John Cale @ CCB

Rolls Royce de Luxo.

É impossível saber com antecedência o que esperar de uma actuação de John Cale, um músico que, tal como nos seus álbuns, alterna bons concertos com outros menos bons. Enquanto que metade da plateia ansiava certamente pelo John Cale mais violento, de “Songs For A New Society”, a outra metade esperava pelo John Cale mais introspectivo e conceptual, que há dois anos editou HoboSapiens. Satisfizeram-se mais os primeiros com o John Cale roqueiro que subiu ao palco do Centro Cultural de Belém para apresentar “blackAcetate”, o seu mais recente trabalho.

Foi após a terceira música, depois dos fotógrafos terem abandonado as imediações, que Cale comunicou com o público pela primeira vez – era um John Cale jovial e, pasme-se, bem disposto – antes de embarcar em força para um concerto à base da guitarra eléctrica, que foi alternando com as teclas e, lá mais para o fim, com a viola acústica.

Pelo meio, revisitou-se a carreira dos últimos anos: ouviu-se o rock mais purista, com coros e resquícios dos Velvet Underground («Helen Of Troy» ou «Turn The Lights On», este último retirado de “blackAcetate”), variações pelo rock progressivo com canções estendidas a solo de guitarra, algumas pérolas musicais que colocaram Cale na divisão dos grandes compositores («Things» ou «Gideon’s Bibble») e algumas raras incursões pelo ambiente mais experimental e conceptual (um magistral «Hush» ou um apaixonado «Magritte»).

Como uma elipse perfeita, o concerto terminou como se iniciou, quase duas horas antes: guitarras electrificadas em riste e a sobreporem-se um John Cale com garra.

Apesar da meia casa que se verificava, o público não se coibiu de pedir o regresso da banda ao palco e estes fizeram a vontade para um encore curto, mas eficaz. Primeiro, com o novo tema «Gravel Drive», canção intimista a exemplificar o que de melhor já fez, e depois com «Pablo Picasso», para uma saída em grande, sob as palmas da audiência.

Cale esteve igual a si próprio, dono de uma voz arrepiante, capaz de arrepiar os pêlos da nuca, mesmo quando entra no domínio menos próprio dos falsetes. A acompanhá-lo esteve uma banda irrepreensível nos lugares certos – bateria, baixo e guitarra – com destaque para o primeiro. Em conjunto foram uma máquina bastante bem oleada e tecnicamente perfeita; faltou-lhes apenas um pouco de arrojo – compensaram em perfeccionismo o que lhes faltou em audácia.

O concerto de John Cale foi como um Rolls Royce de luxo que foi à revisão dos 63 quilómetros (leia-se anos) – aprovado sem problemas de maior.



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