serão apresentados dois filmes recentemente recuperados: “The Winter Soldier”, do colectivo Winter Film, e “Coming Apart”, do americano Moses Allen Ginsberg.

Outra iniciativa inédita, e em fase experimental, é o IndieMusic, um programa especialmente criado para as meias-noites do IndieLisboa, que será constituído por uma dezena filmes, sobretudo documentários, nos quais a música, nomeadamente a cena pop/rock independente, é o principal tema e algumas das suas figuras mais carismáticas os intervenientes em foco. Destaque para “The Devil and Daniel Johnston” de Jeff Feuerzeig, “The Fearless Freaks” de Bradley Beesley, “Is It Really So Strange” de William E. Jones, “Leonard Cohen: Im Your Man” de  Lian Lunson, e “Neil Young: Heart of Gold” de Jonathan Demme .

O IndieLisboa 2006 abre, a 20 de Abril, com a antestreia de “Me and You and Everyone We Know”, primeira longa-metragem da artista multimedia americana Miranda July, e encerra dia 30 com a antestreia de Twelve and Holding, segundo filme de Michael Cuesta.

ENTREVISTA – aos Directores (Rui Pereira, Nuno Sena, Miguel Valverde)

RDB: Depois do sucesso das duas primeiras edições, quais os objectivos para a edição deste ano?

Indie: Esta é a terceira edição do IndieLisboa, mas a primeira que contou com um ano completo para a preparação do festival. A primeira e a segunda edições foram mediadas por um período de apenas sete meses – O IndieLisboa 2004 aconteceu em Setembro/ Outubro desse ano e, sete meses depois, teve lugar o IndieLisboa 2005. Ganhámos tempo e, com ele, capacidade para pensar e concretizar uma edição que pudesse superar os bons resultados alcançados até aqui, nomeadamente no impacto do IndieLisboa junto do público nacional e na sua afirmação no contexto nacional e internacional dos festivais de cinema congéneres. Acreditamos que esse ganho se vai notar sobretudo na principal marca que define um festival de cinema: a qualidade, coerência e originalidade da sua programação.

A passagem do festival do S.Jorge para a Avenida de Roma é para manter ou, assim que for possível, o Indie volta para o S.Jorge?

Pela dimensão que o festival conquistou em apenas três edições, seria agora impossível “encaixá-lo” nas duas salas do São Jorge. O IndieLisboa assentou na Av. Roma, mas é possível, dado o crescimento que tem vindo a evidenciar, que outras salas possam vir a ser acrescentadas. Mas esta não é uma questão prioritária.

Há uns tempos, recebemos uma carta aberta vossa, denunciando os atrasos da Câmara no pagamento dos apoios prometidos. A situação já está regularizada?

A situação já se encontra regularizada. Aliás, a Câmara Municipal de Lisboa estabeleceu com o festival um protocolo a três anos que permite alguma estabilidade na preparação e execução das próximas edições do IndieLisboa

Uma das observações feitas à edição do ano passado foi a pouca produção portuguesa na programação. Este ano vamos poder encontrar mais filmes nacionais?

Esta é a edição mais portuguesa de sempre. Este ano o IndieLisboa regista um crescimento significativo na selecção de filmes portugueses: será exibido um total de 55 filmes de nacionalidade portuguesa (6 longas e 49 curtas), presentes nas várias secções do festival. O IndieLisboa homenageia pela primeira vez este ano um autor português, Edgar Pêra, de quem será apresentado um programa extenso, e também a estreia absoluta da sua mais recente longa-metragem, “Movimentos Perpétuos – Cine-Tributo a Carlos Paredes”.

O festival tem sido muito bem recebido pelos media nacionais. Como tem sido o feedback internacional?

Desde o primeiro ano que a relação com os meios de comunicação internacionais é uma das principais preocupações do IndieLisboa. Através do trabalho com agências de informação e também graças à construção de uma base de contactos estrangeira, tem ganho algum reconhecimento, tendo já sido referido em revistas da especialidade como os Cahiers du Cinema, a Screen International e a Time Out, imprensa latino-americana e italiana, e também em sites como o filmfestivals e a Indiewire. Este ano, o festival receberá vários jornalistas estrangeiros, nomeadamente dois membros da Hollywood Foreign Press Association, responsável pela organização dos Globos de Ouro, nos EUA.

Na vossa opinião, qual a importância do festival para uma cidade como Lisboa?

Apesar do número de ecrãs de cinema em Lisboa ter mais do que duplicado desde meados dos anos 90, não se pode dizer que a oferta cinematográfica na cidade tenha conhecido idêntico crescimento. A existência de mais salas não significou mais títulos estreados ou maior diversidade das obras exibidas. Contudo, a multiplicação nos anos mais recentes de iniciativas de exibição exteriores ao circuito comercial, demonstra cabalmente que existem públicos para uma oferta não exclusivamente condicionada pelos imperativos pouco imaginativos da distribuição comercial portuguesa. A criação do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa pretendeu, antes de mais, criar um acontecimento estável e estruturante, com uma capacidade de mobilização e de formação de públicos.

Depois do cinema Argentino, a escolha para os heróis independentes recaiu em 4 realizadores. Podem-nos explicar o porquê desta escolha?

A secção Herói Independente é dedicada aos que trabalham em prol de um cinema totalmente livre de pré-conceitos e preconceitos, livre de indústrias pesadas e mercados autistas, livres, sobretudo, de resultados imediatos.

Este ano a escolha recaiu sobre 4 autores. Edgar Pêra é o primeiro homenageado português. Com uma obra multi-facetada, experimental, descomprometida e inclassificável, Pêra trilhou um caminho caracterizado por uma profunda independência. Jay Rosenblatt é um realizador que se dedica exclusivamente às curtas-metragens e o festival não tinha ainda homenageado um autor que trabalhasse neste formato. Rosenblatt conta com uma obra extensa, constituída por curtas-metragens experimentais a preto e branco, compostas a partir de filmes retirados de arquivos históricos, found footage e filmes educacionais do pós-Segunda Guerra Mundial, e que são colecções de reflexões perturbantes sobre a sociedade e as suas políticas.

A escolha de Michael Glawogger remonta já a uma ligação aos tempos em que a Zero em Comportamento programava o Cine 222 e por onde passou o documentário de Glawogger, “Megacities”. A obra do cineasta austríaco permanece inédita no nosso país e a exibição integral dos seus filmes no festival será uma oportunidade única para conhecê-los. Finalmente, Nobuhiro Suwa. O realizador japonês terminou o ano passado o seu mais recente filme, “Un Couple Parfait”. Sendo a sua obra praticamente inédita em Portugal (“H Story” esteve em exibição fugazmente numa sala de Lisboa), o IndieLisboa contextualiza a apresentação do “Un Couple Parfait” através desta homenagem que passará em revista todos os filmes do cineasta japonês.

A linha que separa o cinema independente do “outro” é cada vez mais ténue, isto é, produções que há uns anos podiam ser consideradas “independentes” começam a gerar muitos milhões e a tornar-se mainstream. Concordam com esta afirmação? O que faz de um filme ser independente em 2006?

Ser independente não tem nada a ver com as receitas geradas, mas sim com os objectivos de produção. Este festival continua a procurar os filmes que não fazem depender o seu sucesso das receitas de bilheteira, mas não se incomoda com o sucesso que o filme possa ter.



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