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Jameson Urban Routes 2014 | 24.10.2014 @ Musicbox Lisboa

A evolução da pop britânica mais interessante dos últimos dez, quinze anos

O sinal “Concerto Esgotado” colado à porta do Musicbox pouco antes da hora do começo do concerto dos Fujiya & Miyagi (se, daqui para a frente, for criativo ao escrever o nome da banda, peço desculpa, podem atribui-lo à minha dislexia ou ao excesso de yyy e iii), fazia antever uma sala completamente a abarrotar. Felizmente, apesar do bar do Cais-do-Sodré estar bastante bem preenchido por um público que aguardava principalmente pela banda de Brighton (metade pôs-se a andar mal estes saíram do palco), tal não se verificou. Dava para respirar e para dar o pezinho de dança a que a música dos ingleses motiva.

Os Fujiya & Miyagi tornaram-se notados na primeira metade da década passada por praticarem aquele género que muito latamente estará entre a música de dança orgânica e rock dançável. Como tal, poderão ser postos ao lado de outras bandas surgidas na altura, que trilhavam caminhos semelhantes, como os LCD Soundsystem, The Rapture, !!!. Rótulos e sub-géneros à parte (pouco interessa se uns eram dance-punk, outros pós-punk, outros não sei quê), era óbvio que estes músicos partilhavam pelo menos parte das suas influências – o pós-punk original, que, absorvendo marcas de outros géneros, originou um rock mais vital e menos preso a convenções rockistas. A estas, os Fujiya & Miyagi juntavam outra muito óbvia, até porque muitas vezes declarada pelos próprios, a do krautrock, que, se formos a ver, é um percussor do pós-punk, e influenciou também muitíssimo James Murphy dos LCD, por exemplo.

Contudo, ao contrário das bandas norte-americanas, os ingleses nunca foram propriamente esfuziantes, foram sempre mais cerebrais, induzindo mais uma dança pacífica do que o suor que os outros exigiam. O concerto de passada sexta entra nesta linha. Ao vivo, torna-se também mais clara a ascendência do psicadelismo, logo nas projecções multicoloridas, mas sobretudo nos momentos em que a banda se deixa ir em improvisações que proporcionam viagens interiores aos espectadores, se bem que sempre ritmadas pela motorika do baixo e da bateria. De ressalvar ainda a parcimónia com que David Best, o vocalista principal (que canta sobre temas aparentemente comezinhos), usa a guitarra, minimalista, no osso, quase como um instrumento percussivo, como se tivesse vindo da escola do jazz ou mesmo do pós-hardcore (admito que esteja a ser levado pela minha imaginação; aliás, é provável). Ou melhor, como a música dos Fujiya & Miyagi é feita de instrumentos “verdadeiros” só que nunca se deixa subjugar a qualquer ideia balofa sobre autenticidade. Ou melhor ainda, se o revivalismo pós-rock dos anos 2000 trouxe alguma coisa boa, foi exactamente essa (re)abertura do rock (algo que se foi perdendo nos anos subsequentes).

É, pois, curioso que no palco do Musicbox se lhes tenham seguido os Glass Animals, que também muito latamente se podem enquadrar num fenómeno recente da música britânica: a apropriação da pop e do rock, do pop-rock, das linguagens da música de dança de meados da década de 90 do século passado, mais concretamente o trip-hop e o jungle. Mesmo que distintos musicalmente, xx, James Blake, Alunageorge (estarei a esquecer-me de alguns) bebem todos dessa fonte. Este revivalismo não é tão flagrante como o do pós-punk ou ainda menos do que a recente aproximação ao house (o óptimo álbum dos Disclosure poderia muito bem ser de 1989) e nessa medida será mais interessante. Em concerto, os Glass Animals revelam-se completamente – nas batidas (que dispensavam a bateria demasiado convencional), nos samples, até na versão de «Love Lockdown» de Kanye West (não esquecer que o primeiro trip-hop, o dos Massive Attack, era muito influenciado pelo soul e pelo r&b, assim como os primeiros anos da carreira de West, algo que começou a mudar com o álbum “808s & Heartbreak”, mas não vamos por aí…) -, não deixando, porém, de praticarem o bom e velho género rock. Ou como, nestas coisas da música, tudo funciona por ciclos.

Por falar em ciclos, em idades e quejandos, o que diferencia (ou inferioriza) os Glass Animals face aos Fujiya & Miyagi é a falta de experiência. A banda mais velha, quando está em palco, tem absoluto controlo sobre tudo e dá ideia que o resultado final é o pretendido por todos. No caso dos mais novos, nota-se que andam à procura de qualquer coisa, que ainda querem impressionar. Claro que isso é tanto defeito como qualidade e cada um verá (ou ouvirá) o que quer. Em jeito de remate, escrevo só que as duas bandas foram complementares e que permitiram ver a evolução da pop britânica mais interessante dos últimos dez, quinze anos.



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