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[Joana] Mora na Filosofia #2

Ligou para os Filosófos Anónimos, em que podemos ajudar?

Não sei se há estudos sobre as perguntas que as pessoas fazem umas às outras quando se conhecem. Mas aposto que deve ser qualquer coisa como “como te chamas” e, logo de seguida “o que é que fazes”.  Para a maioria de nós, saber o que o outro faz é meio caminho andado para percebemos do que podemos falar com ele, para que o assunto não seja só o tempo. O problema coloca-se quando a resposta é “sou filósofo”. Hum? Importas-te de repetir? Agora a sério, fazes o quê?

A sério, dedico-me à filosofia. E a reacção seguinte é algo entre o “ah tá bem, e está calor, hein?” ou o “ah sim, então não fazes nada”. Admito. Às vezes há reacções de espanto – e uma vez até houve quem me tecesse uma espécie de elogio.

Não tenho o hábito de perguntar às pessoas o que fazem – confesso que acho que isso não as define; a sua essência não se reduz ao que faz, à sua profissão, por exemplo. Há-de ser mais do que isso. Mas se me perguntam o que faço, respondo: dedico-me à filosofia. O que significa isso?

Lancei a seguinte pergunta nas redes sociais (twitter e facebook): “imaginem que conhecem alguém e que lhe perguntam o que faz. A resposta é sou filósofa/o. O que acham que essa pessoa faz?” As respostas foram várias:

Que gosta de estar sentado como a estátua de Rodin?!
Faz o que a maioria das pessoas não sabe fazer: pensar.
Que está sempre sentada, com um ar inquisidor, e com uma das mãos na face.
É pago(a) para pensar? Tecnicamente, fazer não faz nada…
Estuda, logo, pensa. E vice-versa.
Namora com o conhecimento de um modo igualmente lascivo e querido .
Ensina aos outros a “arte ” de aprender a pensar.. 

A imagem que se cria do filósofo é esta: está sentado, a pensar… “tecnicamente, fazer não faz nada” – como se o pensamento fosse sinónimo de inacção. O pensamento não produz coisas tangíveis ou palpáveis? De imediato, não – embora eu sonhe com o dia em que a ideia que nasce na minha cabeça possa ganhar estrutura, matéria, forma só com a força do pensamento (you may say I’m a dreamer, but I’m not the only one, sim?). Do pensar ao agir vai um passo (ou uma colecção de muitos) e exige vontade – e eis que já temos reunidas as condições para que um filósofo possa ser visto como um ser humano como todos os outros: capaz de pensar, de agir e de harmonizar um com o outro.

Desde 2007 que me dedico à investigação e prática na área da filosofia aplicada. Trabalho junto das escolas, com crianças (a partir dos 3 / 4 anos) e com jovens, mostrando-lhes ferramentas de pensamento, através das quais podem indagar sobre si, os outros e a realidade que os rodeia. Filosofia para Crianças – é assim que se chama ao conjunto de metodologias que visam o “treino dos músculos do pensamento”. Considero que o filósofo se pode integrar numa empresa, fomentando espaços de diálogo e de aprofundamentos das situações que interferem no dia a dia daquela – até defendi uma tese de mestrado onde afirmava isso mesmo.

Conheço outros filósofos que se dedicam a esta “nova” filosofia aplicada (que, no fundo, recupera a forma socrática de estar na vida, passeando pela cidade e lançando questões a quem passava); também eles se debatem com a questão da incompreensão perante aquilo que fazem. Creio que já fazia sentido uma linha de apoio, a criação de um movimento Filósofos Anónimos, para atender as pessoas que se sentem incompreendidas pelos outros, pelo facto de se interrogarem sobre as coisas, de procurarem alternativas para um mesmo problema, por quererem debater assuntos relacionados com a vida e o seu sentido – o emprego, a crise, a educação dos filhos. Hum, eis que reparo. Mas isto não fazemos todos nós, de uma certa maneira?

Nesse caso, todos temos algo de Filósofos Anónimos – a diferença será na forma como aprofundamos, ou não, as questões que nos incomodam – e, já dizia o poeta, pensar incomoda como andar à chuva. E quem me conhece, sabe que eu não gosto de usar chapéu de chuva. Prefiro o incómodo do pensamento, por considerar que só assim chego mais perto do “conhece-te a ti mesmo”.

A Linha Filósofos Anonimos tem vários canais: joanarssousa@gmail.com ou através do twitter @joanarssousa . Podem deixar o vosso pensamento após o sinal. Piiiiiiiiiii

 

Texto de Joana Rita Sousa
Ilustração de Ruaz

Crónicas anteriores: #1



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