Joaquim Sapinho

Entrevista exclusiva com o realizador de “Diários da Bósnia”.

Numa época em que os documentários deixaram de ser “o parente pobre” do cinema, conseguindo captar a atenção de cada vez mais público, Joaquim Sapinho regressa ao grande ecrã com “Diários da Bósnia”, uma obra que retrata duas viagens que o realizador português efectuou a Sarajevo no pós-guerra. O filme tem estreia marcada para dia 13 de Julho e será o primeiro documentário nacional a ter distribuição nos cinemas Lusomundo.

Estivemos à conversa com Joaquim Sapinho sobre o seu novo trabalho e, obviamente, sobre toda a dimensão histórica que o mesmo abrange. Uma entrevista reveladora de episódios incríveis vividos em clima de pós-guerra. Leiam-na e não percam este filme.

RDB: Como surgiu esta viagem à Bósnia? O que te motivou para trabalhares neste documentário?

Joaquim Sapinho: Em 96, a guerra já estava a acabar, foi quando houve a possibilidade de ir à Bósnia. Na altura, desafiei o Luís Correia, que tinha feito a imagem do “Corte de Cabelo”, e ele disse logo que sim. Era preciso coragem para ir e eu acho que só tive coragem porque fui com o Luís. Ou seja, a princípio foi uma coisa de dois rapazes aventureiros e eu tinha apenas a ideia de dar testemunho do que se estava a passar naquela guerra.

Quais são as imagens de que te recordas da primeira viagem a Sarajevo em 1996?

O que me ficou na memória foi a descida do Hércules C-130 sobre Sarajevo, em que se via que as casas, quarteirões inteiros, que tinham sido destruídos. Aquilo era real e eu ia aterrar numa cidade verdadeira que tinha sido destruída. A sensação que eu tinha era de incredibilidade. Ainda agora, ao lembrar-me, volta a mesma sensação de irrealidade. Como se eu, apesar das notícias em contrário, continuasse a achar que a guerra era uma coisa do passado, uma coisa que não era possível que existisse na Europa. Foi ver para crer. Como era possível que as mesmas pessoas que desenharam e construíram as cidades também as destruíssem?

Ficaste chocado com o que viste? A dimensão do conflito era bastante superior àquilo que estavas à espera?

A segunda impressão na Bósnia, logo que saí do aeroporto e entrei na cidade, foi de facto de surpresa e choque, porque as casas estavam destruídas, mas não como uma pessoa imagina numa guerra. Cada pessoa tinha atirado da sua casa para a casa do vizinho e a destruição tinha sido feita bala a bala. Centenas e centenas de tiros à volta de cada janela e de cada porta. Não era uma guerra de exércitos nem uma Guerra Civil, estava diante de uma guerra entre vizinhos. Cada casa era uma trincheira e cada rua era uma fronteira. A cidade era um labirinto de fronteiras entrecruzadas, impossíveis de compreender. Quase parecia que as pessoas tinham lutado dentro das próprias casas, as pessoas do quarto ao fundo do corredor contras as pessoas do quarto junto à cozinha.  Metia medo.

O regresso a Sarajevo em 1998 foi diferente? O que se tinha passado em dois anos  de pós-guerra?

O regresso a Sarajevo foi muito diferente. Estava tudo coberto por um manto de neve, ainda havia menos pessoas, reinava o silêncio. E as poucas pessoas que se viam não falavam entre si. Sarajevo parecia uma cidade de zombies. Enquanto na primeira viagem havia uma espécie de excitação de se estar vivo, de se ter sobrevivido, agora reinava o silêncio. Como se as pessoas se tivessem ido embora ou estivessem escondidas, ou simplesmente tivessem desaparecido. A paz parecia mais deprimente do que o final da guerra. No final da guerra sentia-se esperança, mas agora nada.

Achas que houve uma cobertura “ligeira” da tragédia por parte dos media?

Não, acho que não. Acho que os media retrataram bem o retratável, a exterioridade da violência. Mas o meu filme não é sobre isso, é sobre a dificuldade das pessoas viverem com as memórias do que fizeram e do que sofreram numa guerra fraticida. Como viver depois do que aconteceu, isso é que me interessou. O que é duro, aquilo que dói, aquilo que permanece para lá da notícia, como retratar isso? Para mim, essa é que era a questão.

Como caracterizas o povo bósnio? Qual foi o seu papel em toda esta questão?

O povo bósnio é actualmente nomeado como bósnio-muçulmano, bósnio-sérvio e bósnio-croata, ou com outras denominações ainda mais complicadas, que retratam a dificuldade de lidar com uma identidade dividida. Há uma interpretação que diz que a propaganda sérvia incentivou os bósnios-sérvios a atacarem antes de serem atacados. Mas por que é que depois em concreto atacaram? Tinham ou não razões para estarem assustados?

A sensação que se tem lá é que há um ódio enraizado que vem de há gerações, e que, com o fim da “trégua” comunista, os bósnios não conseguiram, nas suas diferentes identidades, entender-se acerca da forma como deviam lidar com a questão da soberania. E a verdade é que também não conseguiram parar de se desentender. Não sei se é possível dar explicações que batam certo com o que aconteceu, porque estamos a falar de pessoas que foram educadas, de maneira até dogmática, sob o princípio da igualdade entre os homens. Mas como culpar um povo em massa? E eu certamente não me quero pôr no lugar de juíz. Mal aterrei na Bósnia, percebi que tinha de suspender o meu julgamento, mesmo não tendo dúvidas de quem eram os responsáveis principais e sobre a legitimidade do Tribunal de Haia.  Porque quando filmamos alguém, e a pessoa está a gritar, o que fica registado é o sofrimento, mesmo que seja de um sérvio-bósnio. O que é medonho na Bósnia é que não parece que ninguém tenha ficado a ganhar com esta guerra. Toda a gente ficou a perder, e por muito tempo.

Falando agora um pouco do documentário. O que pretendeste filmar e mostrar da Bósnia?

O que eu escolhi para mostrar teve sempre que ver com o que me emocionava, e não com uma espécie de visita turística à guerra. O que eu queria era filmar os sobreviventes. Como é que se continua a viver. Porque as pessoas continuam a viver nos mesmos sítios onde foram vítimas ou carrascos. Como é que conseguem continuar a fazê-lo? E os que agora são refugiados? Podem estar a viver numa terra a que chamam sua, mas já não é a “sua” terra. O meu filme é sobre estas questões.

Este registo pretende ser político/religioso ou “apenas” dar a conhecer a tragédia humana causada por uma guerra?

Eu uma vez perguntei como é que os bósnios se distinguiam a si próprios uns dos outros, já que eu não os conseguia distinguir pelo aspecto físico ou pela roupa. E depois explicaram-me que as casas, conforme se é muçulmano, sérvio ou croata, têm tipos de telhado diferentes. Isto permitia os bombardeamentos selectivos à distância. Quanto às pessoas, se não se conheciam por serem vizinhos, o que permitia saber as origens étnicas dos antepassados, o que me disseram é que os muçulmanos são circuncizados, e que, portanto, as famílias eram identificadas através do pai, por exemplo, num auto-stop feito por uma brigada sérvia. Como se não bastasse o horror da limpeza étnica, e ela tivesse de estar coberta por camadas e camadas de humilhação. Mas, se pensarmos que a maior parte das pessoas que eu conheci na Bósnia, apesar de se dividirem em ortodoxos, católicos e muçulmanos, não acredita em Deus, e que isso ficou dos tempos do Comunismo, percebe-se a dificuldade em apreender um conflito destes.

Deves ter conhecido algumas histórias de vida dramáticas. Guardas alguma em especial na memória?

Talvez o mais fácil seja contar uma coisa que me aconteceu directamente, da qual posso dar testemunho, em vez de falar do que ouvi dizer.

No último dia de filmagem da segunda viagem, eu estava em Serebrenica, que pertence ao território sérvio da Bósnia, e onde, em 85, tinha havido o massacre de oito mil muçulmanos. A noite já tinha caído, eu tinha filmado o estádio, agora deserto, coberto de neve, onde tinham sido juntas as pessoas antes de serem levadas para o massacre. Tinha filmado, ao fim do dia, até ter luz, as colinas onde as pessoas morreram e foram enterradas. Tínhamos que ir dormir a Sarajevo. Éramos o último jeep de um convoy da ONU. A estrada estava gelada e não conseguimos acompanhar a velocidade dos outros jeeps. Mesmo assim, numa curva despistámo-nos, capotámos e o jeep ficou virado ao contrário fora da estrada, connosco pendurados nos bancos. Lá conseguimos subir de gatas até à estrada, o jeep estava irrecuperável e ficámos na expectativa se o convoy daria pela nossa falta. Mas isso não aconteceu.

Ali estávamos nós, noite cerrada, num sítio onde odeiam particularmente os estrangeiros por causa das acusações de genocídio. Conseguimos encontrar uns homens, ir até um café e negociar o nosso regresso ainda nessa noite até Sarajevo, mas sempre com medo que nos acontecesse alguma coisa. Ao longo da viagem pela neve e pelas montanhas de cerca de 100 km, percebemos que o condutor e os amigos que nos levavam estavam armados. Forçaram-nos a parar três vezes, saindo da estrada principal, para irmos beber ou comer, em sítios recônditos, como se houvesse razões para celebrar. Mas o essencial da história é que quando chegámos à fronteira entre a parte sérvia e a parte muçulmana da Bósnia, que ainda está a cerca de 10 km de Sarajevo, os sérvios queriam-nos deixar ali na terra de ninguém. Eram cinco da manhã, não se via vivalma, faziam doze graus negativos, e nós estávamos acordados há cerca de 24 horas. É tanto ainda o terror que têm uns dos outros que eles não se arriscavam a passar a fronteira, apesar de não haver ninguém. Isto diz bem das feridas desta guerra.

Já voltaste a Sarajevo após o final das filmagens? Nota-se alguma capacidade de recuperação por parte do povo e da sociedade, ou as feridas causadas pela guerra ainda vão demorar muito a sarar?

Basta compararmos com o que está a acontecer com Timor. Foi criado um país, as tropas internacionais partiram, os indonésios não ameaçam, e as coisas internamente correm muito mal. Na Bósnia houve outra clarividência, e, por isso, a situação mantém-se igual à do fim da guerra. A sensação que dá é que tudo voltaria ao mesmo se as tropas internacionais partissem. Por um lado, temos o perigo das pessoas se voltarem a matar e da vingança não ter fim, por outro, temos uma situação de apartheid que também não é aceitável em 2006 na Europa. Uma coisa é certa, é preciso encontrar uma maneira em que as pessoas voltem a viver juntas e em paz. E isso é que é difícil.

Achas que o povo português “passou ao lado” desta guerra?

Como Portugal resolveu o problema muçulmano e judaico através da integração absoluta e da expulsão até ao século XV, e, como mais tarde, com a descolonização, também só restou um caminho a quem quis vir para Portugal que foi a integração absoluta, eu penso que, para nós, é difícil conceber os problemas da multiculturalidade. Porque, verdadeiramente, não os aceitamos. Mas esse problema é um problema incontornável no mundo, e também com a imigração, principalmente de Leste, Portugal virá a ter de lidar com ele.

Um documentário deste género é algo raro na cinematografia portuguesa. Achas que vai ser bem recebido? Temos público em Portugal interessado neste tipo de documentos?

Fazer um filme, e particularmente em Portugal, é um acto pessoal. Eu, pela minha parte, sinto que os problemas europeus são meus. A cada um a sua resposta.

Tens outros projectos para o futuro que possas revelar?

Quero ter um filme pronto para o próximo ano, mas só posso dizer que não podia ser mais oposto a este filme da Bósnia. Não é sobre a morte e a política, é sobre o crescimento e a entrada na vida. Mas mais não posso dizer.



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