Jornalismo Musical

O Estado da Nação: como anda a escrita sobre música em Portugal?

Com o fim do mítico Blitz na sua versão jornal, a reflexão mostra-se essencial – como anda a escrita sobre música em Portugal?

A notícia chegou recentemente: o Blitz, referência maior na imprensa nacional, terminou recentemente a sua existência enquanto jornal, assumindo-se agora como uma revista mensal.

O fraco rendimento da publicação nos últimos tempos é a justificação apontada. Constatou-se que era inviável um jornal de música semanal em Portugal, afirmou o director Miguel Francisco Cadete aquando do anúncio do fim do jornal. O Blitz surgia, até hoje, como o mais duradouro projecto jornalístico voltado para a música. A reformulação de suplementos anteriormente dedicados somente à música em cadernos voltados para diferentes artes é, também, sinal de uma nova forma de pensar o jornalismo cultural. Deu-se isso no DN com o suplemento 6ª, que veio tomar o lugar do DN:Música. No Público, o Y veio substituir Sons, apanhado de textos exclusivamente dedicados à música. Haverá espaço para um contínuo, regular e multifacetado jornalismo musical em Portugal?

Portugal é um país sem cultura pop, afirma Mário Lopes, colaborador do Y. Contudo, prossegue, existem nichos interessados em ler e escrever sobre música. Em Portugal, país dos oito e oitentas, a pouca oferta no que ao jornalismo musical diz respeito, teve que viver tendencialmente na quase esquizofrénica condição de ser declaradamente underground e mainstream – revelar o desconhecido e enquadrá-lo historicamente, do interesse de um micro-universo de melómanos e, ao mesmo tempo, acompanhar os inevitáveis pesos-pesados do mediatismo, sustenta Mário Lopes. O pior é motivar o público a ler um jornal musical independente e pago, como o Blitz o foi: perante o insucesso dos mais diversos formatos ensaiados nos últimos anos, esse parece ser um mistério insondável que nem os mais modernos estudos de marketing conseguem resolver – ou melhor, que principalmente os mais modernos estudos de marketing não conseguem resolver, remata o jornalista.

O Lugar do Morto

Já no filme Capote o escritor dizia algo curioso sobre a sua relação com outra personagem – ambos haviam sido criados na mesma casa: eu saí pela porta da frente, ele pela das traseiras.
Será o jornalismo musical visto como as traseiras do jornalismo mais convencional? O facto da escrita sobre música ser, tal como a escrita sobre comida ou telenovelas, algo que remete para o lazer, faz com que quem se debruce sobre coisas ditas sérias (política, sociedade) a observe com desconfiança, analisa Luís Guerra, redactor do Blitz. Cristiano Pereira, jornalista do JN, odeia ser tratado por crítico musical. O motivo? Acha-os uns preguiçosos: sou um jornalista da área da Cultura, frisa. Parece-me que a imprensa musical é vista, por leitores e jornalistas, como um jornalismo pobre porque é  um jornalismo preguiçoso, que privilegia a subjectividade de uma crítica em detrimento da investigação, remata.

Ao longo dos tempos, diversos projectos na área da música tentaram a sua sorte no mercado. Fracassaram, quase todos. Porquê? Tal falhanço deve-se a uma multiplicidade de factores, na opinião de Luís Guerra. Investimento fraco, inexistência de publicidade noutros meios que não os do próprio grupo e pouco arrojo das propostas gráficas são algumas das razões apontadas pelo jornalista. Já Cristiano Pereira assegura que tais fracassos denotam uma incapacidade das equipas em seduzir e prender os leitores. Mas não só – o povo português tem poucos hábitos de leitura e de compra de jornais. A isto junta-se a proliferação de publicações digitais que têm vindo a roubar leitores a todos os tipos de jornais e revistas, conclui.

E esses poucos hábitos de leitura nacional terão sido a culpa da necessária reformulação do Blitz? Mário Lopes é da opinião de que os erros de um passado não muito distante, como a colagem a fenómenos efémeros ou a tentativa de passar a imagem de superficialidade juvenil num jornal e numa redacção que nela não se revêem, acabou por tornar inevitável a actual “refundação”. Já Cristiano Pereira acredita que uma das explicações para o sucedido passa pelo crescimento de conteúdos gratuitos na net. O ciber-jornalismo, portanto. Já lá vamos.

Num meio tão conturbado, uma publicação merece destaque pela sua longevidade e pelo fiel trato à música: a Mondo Bizarre. Trimestral, de distribuição gratuita, não há edição em que não esgote a sua tiragem. A evolução da revista tem sido sempre um passo atrás do outro e nunca um maior do que as pernas, afirma a Directora Raquel Pinheiro, sustentando ainda que na revista foi-se abrindo o leque de estilos musicais sem se perder a coerência. Simultaneamente, mantém-se a atenção a outras áreas para além da música (cinema, banda desenhada, literatura, artes plásticas). A ex-colaboradora do DN, Público e Blitz (enquanto redactora) arrisca comparar o cenário nacional com o de lá de fora: que eu saiba, semanário de música só existe um, em Inglaterra, o NME. É possível que seja mesmo um formato esgotado. No fim de contas, contudo, o mais triste é as pessoas perderem os seus empregos, lamenta.

www.o-futuro.pt

Luís Guerra publicou no Blitz, há alguns meses, um texto sobre a crescente implementação do jornalismo musical em formato digital. O jornalismo via Web começa a marcar pontos. O ciber-jornalismo musical está a ganhar influência – mas isso coloca outras questões, como a sua viabilidade financeira ou de que forma se vão sustentar os que produzem os conteúdos, afirma Cristiano Pereira. Já Luís Guerra sustenta que o ciber-jornalismo musical em Portugal é profissional, mas está preso a estruturas maiores: um site é parte de um diário generalista na net (www.discodigital.pt) e outro está associado às rádios de um grande grupo (www.cotonete.clix.pt). Não creio que a net mate o papel – completa-o, na opinião de Raquel Pinheiro. Depois, há a questão da actualidade: No caso da Mondo Bizarre a revista em papel nunca teve notícias nem agenda, que sempre estiveram on-line (www.mondobizarre.com) e que, assim, não perdem actualidade, afirma.

Diversos sites não profissionais apostam ainda em conteúdos voltados para a cultura, isto apesar das adversidades inerentes à não-profissionalização. A dificuldade em conseguir publicidade ou o pouco apoio de empresas não impedem espaços como a Rua de Baixo ou o Bodyspace (www.bodyspace.net) de tentar a sua sorte neste complicado vértice do jornalismo cultural.

Transversal a todo o jornalismo escrito, fruto da perca de leitores ano após ano e de uma expansão não sustentada até meados da década de 90, exige-se contenção nas despesas e, consequentemente, o emagrecimento das redacções – no limite, o mesmo trabalho com menos pessoas – esta é a visão do futuro do meio jornalístico para o colaborador do Y Mário Lopes.

Daqui para a frente resta traduzir o trabalho efectuado numa maior capacidade de sedução para com o leitor. Mas mais está em jogo e o empenho tem mesmo de partir de todos. Até porque, como diz Cristiano Pereira, o jornalismo musical deve ser menos autista e trabalhar mais na área da investigação e procura de respostas às perguntas das novas gerações. A malta tem que deixar de ser preguiçosa e pensar mais no leitor.



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